

Expansão acelerada de infraestrutura digital cria novas zonas de sacrifício e captura recursos que deveriam reduzir emissões de carbono.
Entre 2017 e 2023, o consumo global de eletricidade cresceu a uma velocidade quatro vezes superior ao aumento da oferta de energia, segundo dados da Agência Internacional de Energia (EIA). Esse salto coincide com a expansão da digitalização e da inteligência artificial, que demandam infraestrutura crescente de data centers. O fenômeno marca a entrada na chamada Idade da Eletricidade, mas traz consigo um paradoxo: energia renovável é apresentada como solução limpa, enquanto novos impactos socioambientais são normalizados sob o argumento do progresso tecnológico inevitável.
A eletrificação tornou-se estratégia central para reduzir emissões de gases de efeito estufa na indústria e no transporte. Ao mesmo tempo, a digitalização global, especialmente com a implementação e as projeções sobre a inteligência artificial, acelera a demanda por eletricidade. Esse movimento duplo alimenta a confusão entre energia renovável e energia de baixo impacto. Energia solar e eólica não emitem CO₂ diretamente, mas seus processos de extração de matéria-prima, fabricação, transporte e instalação geram emissões indiretas. Além disso, há impactos no uso do solo, na biodiversidade e na criação de novas zonas de sacrifício, regiões que o poder econômico e político julgam descartáveis em nome do desenvolvimento.
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A Amazônia equatoriana, por exemplo, exporta balsa para a China, madeira usada na fabricação de pás de turbinas eólicas. O lítio, recurso crítico para carros elétricos e baterias, é outro caso emblemático. Ambos ilustram o que se chama de extrativismo verde: práticas como mineração e silvicultura predatória que, sob o pretexto de fomentar tecnologias limpas, exploram a natureza de forma não-renovável. Esse modelo deixa rastro de alteração e contaminação de ecossistemas, superexploração do trabalho local e até trabalho escravo.
O extrativismo verde reforça também uma troca econômica e ecológica desigual. Países do Sul Global exportam matéria-prima barata, mas ficam excluídos da tecnologia final, mais cara. Há vários planos de política industrial dita verde no Sul Global que visam corrigir essa assimetria. No plano econômico da vantagem comparativa e do controle da cadeia de suprimentos, a proposta faz sentido. Mas o desprezo pelos limites planetários normaliza novas zonas de sacrifício, inclusive digitais, regiões que devem aceitar impactos em nome do desenvolvimento.
No Brasil, essa realidade já atinge moradores de áreas de mineração. Com a busca por posicionar o país como provedor de terras raras, tanto a esquerda desenvolvimentista quanto a direita entreguista contam a mesma história: esses minérios são estratégicos e, de uma forma ou de outra, a extração é inevitável. Processos de consulta e avaliação costumam ser atropelados, injustos, e o direito de a população afetada vetar determinado empreendimento raramente é garantido.
Adesão acrítica à Idade da Eletricidade
O segundo problema é a adesão acrítica à Idade da Eletricidade num contexto de expansão da digitalização que mal considera o impacto de novas tecnologias no mundo do trabalho, quanto mais em termos ambientais e comunitários. O uso de eletricidade, solo e água para fins de digitalização não é questionado na escala devida. O discurso prevalente diz que, se há inovação, deve-se abrir caminho, pois é importante para a economia, o desenvolvimento e o futuro.
Esse tipo de discurso favoreceu a mística em torno da bolha de IA, capturando investimento em grau nunca antes visto. Para atingir metas de expansão, corporações demandam mais data centers e mais recursos, sem refletir se tudo isso é realmente necessário. Quando limites planetários são ignorados e as corporações determinam os rumos da indústria, da pesquisa e da tecnologia, fica fácil afirmar que a IA é inevitável e, portanto, qualquer zona de sacrifício atrelada à sua expansão é aceitável.
