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Tainá e Maiara passam de 100 mil registros no Brasil, e pesquisa revela a força da literatura e do ambientalismo

Tainá e Maiara passam de 100 mil registros no Brasil, e pesquisa revela a força da literatura e do ambientalismo
Foto: jornal.usp.br

Estudo da USP mostra como nomes em tupi e guarani acompanharam diferentes momentos da história brasileira.

Os nomes Tainá e Maiara estão entre os nomes de origem indígena mais comuns no Brasil. Foto ilustrativa de arquivo. Crédito: Marcos Santos/USP Imagens.

Entre milhares de nomes registrados no país, dois de origem indígena conseguiram ultrapassar a marca de 100 mil ocorrências: Tainá e Maiara. A descoberta aparece em um estudo do professor Eduardo de Almeida Navarro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, que analisou dados retrospectivos do Censo 2010 do IBGE para entender como palavras em tupi e guarani passaram a fazer parte da identidade brasileira.

Publicado em 18 de agosto de 2026 pelo Jornal da USP, o levantamento mostra que a escolha desses nomes não aconteceu de forma aleatória. Ao longo do século XX, ela acompanhou períodos de valorização da ideia de brasilidade, a influência de romances indianistas e, mais tarde, o crescimento da preocupação ambiental e do reconhecimento dos povos indígenas.

Tainá e Maiara lideram a lista

Segundo Navarro, Tainá é uma alteração de Taína, palavra que significa “criança” em nheengatu, língua de base tupi ainda falada no Vale do Rio Negro, na Amazônia. A variação se espalhou pelo país e aparece com frequência especialmente entre mulheres nascidas nas últimas décadas do século XX.

Maiara, por sua vez, vem do tupi antigo e significa “senhora das riquezas” ou “senhora dos bens”. Os dois nomes são femininos e, de acordo com os dados analisados pelo pesquisador, foram os únicos de origem indígena a superar 100 mil registros no Censo 2010.

Segundo a Universidade de São Paulo, Tainá registrou cerca de 130 mil ocorrências no Censo 2010, enquanto Maiara também ficou acima da marca de 100 mil registros. Mesmo assim, os nomes indígenas não ultrapassaram a força de nomes estrangeiros. Jefferson, por exemplo, teve aproximadamente 253 mil ocorrências no mesmo levantamento.

Entenda o caso

O Censo 2010 foi o primeiro recenseamento brasileiro a registrar os nomes próprios da população. A análise dos dados permite observar tendências culturais e sociais que não aparecem apenas em estatísticas de idade, renda ou localização.

O trabalho de Navarro foi publicado no artigo Os nomes de origem indígena dos brasileiros no século XX, na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, edição número 92, de dezembro de 2025.

Quando a literatura virou nome de criança

Uma das principais explicações para a popularização dos nomes indígenas está na literatura brasileira. Os romances indianistas de José de Alencar, como O Guarani, publicado em 1857, e Iracema, de 1865, ajudaram a colocar personagens indígenas no centro do imaginário nacional.

Foi dessa tradição que surgiram ou se popularizaram nomes como Peri, Ceci e Moacir. O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Personagens literários também deram origem a nomes em outras sociedades, como Ulisses, associado à obra de Homero.

O pesquisador também chama atenção para Moema, personagem do poema Caramuru, de Frei José de Santa Rita Durão, publicado em 1781. No tupi, o termo está relacionado à ideia de mentira. A escolha do nome, considerada pouco elogiosa, combina com a representação da personagem como amante de um homem casado.

“Veja como a onomástica pode revelar aspectos importantes da história de um país, de uma sociedade. É um conhecimento útil para o estudo sociológico”, afirmou Eduardo de Almeida Navarro.

Do nacionalismo ao ambientalismo

O estudo identifica um aumento da popularidade de nomes de origem indígena entre as décadas de 1930 e 1960. O período foi marcado por uma tentativa oficial de valorizar símbolos considerados nacionais, inclusive por meio de uma imagem idealizada dos povos indígenas como representantes das origens do Brasil.

Durante o governo de Getúlio Vargas, um decreto-lei de 1943 chegou a recomendar a adoção de nomes indígenas para substituir topônimos repetidos entre cidades. A medida fazia parte de um projeto mais amplo de padronização e valorização de referências nacionais.

Outro momento de crescimento ocorreu por volta de 1970, em meio à expansão do ambientalismo. A crise do petróleo de 1973, que elevou fortemente os preços do combustível e expôs os limites do modelo econômico vigente, ajudou a ampliar o interesse internacional por formas alternativas de relação com a natureza.

Nesse contexto, nomes indígenas passaram a ser associados a uma visão de proteção ambiental e de respeito aos povos originários. Raoni é um exemplo citado por Navarro. A presença pública do cacique Raoni Mẽtyktire, inclusive em viagens internacionais ao lado do cantor Sting, contribuiu para tornar o nome mais conhecido.

Nem todo nome parecido é indígena

A pesquisa também alerta para um cuidado importante: a sonoridade indígena não garante que um nome tenha origem ameríndia. Alguns termos foram criados ou modificados por escritores e podem não seguir a estrutura das línguas indígenas.

De acordo com o estudo, Endy e Raíra utilizam morfemas tupis de maneira gramaticalmente incorreta. Jurandir e Lindoia, por outro lado, parecem ser criações literárias associadas a José de Alencar e Basílio da Gama. Já Janaína tem origem africana, enquanto Iberê é um nome de origem basca.

Esse cuidado é especialmente relevante em um país onde referências indígenas foram muitas vezes apropriadas como símbolos genéricos de brasilidade, sem relação direta com povos, línguas ou territórios específicos. Na Amazônia, onde o nheengatu continua presente no Vale do Rio Negro e onde vivem centenas de povos indígenas, a distinção entre uma palavra tradicional e uma invenção literária tem peso cultural.

O que os nomes revelam sobre o Brasil

A escolha de um nome pode guardar mais do que uma preferência familiar. Ela pode registrar influências de livros, acontecimentos políticos, movimentos culturais e transformações na maneira como a sociedade enxerga suas próprias origens.

Os dados do Censo 2010 também podem ser comparados com a nova consulta do IBGE, disponibilizada em 2025 com registros do Censo 2022 na plataforma Nomes no Brasil. A ferramenta permite pesquisar a frequência de nomes e sobrenomes registrados pela população brasileira.

O estudo da USP não afirma que os nomes indígenas tenham se tornado predominantes. Eles continuam numericamente atrás de nomes bíblicos e de nomes de origem inglesa, mas revelam mudanças na relação dos brasileiros com a literatura, o nacionalismo, a natureza e a diversidade cultural.

Perguntas frequentes

Quais são os nomes indígenas mais comuns no Brasil?

Tainá e Maiara são os dois nomes de origem indígena que ultrapassaram 100 mil ocorrências nos dados do Censo 2010 analisados pela USP.

O que significa o nome Tainá?

Tainá é uma alteração de Taína e significa “criança” em nheengatu, língua de base tupi falada principalmente no Vale do Rio Negro.

Todo nome com sonoridade indígena tem origem indígena?

Não. O estudo mostra que alguns nomes foram inventados na literatura, receberam adaptações incorretas ou têm origem africana, basca ou em outras tradições linguísticas.

O próximo passo para ampliar esse retrato é acompanhar os dados do Censo 2022 e observar se a frequência dos nomes indígenas mudou nas diferentes regiões do país.

Com informações da Universidade de São Paulo.

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