
Em 10 de janeiro de 1992, no meio do Pacífico Norte, contêineres caíram de um navio de carga durante uma tempestade. Dentro de um deles havia cerca de 28,8 mil brinquedos de banho de plástico: patinhos amarelos, tartarugas azuis, castores vermelhos e sapos verdes. As embalagens se desfizeram em pouco tempo, e os bichinhos ficaram à deriva. Meses depois, começaram a aparecer nas praias do Alasca. O que parecia só lixo virou uma das experiências mais famosas da oceanografia: seguindo os brinquedos, cientistas mediram quanto tempo leva para um objeto dar a volta em uma das grandes correntes do Pacífico.
Do meio do oceano ao Alasca
Segundo artigo publicado em 2007 na revista científica Eos, da União Geofísica Americana, pelo oceanógrafo Curtis Ebbesmeyer e colegas, os brinquedos caíram na altura de 44° de latitude norte e 178° de longitude leste, perto da Linha Internacional de Data. Em agosto e setembro de 1992, milhares chegaram à costa perto de Sitka, no Alasca, depois de percorrer cerca de 4 mil quilômetros.
A pista veio de moradores e de um jornal local que noticiou o aparecimento dos bichinhos. Ebbesmeyer passou a reunir relatos de quem encontrava os brinquedos e confirmou centenas de achados ao longo de centenas de quilômetros da costa do Alasca.
O modelo que seguiu os patinhos
Para entender o caminho, Ebbesmeyer trabalhou com James Ingraham, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que tinha criado um modelo de computador chamado OSCURS, capaz de calcular as correntes de superfície a partir da pressão do ar sobre o mar. Os pesquisadores soltaram no modelo 70 brinquedos virtuais no mesmo ponto e na mesma data do acidente e compararam com os achados reais.
O resultado: os brinquedos foram levados pelo giro subártico do Pacífico Norte, um enorme redemoinho de correntes entre o Alasca, o Canadá, a Rússia e o Japão. Somando diferentes conjuntos de dados, os cientistas calcularam que um objeto à deriva leva, em média, cerca de três anos para dar uma volta completa nesse giro. Segundo o modelo, os brinquedos percorreram órbitas de 7.400 a 13.500 quilômetros, a velocidades de 11 a 13 centímetros por segundo.
Quantos foram achados
Segundo o artigo, apenas cerca de 3,3% dos brinquedos foram encontrados e relatados. Entre 1993 e 2005, uma família de Sitka recolheu 124 deles: 35% patinhos, 26% castores, 21% sapos e 18% tartarugas. O resto se perdeu no mar, afundou, se desfez ou nunca foi visto.
Os mitos da história
- “Chegaram à Inglaterra”: em 2007, um pato encontrado no sudoeste da Inglaterra foi apresentado como um dos brinquedos de 1992, mas a identificação não se confirmou. Não há registro científico de chegadas ao Atlântico;
- “Levaram dez meses até o Alasca”: segundo o artigo científico, as primeiras chegadas foram em agosto e setembro de 1992, cerca de sete a oito meses depois do acidente;
- Rota pelo Ártico: o modelo indica que parte dos objetos pode ter seguido para o Oceano Ártico, mas isso é uma simulação, sem brinquedos recuperados para confirmar.
Do brinquedo ao lixo no mar
O caso ajudou a mostrar como o lixo flutuante viaja por milhares de quilômetros e se acumula em certas regiões do oceano, como os giros, onde as correntes formam grandes áreas de concentração de plástico. Na Amazônia, a pesquisa sobre lixo nos rios e na costa usa a mesma lógica: entender o caminho das correntes é o primeiro passo para saber onde o plástico vai parar.
Entenda
- Quando: 10 de janeiro de 1992, no Pacífico Norte.
- Quantos: cerca de 28,8 mil brinquedos de banho.
- Primeiras chegadas: Alasca, em agosto e setembro de 1992.
- O que revelaram: um objeto leva cerca de três anos para dar uma volta no giro subártico do Pacífico Norte.
Com informações do artigo de Ebbesmeyer, Ingraham e colegas na revista Eos (União Geofísica Americana) e da NOAA.
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