
O periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), uma das aves mais raras do Brasil, não era registrado na Serra das Almas, no limite entre o Ceará e o Piauí, havia cerca de 114 anos. Desde 2024, o projeto Refaunar Arvorar soltou 44 aves na Reserva Natural Serra das Almas, e em 17 de março de 2026 nasceram os primeiros filhotes em vida livre. Agora, um ano de monitoramento das caixas-ninho, apresentado em setembro no Congresso Brasileiro de Ornitologia, mostra o tamanho do desafio: as aves disputam os ninhos com outras espécies e sofrem com predadores.
O projeto é conduzido pela Associação Caatinga, que administra a reserva, e pela ONG Aquasis, em parceria com o Parque Arvorar, do grupo Beach Park.
Uma ave que quase sumiu
O periquito-cara-suja é ameaçado de extinção e hoje só sobrevive no Ceará, em serras úmidas, como a de Baturité, e em poucos outros pontos. A captura para o comércio ilegal de animais e a perda de habitat reduziram drasticamente a população. Num censo feito em novembro de 2025 com coordenação da Aquasis e apoio do ICMBio, a equipe constatou declínio acentuado do grupo de Quixadá, provavelmente por captura ilegal.
A volta à Caatinga
A reintrodução na Serra das Almas começou em junho de 2024. As aves vieram principalmente da Serra de Baturité e passaram antes por um viveiro de aclimatação dentro da reserva, para reconhecer o novo ambiente e se adaptar às condições da Caatinga. Depois da soltura, a equipe acompanha os bandos, oferece alimento em comedouros e observa como as aves interagem.
A reserva tem 6.285 hectares de Caatinga preservada e é a maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Ceará.
Os primeiros filhotes na natureza
Em outubro de 2025, a equipe viu os primeiros casais em comportamento de cópula. Com as chuvas, em 21 de fevereiro de 2026, apareceram os primeiros ovos nas caixas-ninho, estruturas de madeira que imitam os ocos de árvore onde a espécie se reproduz. Ao todo, os pesquisadores contaram 33 ovos. Os primeiros filhotes nasceram em 17 de março.
“A quantidade de ovos foi maior do que esperávamos. Nossa expectativa é que este seja um ano de sucesso e que a população de periquito cara-suja na reserva possa até dobrar já em 2026”, disse na ocasião a bióloga Ariane Ferreira, analista de projetos da Associação Caatinga. Antes disso, os únicos filhotes nascidos na serra tinham vindo de reprodução dentro do viveiro.
O que as caixas-ninho revelaram
Em setembro, Ariane apresentou no Congresso Brasileiro de Ornitologia, em São Luís (MA), os resultados de um ano de monitoramento das caixas-ninho. O estudo identificou quais outras espécies usaram as estruturas, registrou casos de competição pelos ninhos e identificou os predadores de periquitos adultos e de filhotes.
“Os resultados mostram os desafios de formar uma população de uma espécie que foi extinta na região. As aves disputam as cavidades com outras espécies e sofrem com predadores. Por isso, precisamos seguir monitorando e ajustando o manejo conforme os resultados”, explicou a bióloga.
Por que a reprodução importa
Em projetos de reintrodução, a reprodução na natureza é um dos principais sinais de sucesso no curto prazo. Ela mostra que os animais encontraram comida, abrigo e condições para criar filhotes sem ajuda humana direta. No caso do cara-suja, o feito chamou atenção porque as aves vieram de um ambiente diferente, a úmida Serra de Baturité, e precisaram aprender a explorar as plantas da Caatinga.
Perguntas frequentes
Onde fica a Serra das Almas?
Entre Crateús, no Ceará, e Buriti dos Montes, no Piauí.
Quantos periquitos foram soltos?
44 aves, segundo a Associação Caatinga, a maioria vinda da Serra de Baturité.
Quando nasceram os primeiros filhotes na natureza?
Em 17 de março de 2026, em caixas-ninho instaladas na reserva.
Qual é a maior ameaça ao periquito-cara-suja?
A captura ilegal para o comércio de animais e a perda de habitat, além de predadores e da disputa por ninhos nas áreas de reintrodução.
A equipe segue acompanhando os filhotes e prepara novas solturas para consolidar a população na reserva.
Com informações da Associação Caatinga e da Aquasis.
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