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Uma alga cultivada no litoral brasileiro fez a hortelã crescer mais e ficar cheia de novos ramos

Uma alga vermelha cultivada no litoral de São Paulo e de Santa Catarina pode se transformar em uma aliada inesperada da agricultura brasileira.

Em experimentos com hortelã-pimenta, pesquisadores pulverizaram sobre as folhas um extrato aquoso produzido com a macroalga Kappaphycus alvarezii. O resultado chamou atenção: algumas plantas apresentaram até 83% mais biomassa seca, enquanto outras desenvolveram 66% mais nós do que aquelas que não receberam o produto.

Os nós são os pontos do caule onde surgem folhas e novos ramos. Portanto, o aumento pode representar plantas mais ramificadas, vigorosas e capazes de produzir maior quantidade de matéria vegetal.

Os resultados foram publicados em junho de 2026 na revista científica Discover Plants e ampliam as evidências sobre o potencial agrícola de uma espécie que, à primeira vista, parece pertencer apenas ao ambiente marinho.

A hortelã recebeu cinco aplicações nas folhas

O estudo utilizou algas coletadas em cultivos de Ubatuba, no litoral paulista, e Florianópolis, em Santa Catarina.

Antes de preparar o produto, os pesquisadores lavaram as algas para retirar sal, impurezas e organismos aderidos à superfície. Depois, a biomassa foi triturada e filtrada até formar um extrato aquoso.

Esse líquido foi diluído em concentrações de 1%, 3%, 5% e 7% e pulverizado semanalmente sobre as folhas da hortelã-pimenta. Ao todo, cada planta recebeu cinco aplicações durante o experimento.

Os pesquisadores analisaram altura, quantidade de nós, massa fresca, massa seca e diferentes componentes bioquímicos presentes nas folhas.

Uma concentração de apenas 1% produziu o maior ganho de biomassa

Um dos resultados mais curiosos foi observado com o extrato produzido em Santa Catarina na concentração de apenas 1%.

Nesse grupo, a massa seca da parte aérea da hortelã ficou 83% acima da registrada nas plantas usadas como controle.

Isso mostra que uma concentração maior nem sempre produz o melhor resultado. Dependendo da característica analisada, pequenas quantidades do extrato foram suficientes para estimular respostas importantes.

Na altura das plantas, os melhores resultados apareceram em tratamentos diferentes. A aplicação de 1% do extrato catarinense aumentou a altura em aproximadamente 15%. Já o extrato paulista na concentração de 5% produziu crescimento próximo de 10%.

Algumas plantas desenvolveram até 66% mais nós

As aplicações na concentração de 7% produziram outro efeito expressivo.

A hortelã tratada com o extrato de São Paulo apresentou 56% mais nós do que o grupo de controle. Com o produto preparado a partir das algas de Santa Catarina, o aumento chegou a 66%.

Quanto mais nós uma planta desenvolve, maior pode ser sua capacidade de formar folhas e ramificações. Em cultivos de espécies aromáticas, nas quais a parte aérea possui valor comercial, essa característica pode ser especialmente interessante.

O estudo, no entanto, foi realizado em condições controladas. Os resultados ainda não significam que o mesmo desempenho ocorrerá automaticamente em grandes lavouras ou em qualquer tipo de solo e clima.

O produto não funciona exatamente como um fertilizante convencional

Embora seja frequentemente chamado de biofertilizante, o extrato estudado funciona principalmente como um bioestimulante.

Isso significa que ele não precisa substituir diretamente os nutrientes fornecidos por fertilizantes tradicionais. Sua função é estimular processos naturais da planta, influenciando crescimento, metabolismo e capacidade de responder às condições do ambiente.

A pesquisa encontrou alterações não apenas no tamanho das plantas, mas também na composição bioquímica das folhas. Dependendo da origem e da concentração do extrato, houve aumento de açúcares solúveis, amido, carboidratos, proteínas, aminoácidos e flavonoides.

A origem da alga também fez diferença

As algas utilizadas pertenciam à mesma espécie, mas foram cultivadas em regiões diferentes.

Mesmo assim, os extratos de São Paulo e Santa Catarina nem sempre provocaram respostas iguais. A descoberta indica que temperatura da água, luminosidade, disponibilidade de nutrientes e condições do cultivo marinho podem modificar a composição da alga e, consequentemente, seus efeitos sobre as plantas.

Essa diferença é relevante para o desenvolvimento de produtos agrícolas padronizados. Não basta escolher a espécie: também pode ser necessário avaliar onde e como ela foi cultivada.

Uma espécie asiática que encontrou espaço no litoral brasileiro

A Kappaphycus alvarezii é originária do Sudeste Asiático e possui grande importância comercial. Ela é utilizada principalmente na obtenção de carragenana, substância empregada como espessante e estabilizante pelas indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica.

No Brasil, a espécie também passou a ser estudada como matéria-prima para produtos agrícolas.

Além da hortelã-pimenta, trabalhos recentes investigaram seus efeitos sobre manjericão, arroz, cana-de-açúcar e outras culturas. Em junho de 2026, outro estudo da mesma linha avaliou alterações no crescimento, no óleo essencial e na região das raízes de plantas de manjericão.

Do mar para as folhas

A imagem mais curiosa da pesquisa talvez seja também a mais simples: uma alga cultivada no oceano sendo triturada, diluída em água e pulverizada sobre uma planta terrestre.

Ainda serão necessários testes de campo, avaliações econômicas e estudos em diferentes culturas antes que a técnica possa ser adotada em grande escala.

Mesmo assim, os resultados mostram como organismos marinhos podem fornecer substâncias capazes de alterar o desenvolvimento de plantas agrícolas.

No caso da hortelã-pimenta, cinco pulverizações foram suficientes para produzir plantas mais altas, mais ramificadas e, em determinados tratamentos, com até 83% mais biomassa seca.

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