Peixe de 2,7 cm é encontrado em poças do Amapá, mas garimpo já pressiona o habitat da nova espécie

Peixe de 2,7 cm é encontrado em poças do Amapá, mas garimpo já pressiona o habitat da nova espécie
Foto: Divulgação

Laimosemion laranja vive em ambientes temporários ligados ao rio Cajari e pode desaparecer antes de ter seu ciclo de vida conhecido.

Uma poça que pode desaparecer durante a estação seca abriga uma das descobertas recentes da biodiversidade amazônica. Foi nesse tipo de ambiente, no sul do Amapá, que pesquisadores encontraram o Laimosemion laranja, uma nova espécie de peixe-nuvem com até 2,7 centímetros. O animal vive em poças d’água e igarapés rasos temporários ligados à bacia do rio Cajari, mas seu habitat já sofre pressão do garimpo, da expansão urbana e do lixo plástico.

O nome científico combina a coloração alaranjada do peixe com uma referência a Laranjal do Jari, município onde um dos exemplares foi localizado. A descrição formal foi feita por uma equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), da Universidade Federal do Pará (UFPA), do Instituto Peixe das Nuvens e da Universidade do Oeste da Flórida.

O artigo foi publicado em agosto na revista científica Zoosystematics and Evolution. Segundo o artigo publicado na revista Zoosystematics and Evolution, o Laimosemion laranja foi reconhecido como espécie distinta após análises morfológicas, anatômicas e genéticas realizadas em exemplares coletados no sul do Amapá.

O peixe vive onde a água não permanece o ano inteiro

A característica mais importante do ambiente ocupado pelo peixe é justamente sua instabilidade. As poças e os pequenos cursos d’água podem secar em parte ou desaparecer durante os meses de estiagem. Quando a água retorna com as chuvas, o sistema volta a oferecer condições para a reprodução e o desenvolvimento dos animais.

Esse ciclo ajuda a separar populações de peixes que vivem em áreas próximas. Como os ambientes temporários ficam isolados entre si, grupos que não trocam indivíduos por longos períodos podem acumular diferenças. No caso do L. laranja, esse isolamento ajuda a explicar por que a espécie é considerada endêmica da região do rio Cajari.

O gênero Laimosemion reúne 35 espécies endêmicas distribuídas principalmente pelo Escudo das Guianas, formação geológica que abrange áreas do norte da América do Sul. A nova espécie amplia o conhecimento sobre uma linhagem associada a ambientes pequenos, descontínuos e pouco visíveis na paisagem.

Como os pesquisadores separaram a nova espécie das semelhantes

O tamanho reduzido e a aparência colorida não foram suficientes para confirmar a descoberta. Para verificar se o peixe realmente não correspondia a uma espécie já descrita, os pesquisadores compararam sua forma externa, a anatomia interna e informações do material genético.

Entre as características registradas estão oito fileiras transversais de escamas e 28 vértebras. A combinação desses elementos, somada aos dados genéticos e às diferenças observadas em relação a espécies próximas, sustentou a descrição do L. laranja como uma espécie independente.

Esse procedimento é importante porque peixes pequenos de áreas temporárias podem apresentar variações de cor e forma relacionadas ao ambiente. A confirmação depende de um conjunto de evidências, não apenas de uma observação visual feita em campo.

Garimpo aparece no mesmo cenário da descoberta

A pesquisa também revelou um problema que não estava restrito ao peixe. Em uma das localidades visitadas, os exemplares foram encontrados em poças formadas por antigas atividades de garimpo. A água apresentava coloração avermelhada e grande quantidade de partículas em suspensão, sinais de alteração das condições naturais do local.

De acordo com Yuri Abrantes, doutorando da UFRN e primeiro autor do estudo, a dimensão da atividade garimpeira na região ficou mais evidente durante a preparação do artigo, quando a equipe examinou imagens de satélite. A área fica nas proximidades da Reserva Extrativista do rio Cajari, onde a degradação ambiental é apontada como uma ameaça adicional aos ambientes usados pelo peixe.

Em outros pontos de ocorrência, os pesquisadores identificaram a presença de expansão urbana e resíduos plásticos. Para uma espécie que depende de poças rasas e isoladas, mudanças no solo, assoreamento, contaminação ou obstrução dos pequenos canais podem alterar o habitat mesmo sem a destruição de um rio de grande porte.

O que ainda falta descobrir sobre o L. laranja

A possibilidade de ameaça existe, mas a situação de conservação da espécie ainda depende de mais estudos. Os pesquisadores pretendem investigar o ciclo de vida do peixe e verificar se ele pertence ao grupo dos rivulídeos anuais.

Nos rivulídeos anuais, os adultos podem morrer quando a poça seca, enquanto os ovos permanecem protegidos no solo até a chegada de novas chuvas. Se essa hipótese se confirmar para o L. laranja, a sobrevivência da população dependerá tanto da permanência dos ovos no substrato quanto do retorno das condições adequadas de umidade.

Essa estratégia não significa que a espécie esteja adaptada a qualquer alteração. O ciclo natural de secagem e inundação é diferente de uma mudança provocada por garimpo, urbanização ou descarte de resíduos. A duração da estiagem, a qualidade da água e a estrutura do solo podem influenciar se os ovos conseguem permanecer viáveis.

Por que a descoberta importa para a Amazônia

O caso do Amapá mostra como a biodiversidade amazônica também está concentrada em ambientes que não aparecem nos mapas como grandes rios, lagos ou áreas alagadas permanentes. Poças sazonais e igarapés estreitos podem abrigar espécies que não existem em outros lugares e que passam despercebidas fora de períodos específicos do ano.

Para leitores do Amapá e do Pará, a descoberta evidencia a relação entre a conservação de microambientes e a proteção das bacias hidrográficas. Para os demais estados amazônicos, o estudo oferece uma referência sobre um tipo de risco que pode atingir áreas de água temporária sempre que o uso do solo modifica o regime natural de drenagem.

A identificação do peixe também reforça a importância de combinar expedições de campo com imagens de satélite e análises laboratoriais. O trabalho de campo localizou os animais, enquanto a comparação anatômica e genética ajudou a estabelecer a identidade da espécie e as imagens ampliaram a compreensão sobre as pressões existentes na paisagem.

Os próximos passos são acompanhar as populações conhecidas, investigar a reprodução e avaliar a qualidade dos ambientes onde o peixe ocorre. Esses dados serão necessários para saber se o Laimosemion laranja deve entrar em alguma categoria formal de ameaça e para orientar medidas de proteção no sul do Amapá.

Com informações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da Universidade Federal do Pará, do Instituto Peixe das Nuvens e da Universidade do Oeste da Flórida.

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