Pesquisador queimou papiros de propósito para imitar a erupção que destruiu Pompeia e descobriu uma forma de ler livros carbonizados há 2 mil anos

Pesquisador queimou papiros de propósito para imitar a erupção que destruiu Pompeia e descobriu uma forma de ler livros carbonizados há 2 mil anos
Papiro de Herculano carbonizado pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., na Biblioteca Britânica. Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons.

Douglas Seiler foi longe para recriar um mistério de 2 mil anos. Comprou papiro e canetas de junco no Egito, tinta tradicional de negro de fumo no Japão e pagou estudantes do ensino médio para escreverem no papiro trechos de Star Wars, da Bíblia e de uma série de ficção científica dos anos 1960. Depois, enrolou os papiros, lacrou num recipiente e os queimou num forno até ficarem completamente carbonizados.

O objetivo era imitar o que aconteceu em Herculano, cidade romana vizinha de Pompeia, quando o vulcão Vesúvio entrou em erupção no ano 79. As cinzas transformaram mais de mil rolos de papiro de uma biblioteca em cilindros carbonizados e frágeis.

A única biblioteca intacta da Antiguidade

A destruição também preservou. A coleção da chamada Vila dos Papiros, em Herculano, é a única biblioteca da Antiguidade que chegou inteira até nós, e pode guardar obras que desapareceram da história. O problema é ler. Tentar desenrolar os rolos faz o papiro carbonizado virar pó preto.

Seiler, pesquisador associado ao instituto Berkeley SETI, queria saber se dava para recuperar a escrita sem abrir os rolos.

O truque do chumbo

A ideia dele estava na química da tinta. Se algumas tintas antigas tinham chumbo, o metal absorveria muito mais raio X do que o papiro carbonizado ao redor. Um computador poderia então usar as imagens para desenrolar virtualmente as folhas e revelar o texto.

No estudo publicado em setembro na revista científica PLOS One, a equipe mostrou que a estratégia funciona nos rolos experimentais. Mesmo quantidades muito pequenas de chumbo tornaram as letras visíveis na tomografia de raio X. O chumbo absorveu até 25 vezes mais raio X que o papiro queimado, fazendo a escrita saltar na imagem.

Segundo Seiler, a dificuldade atual com muitos rolos é o baixo contraste entre tinta de carbono e papel de carbono. Com chumbo na tinta, o sinal fica enorme. Por isso, ele defende procurar primeiro os rolos que tenham chumbo.

Um teste barato antes

A equipe também mostrou que um aparelho portátil e relativamente barato de fluorescência de raio X detecta facilmente a tinta com chumbo num rolo queimado. Isso permitiria fazer uma triagem e escolher os rolos mais promissores para a tomografia, que é cara e demorada.

Poucos rolos de Herculano foram abertos virtualmente e decifrados até agora, e nenhum deles foi testado antes para chumbo na tinta. Ainda não houve uma busca sistemática pela coleção.

Inteligência artificial e Vesúvio

Nos últimos anos, uma competição internacional premiou equipes que usaram inteligência artificial para identificar letras em tomografias dos rolos, e trechos de um texto filosófico grego foram lidos pela primeira vez em quase 2 mil anos. A técnica do chumbo pode se somar a esses métodos e acelerar a leitura de uma biblioteca inteira.

Perguntas frequentes

O que são os papiros de Herculano?

São mais de mil rolos carbonizados pela erupção do Vesúvio em 79, encontrados numa vila romana em Herculano, na Itália.

Dá para ler um papiro queimado?

Com tomografia de raio X e programas que desenrolam o rolo virtualmente, sim, e a tinta com chumbo facilita muito.

Com informações do instituto Berkeley SETI e do estudo publicado na PLOS One.

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