
Tecnologia estudada por Embrapa, IFPR e PUC-PR usa sinais químicos para prolongar a presença dos animais em áreas em recuperação.
Em vez de transportar mudas até uma área degradada, uma nova estratégia tenta fazer a própria fauna levar a floresta de volta. Pesquisadores brasileiros descobriram que aromas sintéticos, aplicados em pequenas quantidades, atraem morcegos frugívoros e aumentam a permanência desses animais sobre locais que precisam de recuperação. A consequência esperada é a deposição de sementes por meio das fezes, criando uma chuva natural capaz de complementar o plantio convencional.
A técnica foi desenvolvida por Embrapa Florestas, Instituto Federal do Paraná e Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Os resultados foram reunidos na publicação Tecnologia de restauração florestal baseada na atração de morcegos dispersores de sementes, voltada a pesquisadores, técnicos, gestores públicos, proprietários rurais e organizações envolvidas em restauração ecológica.
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O mecanismo é simples, mas depende de uma escolha decisiva: o aroma não é espalhado diretamente no solo. A substância é absorvida por um septo de borracha de látex, semelhante à tampa de borracha de um frasco de medicamento. O material fica pendurado em árvores e libera o composto de maneira gradual.
Os primeiros testes com papel-filtro mostraram uma limitação prática. O cheiro desaparecia rapidamente e a chuva removia parte do produto. Já o septo apresentou liberação mais estável. Em experimentos em cativeiro, manteve o aroma por 20 a 25 dias, período que pode ampliar a chance de os morcegos localizarem a área e circularem por mais tempo sobre ela.
Segundo a Embrapa, os morcegos percebem o odor enquanto sobrevoam áreas abertas e passam a procurar a suposta fonte de alimento. Durante esse comportamento, a defecação pode lançar sementes diretamente no terreno degradado. Não se trata, portanto, de treinar os animais, mas de utilizar um sinal químico para influenciar temporariamente o deslocamento natural da fauna.

Da coleta de frutos à fórmula produzida em laboratório
A pesquisa começou em 2003 com óleos essenciais extraídos de frutos consumidos por morcegos. Os estudos identificaram forte atração por compostos associados a plantas dos gêneros Ficus, que inclui as figueiras, Piper, grupo dos jaborandis, e Solanum, onde estão tomates silvestres.
Nos últimos seis anos, a equipe passou a separar frações desses óleos para descobrir quais componentes eram responsáveis pela resposta dos animais. A etapa seguinte foi testar substâncias equivalentes produzidas artificialmente. O resultado abriu uma alternativa operacionalmente mais simples que o uso de óleos puros e reduziu a dependência da coleta de frutos silvestres.
“Muitas vezes, 500 gramas de frutos rendem apenas algumas gotas de óleo natural”, afirmou Lays Cherobim, pesquisadora da PUC-PR. A observação expõe um problema pouco visível em projetos de restauração: uma solução aparentemente natural também pode pressionar populações de plantas quando exige grande volume de frutos para produzir pequenas quantidades de extrato.
Por que os morcegos podem ampliar a diversidade da floresta
O plantio de mudas continua sendo uma ferramenta importante, mas exige coleta de sementes, germinação, manutenção em viveiro, transporte e plantio. Além do custo, esse modelo costuma depender das espécies escolhidas previamente pelos responsáveis pelo projeto. A dispersão feita pelos morcegos introduz sementes disponíveis nos remanescentes próximos, inclusive de plantas pioneiras e secundárias pouco utilizadas em reflorestamentos convencionais.
Esse é o principal ganho ecológico apontado pelos pesquisadores. Ao estimular um processo que já ocorre nos ecossistemas, a técnica pode contribuir para uma regeneração mais diversificada e reduzir a dependência exclusiva de mudas plantadas. O benefício, porém, não equivale a uma solução pronta para qualquer área: a chegada de sementes depende da existência de morcegos e de fontes vegetais nas proximidades.

Segundo a Embrapa, morcegos dos gêneros Artibeus, Carollia e Sturnira são atraídos por óleos essenciais de figueiras, jaborandis e tomates silvestres em estudos realizados no Paraná. A pesquisa foi divulgada em 8 de setembro de 2026 e ainda trata a aplicação como uma alternativa complementar, não como substituta universal do reflorestamento.
O que a descoberta revela sobre a restauração na Amazônia
A conexão com a Amazônia está no funcionamento ecológico da proposta. A região reúne extensas áreas de floresta, zonas de borda, pastagens abandonadas e territórios sujeitos à fragmentação, cenários nos quais a dispersão de sementes pode ser decisiva para a regeneração. Morcegos frugívoros também têm ampla distribuição em ambientes tropicais e subtropicais, o que sustenta o interesse potencial da técnica para diferentes estados amazônicos.
Isso não significa que o método já esteja validado para o Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins ou Maranhão. Os resultados apresentados não definem protocolos para esses territórios, nem demonstram como clima, composição da floresta, disponibilidade de frutos e espécies locais alterariam a resposta dos animais. A adaptação regional exigirá testes específicos, sobretudo em áreas onde a distância entre fragmentos florestais é grande.
Essa cautela é central porque atrair morcegos não garante, por si só, a recuperação de um ecossistema. É preciso saber quais sementes serão transportadas, se elas germinarão, se haverá predadores ou competidores e se as plantas conseguirão avançar após a fase inicial. A técnica pode aumentar a oferta de sementes, mas o resultado final dependerá das condições do solo, da paisagem e da proteção da área.
O próximo passo é medir o efeito fora do laboratório
Os pesquisadores ainda precisam definir a concentração adequada dos compostos, a quantidade de septos, o intervalo de reposição e a distância entre os pontos de instalação. A ausência de uma exigência rígida de espaçamento facilita a experimentação, mas também mostra que a tecnologia ainda não chegou a um protocolo fechado para uso em larga escala.
Entre os próximos passos estão a identificação de novos compostos, a comparação do poder de atração de cada substância e o uso de câmeras infravermelhas para monitorar a atividade noturna. Esses dados deverão indicar se a presença dos morcegos realmente se converte em aumento duradouro da regeneração vegetal.
O guia completo pode ser consultado na biblioteca de publicações da Embrapa, enquanto a equipe avança na definição dos testes de campo e dos protocolos de aplicação.
Com informações de Embrapa.
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