Paraisópolis registra superfícies de até 45°C no verão enquanto Morumbi fica em média a 30°C e estudo relaciona diferença à arborização

Paraisópolis registra superfícies de até 45°C no verão enquanto Morumbi fica em média a 30°C e estudo relaciona diferença à arborização
Ilustração: Revista Amazônia

Análise de 19 imagens termais mostra como vegetação, adensamento e planejamento territorial ajudam a explicar o calor desigual em bairros vizinhos de São Paulo

Quinze graus separam bairros vizinhos

Telhados, ruas e trechos de solo chegaram a registrar até 45°C em Paraisópolis durante o verão, entre o fim de 2024 e o início de 2025. No Morumbi, bairro vizinho de alto padrão econômico, as superfícies analisadas ficaram em média em torno de 30°C. A diferença alcançou 15°C entre territórios separados por poucos quilômetros na zona sul de São Paulo, segundo uma análise baseada em imagens termais de satélite.

Os valores descrevem a temperatura das superfícies, e não a temperatura do ar medida por termômetros meteorológicos. Por isso, os registros podem ser mais altos do que aqueles percebidos nos boletins do tempo. Ainda assim, a comparação revela como o calor se distribui de maneira desigual dentro da mesma cidade. Em Paraisópolis, o calor se concentra em áreas construídas e densamente ocupadas. No Morumbi, a presença de vegetação e a organização espacial do bairro aparecem associadas a condições mais amenas nas superfícies observadas.

Dezenove imagens reconstruíram o verão

Os pesquisadores examinaram 19 imagens termais produzidas por um satélite de observação da Terra, referentes ao período entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. A sequência permitiu comparar diferentes momentos do verão e observar o comportamento térmico dos dois bairros. O foco não foi medir diretamente a temperatura corporal das pessoas nem substituir as medições convencionais do ar, mas identificar quanto aqueciam os materiais e os terrenos expostos.

O resultado mostrou Paraisópolis com registros de até 45°C nos dias mais quentes, enquanto a média encontrada no Morumbi ficou ao redor de 30°C. Em Heliópolis, outra favela paulistana entre as mais populosas, as superfícies também ultrapassaram 44°C nos períodos de maior calor. A análise foi divulgada em 29 de dezembro de 2025 e chama atenção para uma diferença que pode permanecer invisível quando a cidade é representada apenas por uma temperatura média geral.

Vegetação e adensamento mudam o calor da cidade

Victor Fernandez Nascimento, pesquisador do Cefavela, explicou que a morfologia do terreno e a disposição das estruturas urbanas influenciam diretamente as diferenças observadas entre áreas próximas. Segundo ele, esse fator é fortemente relacionado à quantidade de vegetação. Quanto mais arborizado é um bairro, mais amena costuma ser a temperatura das superfícies. A sombra e a presença de áreas vegetadas fazem parte de um conjunto de características que diferencia os territórios.

O adensamento também pesa nessa configuração. Em áreas de ocupação intensa, construções muito próximas umas das outras reduzem a circulação do ar entre as residências. Nascimento destacou que a ventilação cruzada, capaz de trazer algum frescor para os ambientes internos, acaba prejudicada quando as casas ficam grudadas. O resultado é maior desconforto térmico dentro das moradias, especialmente durante períodos prolongados de calor. A diferença registrada entre Paraisópolis e Morumbi, portanto, não é explicada por um único elemento, mas pela combinação entre vegetação, forma urbana e ocupação do território.

Calor extremo também é uma questão de saúde

Para Nascimento, 30°C de temperatura de superfície já representa um valor muito alto. Ele afirmou que, nessa condição, os riscos de problemas de saúde aumentam em 50%, principalmente entre bebês, idosos e pessoas com alguns tipos de doenças. O pesquisador também relacionou a exposição ao calor a problemas cardiovasculares, incluindo o aumento do número de infartos. Esses efeitos são chamados de silent killers, ou assassinos silenciosos, porque podem provocar mortes sem a visibilidade imediata de eventos como deslizamentos de terra.

De acordo com o pesquisador, morrem atualmente no Brasil 21 vezes mais pessoas por doenças associadas ao aumento da temperatura e às ilhas de calor do que por desastres como deslizamentos. A diferença entre os bairros mostra que a vulnerabilidade não depende somente do fenômeno meteorológico. Ela também envolve condições sociais, qualidade das moradias, disponibilidade de vegetação e capacidade de adaptação. Por isso, os pesquisadores defendem que o planejamento urbano trate o calor como um problema territorial e de saúde pública, e não apenas como uma variação passageira do verão.

Medidas precisam combinar escalas diferentes

Na escala da cidade, as ações apontadas por Nascimento incluem atualizar o plano diretor, favorecer a arborização urbana, construir jardins de chuva e melhorar a drenagem. Em áreas de assentamentos e favelas, ele menciona a ampliação de jardins coletivos e hortas urbanas, além de soluções que favoreçam a ventilação cruzada. A proposta é combinar intervenções capazes de criar sombra, melhorar a circulação do ar e reduzir a concentração de calor em superfícies expostas.

A análise das imagens não transforma automaticamente a diferença térmica em uma explicação única nem equivale a uma medição da temperatura do ar. Ela, porém, coloca em escala visível uma desigualdade cotidiana: duas áreas próximas podem oferecer condições térmicas muito diferentes para quem vive, trabalha ou circula nelas. Em São Paulo, observar o calor dessa forma significa reconhecer que árvores, espaço entre construções e planejamento não são apenas elementos da paisagem. Também definem quanto a cidade consegue proteger seus moradores nos dias mais quentes.

Com informações da Agência Brasil.

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