Pegada hídrica e energética dos data centers
Entre críticos da expansão da IA e da demanda por armazenamento de dados, tornou-se comum falar de pegada hídrica. Embora a água seja abundante no planeta, os ciclos hídricos e a disponibilidade variam, estão sob estresse climático e representam competição constante entre sustentar a vida e alimentar o lucro de setores econômicos. O cálculo exato de quanta água é necessária para resfriamento de data centers, especialmente no caso de IA, é complexo.
Não há um cálculo totalmente confiável sobre o consumo de água pelos data centers de IA. Esse consumo depende de variáveis diversas: chips usados, método de resfriamento (com uso direto de água ou não), localização no planeta, construção do edifício, fonte de energia e eficiência energética do modelo de linguagem. Cada uso de IA pode envolver quantidades muito diferentes de requisições. Pedir ao ChatGPT que escreva um e-mail exige muito menos recursos do que gerar uma imagem ou uma apresentação de slides.
Enquanto isso, big techs investem em adaptações tecnológicas para facilitar o resfriamento de chips de IA. Há projetos com resfriamento por imersão (evitando perda por evaporação), inserção de líquidos especializados e até data centers debaixo d’água, como o projeto-piloto da Microsoft na Escócia, alimentado por energia eólica. Mas esse caso serviu para alimentar argumentos de que o futuro já chegou, mascarando uma realidade distinta: a maioria dos data centers ainda depende de carvão, combustível fóssil de altas emissões e grande impacto de mineração. A maioria dessas estruturas é terrestre.
Entenda o caso
A expansão de data centers está ligada à volta de termelétricas de carvão em todo o mundo, inclusive na China, mesmo com a velocidade impressionante da expansão solar e eólica no país. Isso reforça o argumento de que, em vez de uma transição energética, o mundo vive um movimento de adição energética, ainda que com certa diversificação. Há bastante captura energética: a expansão da oferta ocorre para usos e destinos já definidos. Um exemplo seria a construção de um projeto de renováveis especificamente para atender a um novo data center, quando poderia servir para substituir uso já existente de energia a carvão.
Estima-se que, em cerca de 10 anos, o consumo energético global terá aumentado tanto que esse acréscimo será equivalente ao consumo de uma segunda União Europeia. Data centers, principalmente aqueles otimizados para IA, fazem parte dessa maior demanda por energia. Isso traz implicações importantes tanto globais quanto locais. A expansão contínua de data centers tende a aumentar as zonas de sacrifício diretas, pelo impacto hídrico, pela demanda energética, pelo uso do solo e até pela interferência nos ecossistemas marinhos. Além disso, conecta-se às zonas de sacrifício do extrativismo, por demandar recursos em grande escala em cadeias de extração, como metais para chips e sílica para células fotovoltaicas da energia solar do tal data center renovável.
Brasil como provedor de recursos
China e Estados Unidos dominam o mercado de data centers. O papel do Brasil pode parecer ínfimo nessa história, mas esse argumento apenas serve a quem tenta minimizar o horizonte de impacto dos data centers no país. Mesmo que o Brasil represente uma minúscula fatia do mercado global, os impactos locais são reais. O país está atraindo mais e mais projetos de novos data centers porque sua matriz elétrica já é mais descarbonizada do que a média. Se há problemas de oferta de água em outros países, por que não instalar essas infraestruturas no Brasil, onde diferenças regionais e de bioma são ignoradas para alimentar uma imagem de abundância e alta disponibilidade de recursos naturais?
Ainda que os data centers consigam, no futuro, superar sua necessidade direta de água com a adoção de outros modelos de resfriamento, essas novas tecnologias podem aumentar ainda mais o gasto elétrico, por estarem em constante expansão. Ou seja, economiza-se um recurso aumentando o uso de outro, por não reconhecer limites ao crescimento. Mesmo que os data centers consumam energia em países mais descarbonizados, diminuindo o impacto em emissões, a perspectiva de expansão constante dessas estruturas traz outras consequências negativas.
