
Estudos que mediram a influência do fenômeno sobre a chuva no planeta mostram que ele responde por 15% a 20% dos extremos e alcança no máximo um terço das áreas continentais. Ainda assim, é o que torna a previsão sazonal mais confiável.
Fotos: Divulgação e NOAA Climate.gov
O El Niño responde por algo entre 15% e 20% dos extremos de chuva registrados no planeta. Os outros 80% a 85% vêm de fatores que nada têm a ver com o aquecimento das águas do Pacífico equatorial.
A medida está em um trabalho dos climatologistas Aiguo Dai, Inez Fung e Anthony Del Genio, publicado no Journal of Climate em 1997, que analisou as variações de chuva observadas em terra entre 1900 e 1988. O número contraria a impressão corrente de que o fenômeno puxa sozinho todos os fios da atmosfera. Para dar escala, o meteorologista Tom Di Liberto, da NOAA, a agência de oceano e atmosfera dos Estados Unidos, recorre a uma imagem doméstica. Se os extremos de chuva fossem uma pizza grande, o ENSO seria duas fatias.
ENSO é a sigla em inglês de El Niño-Oscilação Sul, o par de fenômenos que inclui o El Niño e a La Niña. O segundo termo costuma passar batido e é o que explica o mecanismo. Oscilação Sul são as mudanças na circulação da atmosfera, em especial na pressão ao nível do mar sobre o Pacífico, que acompanham a variação de temperatura do oceano, segundo Mike Halpert, do Centro de Previsão Climática americano. É isso que faz do ENSO um sistema acoplado entre mar e ar, e não apenas uma mancha de água quente.

Há um segundo limite, geográfico. Simon Mason e Lisa Goddard, em estudo publicado no boletim da Sociedade Americana de Meteorologia em 2001, analisaram observações reunidas desde 1950 e concluíram que apenas 20% a 30% das áreas continentais do mundo são potencialmente afetadas durante o El Niño e a La Niña. O restante das terras emersas, de 70% a 80%, segue a própria sorte. Nos mapas de padrões típicos de junho a agosto, boa parte da América do Sul aparece marcada como área mais quente em anos de El Niño.
E o que acontece fora das áreas de influência? Em 2005, Lisa Goddard e Maxx Dilley mediram o número de grandes anomalias de chuva mensal em terra, entre 30 graus de latitude sul e 30 graus norte, e encontraram valores muito parecidos em anos de El Niño, de La Niña e neutros. Os dois registraram ainda que os desastres ligados ao clima não aumentam nos anos de evento.
Isso não significa que nada aconteça. Significa que sempre haverá grandes anomalias de chuva em algum lugar do mundo, com ou sem o fenômeno. Dois casos americanos ilustram bem. A cidade de Vernonia, no Oregon, ficou submersa em dezembro de 2007, um ano de La Niña. Em agosto de 2014, com o Pacífico em condição neutra, uma chuva histórica inundou rodovias de Long Island, em Nova York, e quebrou o recorde estadual de volume em 24 horas.
A virada do argumento vem daí. O que o ENSO oferece não é a causa, é a pista. Em anos neutros, é muito mais difícil saber onde os extremos vão cair. Quando há El Niño ou La Niña, a localização de alguns dos maiores eventos secos ou chuvosos do ano fica mais previsível.
Soma-se a isso uma vantagem prática. Diferentemente de outros padrões que influenciam o tempo por semanas ou estações inteiras, como a Oscilação Ártica, a Oscilação do Atlântico Norte e a Oscilação Decadal do Pacífico, o ENSO pode ser previsto com meses de antecedência. Quando o evento é detectado ou projetado antes do auge, dá para trabalhar com uma inclinação das probabilidades em direção a certos impactos.

Di Liberto foi verificar se a teoria aparece no placar. Calculou a média das notas Heidke, uma das formas de avaliar acerto de previsão, para os prognósticos sazonais de chuva nos Estados Unidos continentais desde 1995, no auge dos eventos, e separou o resultado por fase do ENSO. A nota média em anos de El Niño e de La Niña ficou perto do dobro da obtida em anos neutros. O resultado é coerente com o que já haviam apontado Goddard e Dilley, Robert Livezey e Marina Timofeyeva e a equipe de Anthony Barnston: a previsão sazonal melhora durante eventos de ENSO, e melhora mais quando o evento é forte.
A conclusão é de método. Atribuir cada enchente e cada seca ao El Niño é atalho fácil e quase sempre errado. O que o fenômeno oferece a quem faz previsão, e a quem depende dela para plantar, navegar ou se preparar para o fogo, não é a explicação de tudo. É a chance de saber, com meses de antecedência, onde vale a pena olhar primeiro.
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