×
Próxima ▸
Quatro raias que pareciam uma só foram separadas pela ciência…

O sexo de 86 filhotes de jacaré-açu foi identificado ao microscópio e o resultado contrariou a expectativa criada pelo aquecimento recente em Mamirauá

Em janeiro de 2023, pesquisadores voltaram a três lagos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá para procurar filhotes de jacaré-açu recém-saídos de nove ninhos monitorados. Encontraram 86 animais agrupados na água, alguns próximos de um adulto presumivelmente responsável pela proteção da ninhada. O tamanho dos filhotes não resolvia a pergunta central: quantos eram machos e quantos eram fêmeas? Em crocodilianos, o sexo não é definido por cromossomos como nos humanos, mas pelas temperaturas experimentadas durante a incubação. A equipe precisou examinar tecidos reprodutivos ao microscópio e encontrou 58% de machos e 42% de fêmeas — uma proporção relativamente equilibrada e inesperada diante do calor recente.

A temperatura do ninho decide se o filhote será macho ou fêmea

O resultado surpreendeu porque crocodilianos seguem um padrão térmico peculiar. Temperaturas intermediárias tendem a produzir machos, enquanto extremos mais frios ou quentes favorecem fêmeas. Como a Amazônia Central vinha enfrentando secas severas e temperaturas elevadas, a hipótese inicial era encontrar desvio para fêmeas. Isso não aconteceu na amostra de 2023. A proporção de 25 machos para 18 fêmeas, calculada a partir do conjunto, não diferiu estatisticamente do equilíbrio de um para um. O dado não nega o aquecimento; mostra que a resposta dos ninhos reais é mais complexa do que uma previsão feita apenas com a temperatura do ar.

Entre nove ninhos, houve grupos com 100% de machos e outros com 100% de fêmeas

Cada ninho contou uma história diferente. Em um deles, todos os filhotes analisados eram machos; em outro, todos eram fêmeas. Entre os três lagos, a participação masculina variou de 40% a 75%. A cobertura vegetal acima dos ninhos foi estimada de zero a 60%, porque sombra pode alterar a temperatura dos ovos. Ainda assim, o estudo não encontrou relação significativa entre essa cobertura e a proporção sexual. Faltaram medições diretas da temperatura dentro dos ninhos, já incorporadas a pesquisas em andamento. A vegetação, sozinha, não explicou o mosaico.

Determinar o sexo exigiu histologia. Os pesquisadores analisaram o complexo formado por gônada, adrenal e mesonefro, procurando estruturas ovarianas ou testiculares e a presença do ducto de Müller. Esse procedimento revela uma diferença invisível externamente em animais tão jovens. Também foram medidos peso, comprimento total e cabeça. Os machos pesaram em média 84,1 gramas, contra 81,9 das fêmeas, e alcançaram 33,6 centímetros, ante 32,9. A cabeça, porém, não apresentou diferença significativa. São variações pequenas demais para substituir a confirmação microscópica.

O equilíbrio dos nascimentos pode definir o futuro do manejo em Mamirauá

A curiosidade tem consequência prática porque Mamirauá abriga manejo sustentável de jacarés. Os machos adultos são os principais alvos das cotas de retirada. Se o aquecimento deslocasse de forma persistente o nascimento para fêmeas, a reposição de machos poderia cair e comprometer tanto o equilíbrio populacional quanto o próprio sistema de manejo. Encontrar machos entre os recém-nascidos indica recrutamento potencial, mas uma única estação não autoriza tranquilidade. A proporção sexual pode mudar de ano para ano conforme cheia, chuva, sombra, local do ninho e temperatura do substrato.

O estudo mostra como mudanças climáticas podem afetar uma espécie antes mesmo do nascimento. Um embrião dentro do ovo não precisa enfrentar diretamente uma seca para carregar seus efeitos. Alguns graus durante uma janela crítica do desenvolvimento podem decidir seu sexo e, décadas depois, influenciar a estrutura da população. Esse mecanismo transforma cada ninho em um sensor biológico do clima. Ao mesmo tempo, faz da série histórica algo indispensável: um retrato de 2023 não é uma previsão automática para 2030.

Há outro detalhe importante. Os nove ninhos representavam apenas uma fração dos ninhos existentes nos lagos — de 5% em Tucunarezinho a 42% em Sarapião. Portanto, os 86 filhotes são uma amostra, não um censo de Mamirauá. A força do trabalho está em oferecer uma primeira referência para uma população silvestre manejada e em testar métodos que podem ser repetidos. Monitoramentos anuais com sensores térmicos permitirão ligar o resultado histológico às condições que cada ninhada realmente viveu.

O achado não é simplesmente “nasceram mais machos”. É a descoberta de que, mesmo sob um cenário regional de aquecimento e seca, nove ninhos produziram respostas opostas e um conjunto equilibrado. A floresta alagável cria microclimas, e os ovos registram essa diversidade térmica. Para conservar o jacaré-açu, será preciso acompanhar não apenas quantos animais existem, mas quem está nascendo. Uma diferença definida dentro do ninho pode se tornar, anos depois, a diferença entre uma população renovada e um manejo sem reposição suficiente.

Também é preciso separar resultado de tendência. O estudo não mediu a temperatura dos ninhos e não concluiu que o aquecimento seja inofensivo. Ele registrou uma safra reprodutiva, em três lagos, na qual o desvio previsto não apareceu. Somente a repetição do protocolo em anos mais secos, mais quentes e mais úmidos permitirá descobrir se 2023 foi representativo ou excepcional.

Essa distinção protege a ciência de duas simplificações opostas. Não se deve usar a amostra para negar a crise climática, nem tratar toda ninhada amazônica como inevitavelmente feminizada. O valor do resultado é mostrar que o mecanismo térmico passa por condições locais. Sensores instalados dentro dos ninhos poderão relacionar horas de calor, amplitude térmica e fase de desenvolvimento ao sexo de cada grupo.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA