Carlos Nobre recebe prêmio internacional após quatro décadas de ciência dedicada à Amazônia

Carlos Nobre recebe prêmio internacional após quatro décadas de ciência dedicada à Amazônia
Foto: acervo

Climatologista aposentado do INPE foi homenageado em Nova York por sua contribuição à pesquisa e à conservação da floresta.

O reconhecimento internacional entregue em Nova York coloca a trajetória de Carlos Nobre no centro de um tema que afeta diretamente o Brasil: como transformar conhecimento sobre clima e floresta em decisões de conservação. Pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o climatologista recebeu em 23 de setembro de 2026 o Prêmio Thomas E. Lovejoy por Liderança em Ciência e Conservação da Amazônia.

A cerimônia ocorreu durante a Semana do Clima de Nova York e homenageou mais de quatro décadas de atuação científica de Nobre. O prêmio é concedido por cinco organizações internacionais e, neste ano, teve a Wildlife Conservation Society, a WCS, como responsável pela realização da cerimônia.

Uma carreira construída entre dados, clima e floresta

Carlos Nobre integrou o INPE entre 1983 e 2012. Durante esse período, ocupou posições de liderança em áreas estratégicas do instituto, incluindo a chefia do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, o CPTEC, e do Centro de Ciência do Sistema Terrestre, o CCST.

Essas estruturas ajudaram a consolidar no Brasil linhas de pesquisa voltadas à previsão meteorológica, ao funcionamento do sistema climático e às transformações ambientais. A atuação de Nobre esteve ligada justamente à conexão entre esses campos, mostrando que a Amazônia não pode ser analisada apenas como uma área de floresta, mas como parte de um sistema que influencia o clima em escalas regional e global.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Carlos Nobre recebeu o Prêmio Thomas E. Lovejoy de 2026 em Nova York, em 23 de setembro, por sua contribuição à ciência e à conservação da Amazônia.

Por que a Amazônia está no centro da homenagem

A floresta amazônica exerce influência sobre o ciclo da água, a circulação atmosférica e a regulação climática. Por isso, estudos sobre desmatamento, queimadas, alterações na cobertura vegetal e mudanças no regime de chuvas têm efeitos que ultrapassam os limites do bioma.

Nos estados amazônicos, essa relação aparece no cotidiano de diferentes formas. Comunidades rurais dependem da regularidade das chuvas para a produção de alimentos, cidades enfrentam períodos de estiagem ou cheias mais severas e setores como transporte fluvial, geração de energia e abastecimento urbano são afetados por alterações no nível dos rios.

Em Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, o acompanhamento do clima e da cobertura da terra também é importante para orientar políticas públicas. A produção científica associada ao INPE oferece parte da base necessária para interpretar imagens de satélite, acompanhar mudanças ambientais e planejar respostas.

Carlos Nobre recebe prêmio internacional após quatro décadas de ciência dedicada à Amazônia
Ilustração: Revista Amazônia

O legado de Thomas Lovejoy

O prêmio recebido por Nobre leva o nome do especialista em biodiversidade Thomas Lovejoy, que morreu em 2021. A distinção foi criada para reconhecer pessoas que contribuem para a conservação da Amazônia por meio da ciência e para ampliar a visibilidade de iniciativas capazes de inspirar uma nova geração de pesquisadores.

Lovejoy teve atuação reconhecida internacionalmente na defesa da biodiversidade e na formulação de estudos sobre os efeitos da fragmentação florestal. Ao associar seu nome a uma premiação voltada à Amazônia, as organizações responsáveis reforçam a importância de pesquisas de longo prazo em uma região onde mudanças ambientais podem produzir impactos cumulativos.

A escolha de Nobre também evidencia uma mudança na forma de tratar a conservação. O debate deixou de se limitar à proteção de áreas isoladas e passou a considerar relações entre clima, biodiversidade, uso da terra, economia e qualidade de vida. Essa abordagem é especialmente relevante para a Amazônia, onde as pressões ambientais convivem com demandas sociais e produtivas distintas.

Da pesquisa no INPE às soluções sustentáveis

Atualmente, Carlos Nobre é cientista sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, o IEA/USP. Seu trabalho continua relacionado à interação entre a Amazônia e o clima, além de iniciativas que buscam aproximar conservação da floresta, ciência e desenvolvimento sustentável.

Essa combinação ajuda a explicar a dimensão da homenagem. O reconhecimento não se refere apenas a uma descoberta específica, mas a uma trajetória dedicada a produzir conhecimento e a defender o uso desse conhecimento na construção de alternativas para a região.

Na prática, pesquisas climáticas apoiam desde sistemas de alerta para eventos extremos até o planejamento de ações contra queimadas e desmatamento. O INPE mantém serviços públicos de acompanhamento ambiental, como o monitoramento de queimadas e a plataforma de dados sobre desmatamento, ferramentas que ajudam instituições e sociedade a acompanhar a dinâmica da floresta.

O que o prêmio representa para a ciência brasileira

A premiação em Nova York dá visibilidade internacional à produção científica brasileira e à capacidade de pesquisadores do país participarem de debates globais sobre clima e biodiversidade. Também reforça a relevância de instituições públicas de pesquisa para a compreensão de fenômenos que afetam milhões de pessoas.

Para a Amazônia, o reconhecimento funciona como uma lembrança de que decisões sobre conservação dependem de dados confiáveis, séries históricas e equipes capazes de interpretar transformações ambientais ao longo do tempo. Sem esse acompanhamento, políticas de combate ao desmatamento, prevenção de incêndios e adaptação às mudanças climáticas ficam mais vulneráveis a decisões de curto prazo.

A homenagem deverá ampliar a circulação das ideias associadas à trajetória de Nobre e cumprir o objetivo anunciado pelo prêmio: aproximar o público das iniciativas de conservação e estimular a formação de novos cientistas dedicados à Amazônia.

Com informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

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