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Multinacionais se unem para lançar fundo de € 150 milhões voltado à restauração de ecossistemas mundiais

O avanço das mudanças climáticas globais e a necessidade urgente de frear o aumento da temperatura do planeta têm impulsionado o setor corporativo internacional a buscar mecanismos de investimento que superem as tradicionais metas de redução interna de emissões. Nesse cenário de transição ecológica, grandes corporações multinacionais como Danone, Mars, Hermès, SAP e Schneider Electric uniram forças para apoiar o lançamento do Livelihoods Carbon Fund 4 (LCF4), um novo fundo de investimento internacional estruturado pela plataforma de impacto francesa Livelihoods. Um fato financeiro e ecológico surpreendente e verificável é que o fundo estabeleceu como meta final a captação de € 150 milhões para financiar integralmente soluções baseadas na natureza ($SbN$) ao redor do mundo. Em sua primeira rodada de captação formal, o fundo já garantiu o aporte de € 124 milhões, direcionando esse capital privado para projetos de larga escala concebidos para evitar ou remover da atmosfera entre 7 milhões e 10 milhões de toneladas de dióxido de carbono ($CO_2$) ao longo de um ciclo operacional de 25 anos, promovendo simultaneamente o desenvolvimento social de comunidades tradicionais vulneráveis.

O conceito de soluções baseadas na natureza

O direcionamento estratégico dos recursos do LCF4 repousa sobre o conceito científico de Soluções Baseadas na Natureza, uma abordagem validada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) que utiliza o manejo sustentável e a restauração de ecossistemas para responder de forma eficiente a desafios sociais e climáticos. Em vez de focar exclusivamente em tecnologias industriais de captura de carbono de alto custo, as empresas investidoras apostam na capacidade intrínseca das florestas, manguezais e solos de atuarem como sumidouros naturais de carbono.

Os projetos financiados pelo novo fundo concentram-se em quatro frentes principais de atuação: o estabelecimento de sistemas agroflorestais, a restauração de manguezais costeiros degradados, a transição para a agricultura regenerativa e o fomento ao acesso a energias limpas em áreas rurais isoladas. Esse modelo de investimento não visa apenas a mitigação do aquecimento global, mas a criação de barreiras de resiliência ecológica que protegem territórios vulneráveis contra eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, erosão costeira e enchentes severas, garantindo a estabilidade hídrica e ambiental das regiões afetadas.

O modelo Livelihoods de cogestão e financiamento antecipado

A plataforma Livelihoods foi criada originalmente em 2011, nascendo da decisão da gigante do setor de alimentos Danone de abrir seu fundo interno de conservação ambiental para a participação de outros investidores corporativos de diferentes setores econômicos. Hoje, a rede reúne cerca de 20 grandes companhias globais que operam sob um modelo de negócios de longo prazo compartilhado, baseado no financiamento antecipado e no compartilhamento de riscos operacionais com organizações da sociedade civil e atores locais.

Ao contrário do mercado tradicional de créditos de carbono, onde as empresas simplesmente compram títulos de projetos já executados por terceiros no mercado secundário, o LCF4 atua como o desenvolvedor e o financiador direto na fase inicial das iniciativas. O capital do fundo é injetado diretamente nas comunidades e ONGs parceiras para custear a compra de mudas, insumos agrícolas, ferramentas e capacitação técnica. Em contrapartida, ao longo dos 25 anos de vigência do contrato, as corporações investidoras recebem os créditos de carbono gerados de forma proporcional aos seus aportes iniciais. Esses créditos, medidos e auditados sob padrões internacionais rigorosos, são utilizados pelas companhias para compensar aquela parcela de suas emissões operacionais que ainda se revela tecnicamente difícil ou impossível de eliminar no curto prazo (hard-to-abate emissions).

Impacto social e melhoria das condições de vida comunitárias

A grande inovação defendida pela plataforma Livelihoods é a indissociabilidade entre o sucesso ecológico do sequestro de carbono e o desenvolvimento socioeconômico das populações locais. O fundo projeta que as iniciativas apoiadas pelo LCF4 irão beneficiar e melhorar diretamente as condições de vida de cerca de 500 mil pessoas em diferentes territórios da África, Ásia e América Latina.

A lógica desse modelo reside no fato de que os ecossistemas tropicais só permanecem preservados a longo prazo se as comunidades que neles habitam encontrarem ali uma fonte digna de subsistência econômica e soberania alimentar. Nos projetos de agricultura regenerativa e agrofloresta, por exemplo, os agricultores familiares recebem treinamento técnico para diversificar suas plantações, inserindo árvores frutíferas e essências florestais nativas em meio às culturas comerciais e de subsistência. Esse arranjo eleva a produtividade, enriquece a biodiversidade do solo, reduz a dependência de fertilizantes químicos caros e cria novas fontes de renda para as famílias locais por meio da comercialização de frutas, castanhas e produtos florestais não madeireiros.

O balanço histórico e a urgência da descarbonização

A credibilidade para o lançamento do quarto fundo da plataforma baseia-se nos resultados consolidados obtidos nas últimas duas décadas. Desde a sua fundação, a Livelihoods afirma ter financiado 47 projetos em larga escala espalhados por diferentes biomas mundiais. Essas ações coordenadas resultaram no plantio de mais de 160 milhões de árvores, na retirada ou prevenção de 5,4 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera global e no benefício social direto a aproximadamente 2,4 milhões de pessoas em territórios vulneráveis.

Embora o fundo represente um avanço significativo no engajamento do setor privado, os diretores da organização reforçam que os investimentos em soluções baseadas na natureza não devem ser utilizados pelas empresas como uma licença para poluir ou como um mecanismo de greenwashing. A descarbonização profunda das operações diretas e das cadeias de suprimentos de valor global (Escopos 1, 2 e 3) deve continuar sendo a prioridade absoluta e inegociável de qualquer estratégia de sustentabilidade corporativa séria.

Mobilizar o capital privado internacional através de fundos estruturados como o LCF4 demonstra que os mercados financeiros e a conservação ambiental podem operar em sinergia quando guiados por critérios científicos transparentes e de longo prazo. Ao reconhecer que a natureza constitui a tecnologia de captura de carbono mais poderosa e testada do planeta, as multinacionais investidoras dão um passo concreto para proteger os ativos ambientais dos quais depende o futuro econômico e biológico de toda a sociedade. Apoiar e fiscalizar essas iniciativas de grande porte é vital para assegurar que os recursos privados cheguem de forma justa à ponta do sistema, fortalecendo a agricultura familiar, salvaguardando a biodiversidade e mantendo os equilíbrios ecológicos do nosso planeta vivos e soberanos para as próximas gerações.

Para explorar relatórios de sustentabilidade corporativa, dados sobre o mercado voluntário de créditos de carbono e diretrizes para o financiamento de projetos ambientais no Brasil, consulte o portal institucional do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Para acessar análises de impacto ecológico e estudos globais sobre o papel das soluções baseadas na natureza na regulação climática, visite a plataforma internacional da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

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