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Amazônia: Estado falha em prevenção, age só após catástrofe

Amazônia: Estado falha em prevenção, age só após catástrofe
Foto: diplomatique.org.br

A região amazônica sofre com inação do poder público, mesmo com alertas científicos claros.

A Amazônia enfrenta uma das mais profundas contradições da crise climática contemporânea. O Brasil possui tecnologia avançada para prever secas, incêndios e colapsos hídricos com meses de antecedência. No entanto, entre o conhecimento científico e a proteção efetiva da vida na região, existe um abismo político. Esse cenário revela a fragilidade do Estado em territórios onde a prevenção deveria ser prioridade.

O fenômeno El Niño, por exemplo, não é uma surpresa. Seus efeitos, como a redução das chuvas, seca extrema, aumento de incêndios e queda dos níveis dos rios, são previsíveis. A novidade não está no fenômeno climático, mas na maneira como ele expõe a arquitetura desigual do poder público brasileiro, que historicamente negligencia a região.

A Crise Climática como Reveladora de Desigualdades

A crise climática não atinge um território vazio. Ela incide sobre uma Amazônia marcada por conflitos fundiários, racismo ambiental e precarização dos órgãos de fiscalização. A ausência de políticas públicas permanentes, o avanço da grilagem, mineração e agronegócio, além de grandes projetos de infraestrutura, criam um contexto de vulnerabilidade acentuada.

Tratar o El Niño apenas como um fenômeno natural é ignorar sua dimensão política. A seca pode ser agravada pelo aquecimento global e os incêndios intensificados pela combinação de calor e estiagem. Contudo, a ausência de servidores ambientais, a falta de mapas atualizados e a precariedade do transporte fluvial são escolhas históricas e não fenômenos naturais. Segundo informações do Supremo Tribunal Federal, a ADPF 743 expôs essa realidade em 2026, ao cobrar da União e dos estados da Amazônia Legal e do Pantanal ações concretas contra os efeitos do El Niño.

O Abismo entre Planejamento e Execução

A atuação recente do Supremo Tribunal Federal, por meio da ADPF 743, permitiu observar de perto essa engrenagem. Ao solicitar informações sobre as medidas de preparação para o El Niño, o STF forçou o Estado brasileiro a confrontar sua própria realidade. O que se revelou não foi apenas a ausência de planos, mas a grande distância entre o Estado que planeja e o Estado que realmente executa, entre a promessa e a ação efetiva.

A União mobilizou recursos, contratou brigadistas e destinou verbas do Fundo Amazônia, publicando portarias de emergência. Tais ações são importantes. No entanto, esses recursos federais não se convertem automaticamente em proteção real quando encontram estados desestruturados, órgãos ambientais subfinanciados e territórios historicamente negligenciados. Isso evidencia a confluência da crise climática com a crise do federalismo brasileiro.

Federalismo e Capacidade Institucional

A federação brasileira convive com uma profunda assimetria entre responsabilidades formais e capacidades reais. Estados e municípios na Amazônia recebem competências constitucionais, mas nem sempre dispõem das condições institucionais, técnicas e financeiras para exercê-las. Os territórios imensos, as distâncias fluviais, as populações dispersas e os conflitos fundiários resultam em uma presença estatal fragmentada.

As regiões mais expostas à destruição ambiental são frequentemente as que possuem menor capacidade pública de prevenção. As respostas estaduais analisadas na ADPF 743 confirmam essa fragilidade estrutural. Há passivos enormes no Cadastro Ambiental Rural (CAR), falta de analistas, bases cartográficas desatualizadas e sistemas de informação precários.

Entenda o caso

O Cadastro Ambiental Rural (CAR), visto frequentemente como um instrumento meramente burocrático, é, na verdade, uma infraestrutura política essencial para a governança territorial. Sem seu funcionamento adequado, o Estado não consegue identificar com precisão quem ocupa terras, quem desmata, quem provoca incêndios, ou onde os riscos ambientais se acumulam. A ineficácia do CAR não é apenas um atraso administrativo, mas uma “cegueira institucional” que impede a prevenção e apenas contabiliza os danos após a ocorrência.

A Seletividade do Estado e Suas Consequências Sociais

Essa “cegueira” não é neutra, pois afeta desproporcionalmente territórios indígenas, comunidades quilombolas, povos ribeirinhos, extrativistas e periferias urbanas. São essas populações que vivem mais próximas das áreas de conflito, mais distantes dos serviços públicos e mais expostas aos efeitos combinados da seca, fumaça, fome e contaminação da água.

A fumaça, por exemplo, tem classe, cor e território. Ela penetra primeiro nas casas mais frágeis, nas comunidades sem saneamento e nas aldeias sem atendimento regular de saúde. Enquanto setores privilegiados podem adquirir água purificada e filtros de ar, a maioria da população amazônica depende de políticas públicas que deveriam chegar antes do colapso. Quando o Estado falha, o desastre deixa de ser apenas climático e se torna socialmente produzido.

A Amazônia não é pobre por estar isolada, mas sim empobrecida por um modelo econômico que extrai valor de seus territórios e deixa para seus povos os custos sociais, sanitários e ambientais da destruição. Há uma seletividade do Estado: ele se faz presente para viabilizar a exploração econômica, mas ausente ou ineficaz na proteção de comunidades e na fiscalização de ilegalidades, o que transforma a emergência em método de governo.

Um Estado Preventivo e Territorializado

A Amazônia não precisa apenas de um Estado que reaja à catástrofe. Necessita de um Estado territorializado, preventivo, democrático e enraizado nas comunidades. Isso implica reconhecer que povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas não são apenas público-alvo, mas sujeitos políticos produtores de conhecimento essencial para enfrentar a crise climática.

A ciência climática é indispensável, mas na Amazônia, ela precisa dialogar com os saberes dos territórios. Sem essa aliança, o planejamento continuará chegando tarde. Fortalecer brigadas comunitárias, estruturar defesas civis locais, garantir transporte fluvial público e proteger territórios coletivos são passos cruciais para que a adaptação climática não seja apenas uma agenda administrativa, mas uma verdadeira transformação social. O debate e as ações para a mudança precisam ser intensificados o quanto antes, visando uma Amazônia resiliente e justa, especialmente diante dos prognósticos para os próximos anos sobre eventos climáticos extremos na região.

Perguntas Frequentes

O que é a ADPF 743?

A ADPF 743 é uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental que tramita no Supremo Tribunal Federal. Ela exige que a União e os estados da Amazônia Legal e do Pantanal apresentem e executem planos para combater o El Niño e os incêndios florestais.

Por que a Amazônia é tão vulnerável aos efeitos do El Niño?

A Amazônia é vulnerável devido à combinação de fenômenos climáticos extremos com profundas desigualdades sociais, ausência de políticas públicas preventivas, infraestrutura precária e o avanço de atividades econômicas predatórias que fragilizam o meio ambiente e as comunidades locais.

Qual o papel do Cadastro Ambiental Rural (CAR) na prevenção de desastres na Amazônia?

O CAR é fundamental para a governança territorial. Sem um sistema de CAR eficiente e atualizado, o Estado não consegue identificar ocupações irregulares, áreas de desmatamento, focos de incêndio e potenciais conflitos, tornando a prevenção de desastres muito mais difícil.

Com informações de Le Monde Diplomatique.

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