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Moradores do Rio Arapiuns guiam turistas por trilhas e revelam os segredos dos frutos nativos na floresta de igapó

Os moradores das comunidades ribeirinhas e indígenas localizadas ao longo do Rio Arapiuns, um dos afluentes de águas cristalinas do Rio Tapajós, em Santarém, no oeste do Pará, estruturaram roteiros de ecoturismo e etnobotânica focados no reconhecimento e na coleta sustentável de recursos florestais não madeireiros.

Nas complexas tramas geográficas da Amazônia, o turismo de base comunitária (TBC) desponta como uma das alternativas socioeconômicas mais eficientes para promover a conservação ambiental e valorizar o modo de vida das populações tradicionais. Nas margens do Rio Arapiuns, onde as águas escuras e limpas serpenteiam por entre praias de areia branca e florestas densas, as comunidades locais deixaram de ser meras espectadoras do turismo convencional para assumirem o protagonismo da atividade. Detentores de um conhecimento empírico monumental sobre os ciclos da floresta, os comunitários guiam viajantes do mundo inteiro por trilhas terrestres e aquáticas, revelando como a biodiversidade local se organiza e ensinando a identificar e coletar os frutos nativos que sustentam a fauna e a culinária regional no ecossistema único do igapó.

A floresta de igapó, um dos ambientes mais cenográficos da Amazônia, caracteriza-se por permanecer inundada por águas pretas ou claras durante vários meses do ano, acompanhando o pulso de cheia dos rios alimentados pelas chuvas tropicais. Para caminhar e navegar por esse labirinto de árvores com troncos semi-submersos, o papel do guia comunitário é indispensável. Nascidos e criados no território, esses condutores desenvolveram uma leitura refinada dos sinais da natureza. Eles sabem interpretar o nível das águas, antecipar a presença de ventos e tempestades e conduzir os turistas de forma totalmente segura em pequenas canoas a remo ou rústicas rabetas por entre os igapós, onde o silêncio da mata é quebrado apenas pelo canto das aves e pelo borbulhar da água nas raízes aéreas.

Durante a imersão nos igapós e nas áreas de transição para a terra firme, os guias demonstram como as espécies vegetais se adaptaram para produzir frutos altamente calóricos de acordo com o calendário hidrológico. Uma das palmeiras mais procuradas e apresentadas aos turistas é o camu-camu (Myrciaria dubia), um arbusto que cresce nas margens inundáveis dos rios e cujos frutos esféricos e arroxeados são famosos por conterem uma das maiores concentrações de vitamina C do reino vegetal mundial. Os guias ensinam os viajantes a colherem o fruto diretamente dos galhos que tocam a água e explicam como a polpa ácida é utilizada localmente no preparo de sucos refrescantes, sorvetes e geleias artesanais.

Outro fruto emblemático que os moradores do Arapiuns ensinam a identificar e coletar é o mari-mari (Cassia leiandra), uma vagem alongada que amadurece justamente no pico da cheia dos rios. Os guias comunitários demonstram a técnica correta de abrir a casca dura da vagem para acessar a polpa escura, fibrosa e intensamente adocicada que envolve as sementes, um petisco natural muito disputado pelos ribeirinhos e pelos peixes frugívoros da região, como o tambaqui e o pacu. A vivência turística foca na compreensão do ciclo biológico: o turista aprende que, ao colher o mari-mari de forma consciente, ele participa de um elo ecológico que conecta a flora arborícola à fauna aquática que realiza a dispersão das sementes rio abaixo.

Nas trilhas que avançam em direção às áreas mais altas e secas de terra firme que cercam o Rio Arapiuns, a diversidade de frutos nativos se multiplica sob a condução dos guias locais. Os visitantes acompanham a busca pelo taperebá (Spondias mombin), também conhecido como cajá, cujos frutos amarelos e perfumados cobrem o solo da mata e são coletados pelas mulheres da comunidade para a produção de polpas vendidas nos mercados de Santarém. O roteiro inclui também a demonstração do manejo do tucumã (Astrocaryum aculeatum) e do uxi (Endopleura uchi), frutos de casca fibrosa e polpa oleosa que constituem pilares históricos da segurança alimentar e da medicina tradicional da população da Amazônia.

A experiência do turismo de base comunitária no Rio Arapiuns estende-se até as cozinhas e quintais produtivos das vilas ribeirinhas, como as comunidades de Anã e Carariacá. Após a caminhada de coleta na mata, os turistas participam de oficinas gastronômicas coletivas ministradas pelas cozinheiras locais. Nessas vivências, os visitantes aprendem a processar os frutos colhidos, transformando a mandioca e os condimentos nativos em pratos típicos como o tucupi com peixe fresco e sobremesas à base de cupuaçu e bacuri, gerando uma troca cultural profunda que valoriza a culinária de raiz e promove a geração de renda interna distribuída de forma equitativa entre os moradores.

Do ponto de vista econômico e da sustentabilidade climática, o ecoturismo comunitário no Arapiuns atua como um escudo protetor contra o avanço das atividades ilegais na região, como a extração predatória de madeira e o garimpo de ouro que ameaçam as cabeceiras dos rios. Ao perceberem que a floresta de igapó preservada atrai um fluxo regular de viajantes dispostos a remunerar os serviços ambientais e os saberes tradicionais, as comunidades fortalecem a fiscalização de seus territórios coletivos e evitam o desmatamento, provando de forma factual que a bioeconomia dos produtos não madeireiros e dos serviços turísticos é viável e lucrativa no longo prazo.

Garantir a expansão segura desse modelo turístico no interior do Pará exige investimentos contínuos em infraestrutura de saneamento básico sustentável, tratamento de resíduos sólidos nas vilas e na melhoria dos canais de comunicação digital e logística náutica para as regiões remotas. As associações de moradores necessitam de suporte técnico institucional para gerir os recursos financeiros obtidos e para certificar seus condutores de turismo de acordo com as normas de segurança nacionais, assegurando que o aumento do fluxo de pessoas não cause impactos negativos na dinâmica sociocultural e biológica das comunidades.

Caminhar pelas trilhas e navegar pelos igapós do Rio Arapiuns guiado pelas mãos de quem vive e protege a floresta é uma das experiências de viagem mais transformadoras e autênticas disponíveis no Brasil. O turista deixa o território não apenas com fotografias na memória, mas com uma compreensão ampliada sobre a sofisticação botânica e a relevância climática do ecossistema amazônico. Ao valorizarmos o turismo comunitário e apoiarmos o manejo sustentável dos frutos nativos, asseguramos a permanência desses guardiões em suas terras, mantendo os rios limpos, a floresta em pé e a cultura tradicional viva para todas as futuras gerações do planeta.

Moradores do Rio Arapiuns guiam turistas por trilhas e revelam os segredos dos frutos nativos na floresta de igapó | Conheça o turismo de base comunitária em Santarém, as técnicas de coleta e a riqueza botânica das áreas inundáveis da Amazônia.

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