Atualmente, o Brasil vive cenário de excesso de oferta de energia, no qual o Operador Nacional do Sistema Elétrico tem determinado cortes de geração em horários de baixa demanda para evitar sobrecarga das redes. A indústria digital alega que está ajudando a resolver esse problema, ao mesmo tempo em que avisa que precisará de ainda mais energia no futuro. O setor opera ao redor do mundo com características de bolha, para alimentar sua busca infinita por capital.
Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Defesa de Consumidores (Idec), o Brasil vai sendo empurrado a entrar na corrida da IA, não como um grande player, mas como provedor de matéria-prima, território, água, energia e dados, lógica própria do colonialismo de dados. Faz-se necessário um bom debate sobre soberania digital no Brasil. Esse projeto deve incluir uma política justa e bem planejada de data centers no país, mas visando usos prioritários, segurança de dados e redução da dependência das big techs no cotidiano.
A expansão dos data centers que se vê hoje, porém, não se submete a essa visão. Para piorar, a questão ecológica é reduzida à visão de túnel de carbono, retórica que alega ser melhor colocar um data center no Brasil do que em um país com mais emissões. O impacto hídrico não é levado a sério, muito menos a relação entre o crescimento dos data centers e a demanda por mais minerais críticos. Necessários para eletrificar setores hoje dependentes do petróleo, jazidas de metais como lítio e cobre vão sendo consumidas pela digitalização crescente.
Necessidade de olhar global sobre zonas de sacrifício
Uma transição energética justa e radical exigirá muitos recursos para a implementação de renováveis. Por mais que seja desejável, não se pode ser leviano com impactos socioecológicos nem esquecer que há outros limites planetários além da questão das emissões. A mudança climática é uma crise catalisadora de outras crises, mas examiná-la de maneira isolada pode favorecer deslocamento de impactos para outras partes do planeta, isso quando não causa novos problemas políticos.
A falta de um olhar global pavimenta o caminho para novos colonialismos mesmo quando se molda o debate sobre indústria e desenvolvimento nacional em termos anti-imperialistas. É importante articular a discussão sobre as novas zonas de sacrifício criadas pela instalação de data centers, em que recursos como água e energia são entregues de bandeja ao setor digital, com propostas que abordem a soberania digital a partir de uma perspectiva ecológica, o que se pode chamar de soberania ecológica. Isso permitiria expandir considerações, conectando, por exemplo, a resistência de comunidades afetadas pela mineração de lítio na Argentina com a luta contra a instalação de megadados no Ceará, traçando um fio comum de injustiça ambiental e colonialismo de dados.
O próximo passo do debate exigirá dados mais precisos sobre o consumo hídrico e energético de data centers no Brasil, além de processos de consulta que garantam veto comunitário a empreendimentos de alto impacto. A narrativa de inevitabilidade tecnológica precisa ser confrontada com a defesa de limites planetários e justiça socioambiental.
Perguntas frequentes
Energia renovável usada por data centers é realmente limpa?
Energia renovável não emite CO₂ diretamente, mas tem emissões indiretas (extração, fabricação, transporte) e impactos no uso do solo, água e biodiversidade. Não é infinita nem isenta de impacto.
O que são zonas de sacrifício digitais?
São regiões onde o poder econômico e político impõe impactos socioambientais (hídrico, energético, uso do solo) para viabilizar infraestrutura digital, sob o argumento de que o progresso tecnológico justifica esses danos.
Por que o Brasil atrai tantos projetos de data centers?
A matriz elétrica brasileira é mais descarbonizada que a média global, o que atrai empresas que querem reduzir sua pegada de carbono. Mas a disponibilidade de água e energia no país é apresentada de forma enganosa, ignorando diferenças regionais e limites ecológicos.
Com informações de The Intercept Brasil.
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