A madeira apodreceu, mas o molde ficou na pedra: neandertais da Espanha fizeram uma clava sem paralelo conhecido na pré-história

A madeira apodreceu, mas o molde ficou na pedra: neandertais da Espanha fizeram uma clava sem paralelo conhecido na pré-história
Escavação no abrigo rochoso de Abric Romaní, em Capellades, Espanha. Foto: Mario Modesto Mata, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

Madeira apodrece, e por isso a imagem dos neandertais ficou presa às ferramentas de pedra. Um abrigo rochoso perto de Barcelona, na Espanha, está mudando esse retrato. No Abric Romaní, em Capellades, pesquisadores reuniram 597 restos e moldes de madeira deixados por neandertais entre cerca de 62 mil e 40 mil anos atrás. Entre eles está uma clava que, segundo os autores, não tem paralelo claro no registro pré-histórico.

O estudo foi publicado na revista científica Science Advances e liderado pela arqueóloga Palmira Saladié, do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA) e da Universidade Rovira i Virgili.

Como a pedra guardou a madeira

O abrigo fica em um paredão de travertino, um tipo de calcário que cresce quando água rica em carbonato de cálcio escorre sobre o que está no chão. O mineral se deposita sobre galhos, troncos e objetos de madeira. Com o tempo, a madeira apodrece dentro da crosta, mas o formato fica gravado, às vezes com detalhes no nível das células.

Os neandertais voltaram ao abrigo repetidamente por mais de 20 mil anos. Os restos estudados vêm de 16 níveis diferentes. Treze deles são objetos que os neandertais fizeram ou usaram: duas lanças, varas pontudas, bandejas de casca de árvore e postes que podem ter feito parte de estruturas simples.

A clava

Da clava quase não sobrou madeira, mas o molde mostra a forma: um cabo de cerca de 16 centímetros e uma cabeça pontuda de 14,2 centímetros, parcialmente carbonizada. A superfície ainda exibe estrias paralelas, marcas de quem a modelou.

O cabo se alarga um pouco na ponta, característica que, em objetos etnográficos, está associada a ferramentas feitas para ficar firmes na mão durante golpes ou puxões. Entre o cabo e a cabeça há um degrau em ângulo reto, que pode ter evitado que a mão escorregasse para a frente.

A única outra possível clava de madeira do Paleolítico vem de Kalambo Falls, na Zâmbia, com cerca de 400 mil anos. Para que servia a de Abric Romaní? Saladié lista possibilidades: martelo, arma secundária de caça, uso em violência entre pessoas ou até objeto simbólico de status no grupo. São hipóteses, ressalta a pesquisadora, e não usos comprovados.

Lanças para caçar de perto

No nível mais profundo escavado até agora estavam duas lanças. A maior tem 2,45 metros, e o formato é compatível com uma lança de estocada, usada a curta distância. Perto dela havia três crânios de veados-vermelhos machos ainda com chifres, o que indica caça no outono ou no inverno. A segunda lança, quebrada em três partes, somava 1,99 metro e estava entre galhos e uma pinha, sinal de que pode ter sido descartada depois de partir.

Os paralelos mais próximos são as famosas lanças de Schöningen, na Alemanha, e a de Lehringen, encontrada entre as costelas de um elefante. Duas varas pontudas de cerca de um metro podem ter servido para cavar.

Muito além da pedra lascada

Segundo Saladié, o abrigo permite ver coisas que normalmente desaparecem. Com fogueiras, ferramentas de pedra, ossos de animais e madeira no mesmo lugar, dá para entender como os neandertais organizavam o espaço, controlavam o fogo e faziam as tarefas do dia a dia. O retrato que emerge é o de carpinteiros habilidosos, que transformavam madeira em armas, utensílios e estruturas.

Perguntas frequentes

Neandertais usavam ferramentas de madeira?

Sim. Abric Romaní reúne lanças, varas pontudas, bandejas de casca e uma clava feitas ou usadas por neandertais entre 62 mil e 40 mil anos atrás.

Como a madeira se preservou por tanto tempo?

Ela não se preservou: o que ficou foi o molde no travertino, que se formou ao redor dos objetos antes de a madeira apodrecer.

Com informações do IPHES-CERCA e do estudo publicado na Science Advances.

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