Florestas costeiras afundaram com a subida do mar há até 5 mil anos; hoje o que restou delas virou recife cheio de vida no litoral de Moçambique

Florestas costeiras afundaram com a subida do mar há até 5 mil anos; hoje o que restou delas virou recife cheio de vida no litoral de Moçambique
Antigo recife exposto na Ilha de Bazaruto, Moçambique. Foto: Bjørn Christian Tørrissen, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

Milhares de anos atrás, a costa do sul da África tinha pântanos e florestas onde hoje há mar. Quando o nível do oceano subiu, essas paisagens foram afogadas. O que sobrou delas, uma camada firme de turfa, ficou exposto no fundo do mar e foi colonizado por corais, esponjas, peixes e outros organismos. Um estudo publicado na revista científica Scientific Reports descreve esses recifes de turfa no arquipélago de Bazaruto, em Moçambique.

É o primeiro estudo ecológico de recifes de turfa nos trópicos e o primeiro do mundo a olhar para eles pelo ângulo da biodiversidade, segundo os autores.

O que é um recife de turfa

Turfa é o material formado pelos restos compactados de plantas que se acumulam em áreas alagadas, como pântanos e brejos costeiros. É rica em carbono. Em Bazaruto, as ondas removeram a areia que cobria essas camadas antigas e deixaram plataformas firmes expostas no leito marinho raso.

A datação por radiocarbono mostra que a turfa se formou entre cerca de 300 e 5 mil anos atrás. A análise química confirmou que ela veio principalmente de plantas e árvores costeiras, ou seja, de terra firme. Algumas amostras têm até 40% de carbono orgânico em peso seco.

Vida comparável à dos corais

Sobre essas plataformas, a vida marinha se instalou. Segundo o estudo, a biodiversidade dos recifes de turfa é comparável à dos recifes de coral vizinhos. Na prática, florestas mortas viraram um novo tipo de recife, uma descoberta que levanta uma pergunta: quantos desses recifes escondidos existem em outras costas do mundo e ainda não foram reconhecidos?

Um observatório no Índico

A pesquisa foi conduzida pelo Observatório Oceânico BCSS, em parceria com universidades e instituições do Reino Unido, dos Estados Unidos e do Canadá. Criado em 2017, o BCSS é o primeiro observatório oceânico permanente da África. Já gerou mais de 22 milhões de medições de mais de 30 variáveis químicas, ambientais e biológicas, em seis ecossistemas interligados e 14 estações de monitoramento.

A área monitorada tem cerca de 6.850 quilômetros quadrados e vai de manguezais, pradarias marinhas, recifes de turfa e de coral a lagoas, montes submarinos e o oceano aberto.

Um estoque de carbono ainda sem medida

Em terra, pântanos de turfa podem guardar de mil a 2 mil toneladas de carbono por hectare no subsolo. Ninguém sabe ainda quanto os recifes de turfa submersos armazenam, nem se hoje estão guardando ou liberando esse carbono.

Os próprios autores afirmam que o papel atual desses recifes no ciclo do carbono não está resolvido. Para responder, será preciso medir a espessura da turfa, sua densidade, os estoques por área, as taxas de soterramento ou erosão e os fluxos de gases de efeito estufa.

A questão importa porque o mar continua subindo. Se esses recifes forem erodidos ou perturbados, o carbono acumulado ao longo de milênios pode voltar para o oceano e a atmosfera. Os cientistas comparam a situação à da turfa da tundra, dos pântanos e dos manguezais, que já é estudada há décadas, enquanto a dos recifes tropicais está apenas começando a ser entendida.

Proteger o que acabou de ser descoberto

Os pesquisadores pedem estudos para mapear outros recifes de turfa e políticas para protegê-los. Hoje eles nem aparecem nas classificações de ecossistemas costeiros usadas para planejar áreas protegidas.

Perguntas frequentes

Onde ficam os recifes de turfa estudados?

No arquipélago de Bazaruto, no litoral de Moçambique, no oeste do oceano Índico.

Recife de turfa é feito de coral?

Não. A base é turfa, formada por restos de plantas de antigos pântanos e florestas costeiras, que depois foi colonizada por organismos marinhos.

Com informações do Observatório Oceânico BCSS e do estudo publicado na Scientific Reports.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA