
Malária, beribéri, febre amarela e outras enfermidades aparecem nos registros históricos da ferrovia, mas a famosa proporção de mortes nunca foi apurada.
O canteiro reunia trabalhadores e oito doenças
O canteiro da ferrovia Madeira-Mamoré concentrou trabalhadores vindos de vários países em uma região amazônica onde diferentes enfermidades atingiam as frentes de serviço. O conjunto registrado inclui malária, beribéri, sarampo, pneumonia, disenteria, leishmaniose visceral, ancilostomíase e febre amarela. A lista ajuda a dimensionar a variedade dos problemas de saúde enfrentados durante a construção, mas não permite afirmar que todos os trabalhadores contraíram as oito doenças ao mesmo tempo. Ela também não informa, por si só, quantas pessoas adoeceram ou morreram de cada enfermidade.
A ferrovia é frequentemente associada ao período de construção realizado entre 1907 e 1912, no atual território de Rondônia. O projeto avançou em meio a áreas de floresta, rios, acampamentos e pontos de trabalho que dependiam da chegada contínua de mão de obra. Trabalhadores de várias nacionalidades participaram dessa mobilização, levando experiências, hábitos e condições físicas diferentes para um mesmo ambiente. Quando doenças infecciosas, deficiências nutricionais e problemas respiratórios aparecem juntas nos registros, o canteiro deixa de ser apenas uma obra de engenharia. Ele passa a ser também um espaço de circulação de agentes infecciosos, parasitas, mosquitos e informações incompletas sobre a saúde dos trabalhadores.
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Malária e febre amarela pertencem a grupos diferentes de doenças, mas tinham em comum a participação de mosquitos na transmissão. A malária é causada por parasitas do gênero Plasmodium e pode provocar febre, calafrios, suor intenso, anemia e episódios recorrentes. A febre amarela é causada por um vírus e pode evoluir de uma fase inicial febril para quadros graves, com comprometimento do fígado e sangramentos. Sem dados individuais, não é possível dizer qual dessas enfermidades foi mais frequente no canteiro ou quantas mortes cada uma provocou. O que os registros permitem afirmar é que as duas faziam parte do conjunto de doenças associado à obra.
A presença de mosquitos não explica sozinha todos os problemas de saúde. Ela se somava à circulação diária entre acampamentos e frentes de trabalho, à dificuldade de manter alimentação adequada e à exposição a água, solo e animais. A ancilostomíase, por exemplo, é causada por vermes que podem penetrar pela pele, sobretudo quando uma pessoa entra em contato com solo contaminado, e pode contribuir para anemia. A leishmaniose visceral é uma doença parasitária transmitida por flebotomíneos, conhecidos em algumas regiões como mosquitos-palha. A ocorrência dessas enfermidades no mesmo cenário mostra que os riscos tinham mecanismos distintos e exigiam respostas diferentes, ainda que atingissem a mesma população trabalhadora.
Beribéri, disenteria e infecções ampliavam a pressão sobre o corpo
O beribéri está relacionado à deficiência de tiamina, também chamada vitamina B1. A falta prolongada desse nutriente pode afetar os nervos, os músculos e o coração, provocando fraqueza, alterações de sensibilidade e outros sinais clínicos. A doença não é transmitida por mosquito ou contato entre pessoas, o que a diferencia da malária, da febre amarela e de algumas infecções presentes na lista. Sua inclusão entre as enfermidades registradas indica que a saúde no canteiro também dependia de alimentação, abastecimento e condições de vida, não apenas do controle de vetores.
A disenteria pode provocar diarreia intensa e perda de líquidos, enquanto sarampo e pneumonia envolvem, respectivamente, uma infecção viral altamente transmissível e uma inflamação dos pulmões que pode ter causas diversas. Sem prontuários completos, não se deve transformar essa relação de doenças em uma taxa de letalidade ou em uma narrativa na qual todos os males ocorreram em cada acampamento. Também não é possível atribuir uma única causa às mortes ou afirmar que uma doença levou diretamente a outra. O que a sequência revela é a combinação de enfermidades transmitidas por vetores, problemas ligados à nutrição, doenças respiratórias e infecções associadas à água, ao solo ou ao contato entre pessoas.
A frase sobre um morto por dormente era propaganda
A construção da Madeira-Mamoré ficou ligada à frase de que haveria “um morto por dormente”, como se cada peça assentada na ferrovia correspondesse a uma morte. Essa expressão não é um número apurado de vítimas. Ela funcionava como propaganda da época, uma fórmula de forte impacto usada para representar a dureza da obra e a mortalidade atribuída ao empreendimento. Por isso, não deve ser apresentada como estatística, cálculo de engenharia ou resultado de levantamento demográfico. O número concreto conhecido neste briefing é o das oito doenças registradas no conjunto de enfermidades, não o de pessoas mortas por dormente.
A distinção é importante porque a frase continua sendo repetida em relatos sobre a ferrovia e pode parecer uma medição histórica quando aparece sem contexto. Registros de doenças e relatos de mortes podem ser incompletos, produzidos por instituições diferentes e baseados em critérios que não são equivalentes. Comparar a propaganda com uma contagem oficial exigiria documentos específicos sobre o número de trabalhadores, os períodos de permanência, os diagnósticos e as causas de morte. A história da ferrovia, portanto, pode ser contada sem transformar uma imagem publicitária em dado. Entre 1907 e 1912, o canteiro reuniu pessoas de várias nacionalidades e um conjunto de oito doenças. A memória mais precisa é aquela que conserva a dimensão humana da obra sem atribuir ao passado uma exatidão que ele não oferece.
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