
Sob o piso de uma construção inca no litoral sul do Peru, arqueólogos encontraram nove lhamas jovens enfeitadas com borlas, com o rosto pintado de pontos e linhas vermelhas e as pernas dobradas e amarradas, como se estivessem descansando. Presas na lã de três delas havia folhas de coca. É a primeira prova direta do uso da planta em um ritual no sítio de Tambo Viejo.
O estudo foi publicado na revista científica Ñawpa Pacha e contradiz o que cronistas espanhóis relataram séculos atrás: que a coca era queimada ou amarrada em pacotes nas oferendas.
A planta sagrada dos incas
Segundo o arqueólogo Lidio Valdez, da Universidade de Calgary, no Canadá, a coca era uma planta sagrada para os incas e, de acordo com os registros escritos, estava presente em quase todas as atividades rituais. Ele a procurava havia tempo nas escavações.
Folhas de coca quase nunca são encontradas em contextos rituais incas, possivelmente porque não resistem ao clima úmido das terras altas, onde fica a maioria dos sítios. Tambo Viejo, porém, está num deserto costeiro extremamente seco, que preserva até as plantas mais frágeis.
Um ritual em camadas
O sítio foi fundado no início do século 15, sobre um povoado fortificado abandonado. As escavações, em andamento desde 2018, já revelaram praças, construções com muros de pedra, mais de uma dúzia de lhamas sacrificadas e enfeitadas e mais de 200 porquinhos-da-índia.
A oferenda com coca foi encontrada em 2024, sob o piso da chamada Estrutura 4. Depois de depositar as lhamas, os incas cobriram os animais com areia limpa de rio, colocaram quatro porquinhos-da-índia por cima, acrescentaram mais areia e acenderam uma fogueira antes de selar tudo com um piso de argila.
A datação por radiocarbono situa as oferendas entre 1450 e 1500, antes da construção dos primeiros edifícios no local. Para os pesquisadores, os sacrifícios serviam para apaziguar os espíritos locais antes de os incas se instalarem numa terra recém-conquistada.
Conquista com festa e ritual
Os incas acreditavam que o mundo era cheio de espíritos que precisavam de oferendas em troca de proteção. A coca, que as pessoas mascavam para ganhar força e afastar a fome, era vista como algo que os espíritos também desejavam.
O império inca dominou territórios enormes, e nem todos os povos conquistados aceitaram os novos governantes de bom grado. O poder era consolidado com alianças de casamento, banquetes e rituais públicos. Valdez imagina as lhamas sendo levadas em procissão pela praça principal, com discursos dos líderes do ritual diante da população.
O que os espanhóis não viram
Os incas não deixaram escrita, e quase tudo o que se sabe sobre seus rituais vem de relatos espanhóis feitos de segunda mão. Para Valdez, os cronistas provavelmente nunca presenciaram as cerimônias e registraram apenas o que ouviram, e os incas tinham bons motivos para não contar tudo. Achados como o de Tambo Viejo permitem conferir esses relatos com evidências de mais de 500 anos.
Perguntas frequentes
Os incas sacrificavam lhamas?
Sim. Lhamas eram oferecidas em rituais importantes, e Tambo Viejo tem mais de uma dúzia delas enterradas com enfeites.
Para que os incas usavam a coca?
A folha era mascada para dar energia e afastar a fome e era considerada sagrada, presente em quase todos os rituais.
Com informações da Universidade de Calgary e do estudo publicado na Ñawpa Pacha.
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