Mudanças rápidas de temperatura aceleram a troca de espécies e podem desorganizar ecossistemas

Mudanças rápidas de temperatura aceleram a troca de espécies e podem desorganizar ecossistemas
Foto: acervo

Estudo publicado na Nature mostra que o aquecimento e o resfriamento alteram comunidades de animais e plantas com velocidade crescente.

Para uma planta, um inseto ou um animal que vive em uma floresta, a mudança de temperatura não representa apenas calor ou frio. Ela pode alterar o ritmo de crescimento, a quantidade de alimento disponível, o funcionamento do organismo e a relação com outras espécies. Um estudo internacional publicado em 29 de janeiro de 2025 na revista Nature mostra que, quando essas mudanças acontecem cada vez mais depressa, a composição dos ecossistemas também se transforma em ritmo acelerado.

A pesquisa foi liderada por Malin Pinsky, ecólogo e biólogo evolucionista da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos. Os autores analisaram como o aquecimento e o resfriamento influenciam a chamada substituição de espécies, processo natural em que algumas espécies desaparecem de uma área enquanto outras passam a ocupá-la.

Segundo a Universidade da Califórnia em Santa Cruz, mudanças de temperatura aceleram a substituição de espécies em ecossistemas terrestres, marinhos e de água doce, de acordo com o estudo publicado na Nature em 29 de janeiro de 2025.

O clima muda, e a composição do ambiente acompanha

A comparação usada pelos pesquisadores ajuda a entender o processo: é como embaralhar um baralho. A cada alteração de temperatura, algumas cartas saem e outras entram. Quando o embaralhamento fica mais rápido, aumenta a possibilidade de que determinadas cartas sejam perdidas.

“It’s like shuffling a deck of cards, and temperature change now is shuffling that deck faster and faster”, afirmou Pinsky. “The worry is that eventually you start to lose some cards.” Em tradução livre, o pesquisador comparou o cenário a um baralho embaralhado em velocidade crescente, com o risco de algumas cartas desaparecerem.

O ponto central não é apenas a direção da mudança. Tanto o aquecimento quanto o resfriamento podem reorganizar as comunidades. O que pesa especialmente é a velocidade com que a temperatura se altera. Quanto mais rápida a variação, maior tende a ser a taxa de entrada e saída de espécies.

Por que a adaptação nem sempre basta

Animais terrestres podem se deslocar por pequenas distâncias em busca de condições mais adequadas. Uma espécie que enfrenta calor excessivo, por exemplo, pode procurar sombra, uma área mais úmida ou um trecho de floresta com temperatura diferente. Esse movimento reduz parte da pressão, mas não elimina o problema.

O estudo sugere que a adaptação comportamental e as mudanças nas interações entre espécies não são suficientes para manter a composição original dos ecossistemas quando as oscilações térmicas se tornam rápidas demais. Em outras palavras, mover-se ou ajustar hábitos pode ajudar no curto prazo, mas não garante que a comunidade permaneça estável.

A temperatura funciona como um regulador de processos básicos da vida. Ela influencia a velocidade dos batimentos cardíacos, a permeabilidade das membranas celulares, o consumo de alimento pelos animais e o crescimento das plantas. “Temperature is in many ways the metronome for life”, disse Pinsky, ou seja, a temperatura é, em muitos sentidos, o metrônomo da vida.

Mudanças rápidas de temperatura aceleram a troca de espécies e podem desorganizar ecossistemas
Foto: acervo

Florestas criam alternativas para escapar do calor

Um dos resultados mais importantes aparece na comparação entre ambientes com pouca e muita variedade térmica. Em uma área aberta, um animal que começa a superaquecer pode não encontrar nenhum local próximo para se proteger. Em uma floresta, entretanto, a sombra, o sub-bosque, uma encosta ou uma área próxima de água podem oferecer condições diferentes.

Esses contrastes funcionam como refúgios climáticos. A diversidade de temperaturas disponíveis em uma mesma paisagem permite que plantas e animais se desloquem por perto sem precisar abandonar completamente o ecossistema. Ambientes mais uniformes, por outro lado, deixam as espécies mais expostas às mudanças.

Essa conclusão ajuda a explicar por que a conservação não depende apenas de proteger a quantidade total de área natural. Também é importante manter a variedade de ambientes dentro dela, incluindo áreas sombreadas, trechos úmidos, margens de rios, diferentes altitudes e formações vegetais conectadas.

O risco aumenta quando a paisagem já está pressionada

Os pesquisadores identificaram ainda que atividades humanas podem agravar a troca de espécies provocada pela temperatura. O uso intensivo da terra, a poluição e a introdução de espécies invasoras aumentam o estresse sobre organismos que já vivem próximos de seus limites térmicos.

A alteração da paisagem também reduz a diversidade de condições disponíveis. Uma área desmatada, fragmentada ou homogeneizada oferece menos opções para escapar de uma onda de calor ou de uma mudança brusca no frio. Com isso, a substituição de espécies pode ocorrer mais rapidamente e comprometer funções ecológicas importantes.

Entre as medidas apontadas pelos autores estão evitar novos aumentos da temperatura global, preservar habitats naturais, reduzir a poluição e conter a disseminação de espécies invasoras. Em ambientes marinhos, a redução da pressão da pesca e a proteção de habitats também aparecem como ações relevantes.

O que o estudo significa para a Amazônia

A pesquisa não apresenta uma medição específica para a Amazônia, mas seu mecanismo ajuda a interpretar os riscos enfrentados por florestas, rios e áreas costeiras da região. Em Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a conservação de paisagens variadas pode ampliar as possibilidades de deslocamento e abrigo para a biodiversidade diante de alterações térmicas.

Essa conexão é especialmente importante porque a Amazônia reúne ambientes com diferenças de umidade, cobertura vegetal, altitude, proximidade de rios e exposição ao sol. Quando essas características são preservadas em conjunto, aumentam as chances de que parte das espécies encontre condições próximas das quais depende. A fragmentação, por sua vez, pode eliminar essas alternativas.

O resultado não significa que toda mudança de temperatura levará imediatamente à extinção. Ele mostra uma tendência ecológica: mudanças mais rápidas aumentam a velocidade de substituição das espécies, enquanto a perda de habitats e a poluição podem intensificar o efeito. Os autores levantam que, se esse processo continuar, algumas espécies podem ser perdidas e os ecossistemas podem começar a se desestruturar.

O próximo passo indicado pela pesquisa é usar a relação entre velocidade da mudança climática e velocidade da substituição de espécies para definir quais ecossistemas precisam de prioridade nas ações de conservação.

Com informações de University of California, Santa Cruz.

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