
Atividade do Amazônia das Palavras apresentou conceitos de imagem, iluminação e narrativa audiovisual a alunos de escola pública no interior do Amazonas
Uma sala de aula diante da linguagem do cinema
Em vez de apenas assistir a um filme, estudantes de Codajás foram convidados a observar o que existe por trás de cada imagem. Durante uma oficina realizada na Escola Estadual Indígena Professor Luiz Gonzaga de Souza Filho, conceitos como enquadramento, iluminação e posição de câmera passaram a fazer parte da conversa em sala de aula. A atividade mostrou que uma cena não é uma cópia automática da realidade. Ela resulta de escolhas que orientam o olhar de quem assiste.
A oficina integrou o segundo dia de programação do Amazônia das Palavras, que levou atividades literárias e culturais ao município amazonense. A programação reuniu produção de textos, slam, música e literatura, moda e literatura, animação, Nheengatu e cinema em sala de aula. Em comum, as atividades aproximaram diferentes formas de expressão do cotidiano de estudantes e educadores da rede pública, relacionando leitura, criação e cultura amazônica.
Codajás reúne rios, tradição ribeirinha e produção de açaí
Localizada às margens do Rio Solimões, Codajás é conhecida como a Terra do Açaí e tem pouco mais de 29 mil habitantes. O município está entre os maiores produtores do fruto no Amazonas e mantém forte tradição ribeirinha. Fundada em 1875, a cidade também guarda no próprio nome uma marca da presença indígena, já que a denominação deriva do Nheengatu, língua ligada à história amazônica.
Foi nesse contexto que a oficina de cinema aproximou uma linguagem audiovisual contemporânea das experiências de uma comunidade marcada pelos rios, pela produção rural e pela diversidade cultural. A atividade não tratou o cinema como uma prática distante da escola ou restrita às salas de exibição. Ao contrário, apresentou a linguagem como instrumento de leitura, capaz de ser analisado junto com textos, sons, imagens, movimentos e formas de narrar.
Bete Bullara ensina a perceber as escolhas escondidas em cada cena
A oficina foi conduzida por Bete Bullara, formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense e integrante do CINEDUC desde 1975. Ela participa do Amazônia das Palavras desde a primeira edição e defende que o audiovisual seja compreendido como uma linguagem que precisa ser aprendida. Para a oficineira, a escola tem a função de ajudar os estudantes a decodificar essa forma de comunicação, assim como faz com a escrita e outras linguagens.
Durante a atividade, os alunos entraram em contato com elementos que organizam uma imagem e influenciam sua leitura. A posição da câmera pode aproximar ou afastar o espectador de uma situação. A iluminação pode destacar ou esconder partes de uma cena. O enquadramento pode selecionar o que aparece e deixar outros elementos fora do campo de visão. Essas decisões constroem sentidos e revelam que toda imagem audiovisual carrega uma intenção.
Filmes deixam de ser apenas histórias e passam a ser objetos de leitura
Ao explicar que fotografia e cinema não reproduzem a realidade de maneira neutra, a oficina deslocou a atenção do conteúdo visível para o processo de construção da cena. O estudante passa a perguntar quem escolheu aquela posição de câmera, por que determinado objeto recebeu luz e qual efeito uma música ou um corte produz na narrativa. A leitura deixa de se concentrar apenas no que acontece e também considera como aquilo foi apresentado.
Essa abordagem amplia o contato da escola com as linguagens que aparecem diariamente nas telas. Texto, música, fotografia, vídeo e desenho podem surgir combinados em uma mesma publicação ou produção audiovisual. Para Bete, compreender essa combinação ajuda os jovens a interpretar melhor as mensagens que recebem e a desenvolver uma postura menos influenciável diante dos produtos que circulam no cotidiano.
Uma experiência de descoberta para os estudantes
A estudante Rayjha Geamylle, de 14 anos, contou que a oficina modificou sua percepção sobre o cinema. Segundo ela, a atividade revelou a quantidade de decisões envolvidas na construção de um filme, algo que não aparece necessariamente para quem acompanha apenas o resultado final. A aluna afirmou que passou a perceber que fazer cinema é diferente da impressão inicial de que tudo seria simples.
O depoimento mostra a consequência direta da proposta realizada em Codajás. O filme deixou de ser visto somente como uma sequência pronta de imagens e passou a ser compreendido como uma obra construída por escolhas técnicas e narrativas. Essa mudança de olhar é o resultado prometido pela oficina: aproximar estudantes da leitura crítica do audiovisual sem separar essa aprendizagem de sua experiência escolar, cultural e amazônica.
Educação audiovisual em uma região marcada pela oralidade
A atividade também se conectou a outras práticas presentes na programação, como literatura, música, slam, animação e Nheengatu. Não se tratou de substituir uma linguagem por outra, mas de colocar diferentes formas de expressão em diálogo. Em uma cidade com tradição ribeirinha e presença indígena, o cinema foi apresentado como mais uma possibilidade de registrar, interpretar e compartilhar histórias, imagens e pontos de vista.
O segundo dia do Amazônia das Palavras ocorreu em 10 de maio de 2026, em Codajás, no Amazonas. A programação reuniu estudantes e educadores da rede pública na escola estadual indígena. A oficina não prometeu transformar todos os participantes em cineastas, nem apresentou o cinema como solução isolada para a educação. Seu alcance foi mais concreto: ensinar a observar que, por trás de cada imagem, há escolhas que podem ser lidas, discutidas e questionadas. Quando essa percepção chega à sala de aula, assistir também se torna uma forma de pensar.
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