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Povos indígenas da Amazônia transformam solo pobre em terra preta fértil que sequestra carbono por séculos e ainda é praticada por comunidades como os Kuikuro

A terra preta do índio, ou Amazonian Dark Earth (ADE), é um dos legados mais impressionantes e ainda pouco compreendidos das sociedades indígenas da Amazônia. Em regiões onde o solo natural é ácido, pobre em nutrientes e de baixa fertilidade, os povos originários criaram, ao longo de milênios, manchas de solo escuro, rico em matéria orgânica, carvão e fragmentos de cerâmica, capazes de manter alta produtividade agrícola por séculos.

Estudos recentes, incluindo trabalhos com a comunidade Kuikuro no Alto Xingu, confirmam que a terra preta não é um acidente natural. Ela foi produzida intencionalmente. Os Kuikuro ainda hoje praticam a criação de eegepe – o nome que dão a esse solo fértil – acumulando restos de comida, cinzas, carvão e outros resíduos orgânicos em montes no quintal, que depois são usados para plantar.

Como se forma a terra preta

O processo combina queima incompleta de biomassa (que gera carvão estável), adição de restos orgânicos, ossos, conchas e cacos de cerâmica. O carvão, por sua estrutura porosa, retém nutrientes e água e, ao mesmo tempo, se torna um sumidouro de carbono de longa duração. Análises mostram que a terra preta pode conter até 7,5 vezes mais carbono do que os solos adjacentes. Esse carbono permanece estável por centenas ou até milhares de anos.

As camadas mais antigas de terra preta datam de cerca de 5 mil anos, com um aumento significativo de produção a partir de 4 mil anos atrás e um pico por volta de 2 mil anos. Isso coincide com o florescimento de sociedades complexas em várias partes da Amazônia.

Evidências científicas e colaboração indígena

Pesquisas publicadas em revistas como Science Advances, envolvendo arqueólogos e membros do povo Kuikuro, demonstraram que a prática é consciente e transmitida entre gerações. Kanu Kuikuro, uma anciã da aldeia Ipatsé, explicou: “Fazemos eegepe para plantar, para que a mandioca, a mangueira e todas as plantas cresçam fortes. Jogamos restos de comida, carvão, cinzas, tudo isso em um monte para depois plantar ali.”

A colaboração entre cientistas ocidentais e indígenas tem sido fundamental. O chefe Afukaká Kuikuro afirmou que a pesquisa “mostrou ao mundo, em uma linguagem que os brancos entendem, que estamos aqui neste território há muito tempo”.

Números e distribuição

  • Até 7,5 vezes mais carbono que solos comuns
  • Camadas que podem atingir 3,8 metros de espessura
  • Presente em manchas por toda a bacia amazônica
  • Associada a mais de 50 espécies de árvores domesticadas
  • Prática ainda viva entre vários povos, incluindo os Kuikuro

Além da fertilidade, a terra preta é um importante sumidouro de carbono. Em um momento de crise climática, o conhecimento indígena de como criar solos que sequestram carbono de forma estável ganha relevância global.

Limitações e debates

Ainda há discussão sobre a proporção de terra preta criada intencionalmente versus a formada por acúmulo natural em locais de ocupação intensa. No entanto, o consenso atual, baseado em entrevistas, análise de microestrutura e distribuição espacial, aponta para produção deliberada em muitos sítios. Também não se sabe exatamente quantas toneladas de carbono estão armazenadas em todas as manchas de terra preta da Amazônia – estimativas variam amplamente.

Importância para o Brasil atual

A terra preta oferece lições práticas para a agricultura sustentável e para a restauração de solos degradados. Técnicas inspiradas nela, como o uso de biochar (carvão vegetal), estão sendo testadas em vários países. No Brasil, o reconhecimento desse conhecimento indígena fortalece os argumentos pela demarcação de Terras Indígenas e pela valorização dos saberes tradicionais como ciência.

Em 2026, a terra preta continua sendo estudada como um dos exemplos mais claros de que a Amazônia foi, e ainda é, uma paisagem profundamente moldada pela inteligência e pelo trabalho de seus povos originários.

Além disso, a terra preta está associada a mais de cinquenta espécies de árvores domesticadas ou manejadas pelos povos indígenas, incluindo castanha-do-pará, cacau, açaí e várias frutíferas. Essa associação reforça a ideia de que a floresta amazônica, em muitas áreas, é uma floresta cultural – um produto do manejo humano de longo prazo, e não apenas de processos ecológicos naturais.

Pesquisadores brasileiros e internacionais têm proposto o uso de técnicas inspiradas na terra preta para a recuperação de áreas degradadas por pastagem e agricultura intensiva. O biochar, carvão vegetal produzido de forma controlada, é uma das tecnologias derivadas desse conhecimento ancestral. Quando aplicado ao solo, ele imita algumas das propriedades da terra preta original: retém água, aumenta a capacidade de troca catiônica e armazena carbono por períodos longos.

Para as comunidades indígenas contemporâneas, a terra preta é também um argumento político e territorial. Ela prova, de forma material e científica, a ocupação antiga e o manejo sofisticado da terra. Em processos de demarcação e em disputas judiciais, a presença de terra preta tem sido citada como evidência de ancestralidade e de direito originário.

A história da terra preta, portanto, une passado e futuro. Ela mostra o que os povos indígenas já sabiam fazer milênios atrás e, ao mesmo tempo, oferece caminhos concretos para enfrentar os desafios climáticos e de segurança alimentar do século XXI. Em um país que busca reduzir emissões e restaurar paisagens, esse conhecimento não é apenas patrimônio cultural – é tecnologia viva.

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