
No apartamento de Cherbourg-en-Cotentin, no extremo noroeste da França, três serpentes e um buldogue francês dividiam o mesmo chão sem grades entre os cômodos, e a rotina parecia estável até Bella desaparecer.
A píton-real de 1,90 m, animal que o dono cria há sete anos e ao qual se diz muito apegado, sumiu há cerca de uma semana do imóvel onde circulava à vontade com um boa constritor e uma cobra-do-milho, e na sexta-feira correspondente às buscas oficiais ainda não havia sido localizada.
Jean-Charles, de 34 anos, mora nesse porto da Manche, na ponta da península do Cotentin, cidade de clima oceânico fresco beirando o Canal da Mancha a centenas de quilômetros a oeste de Paris.
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Uma cobra capturada em um viveiro de Presidente Figueiredo regurgitou presas junto com embalagens e revelou o primeiro caso amazônico de ingestão de plásticoEle conta que os répteis andam livres pelo apartamento e suspeita que Bella tenha saído por uma janela e caído sobre uma cornija, o tipo de fresta estreita e sombreada que serpentes urbanas costumam escolher quando o ar lá fora esfria.
Como os bombeiros entraram na caça à serpente de quase dois metros
Na tarde da sexta-feira 28 de agosto de 2026, por volta das 15 horas, os sapeurs-pompiers chegaram ao prédio e começaram a varrer os arredores do edifício com o olhar treinado para animais de estimação exóticos.
Montaram a escada grande para alcançar o apartamento de um vizinho que estava ausente e cuja janela estava entreaberta, exatamente o tipo de passagem que uma constritora longa e flexível poderia usar para se esconder em outro interior aquecido. Nenhuma marca, pele ou rastro de Bella apareceu nos pontos vistoriados, e a operação seguiu aberta com apoio de serviços municipais.
As equipes francesas formadas para lidar com os chamados novos animais de companhia sabem que répteis domésticos fogem para cantos frios, úmidos e escuros, e que se enfi visam em dutos, forros e vãos que um adulto mal consegue enxergar de pé. A cobertura local do actu.fr registrou a mobilização e o estado de alerta contínuo, sem anunciar captura até aquele momento.
O dono espera o reencontro com a serpente que acompanha há sete anos, enquanto a cidade portuária segue com a rotina de verão ameno e a possibilidade de o animal estar a poucos metros, enrolado em silêncio.
Por que uma píton-real africana some num porto frio da Normandia
A píton-real, conhecida no comércio de terrário como ball python ou python-real, é nativa de savanas e bordas de floresta da África Ocidental e Central e se tornou uma das serpentes de estimação mais difundidas do mundo por causa do tamanho moderado e do hábito de se enrolar em bola quando se sente ameaçada.
Não tem peçonha; mata por constrição e se alimenta sobretudo de pequenos mamíferos, o que reduz o risco direto a humanos adultos quando o animal não está acuado. Em clima temperado europeu, um exemplar fugido tende a procurar abrigo quente e úmido, como porões, garagens, depósitos e cantos atrás de móveis, e pode ficar dias sem se alimentar enquanto espera a temperatura ideal.
Cherbourg, com verões oceânicos amenos e umidade constante vinda do Canal da Mancha, torna improvável que a cobra cruze longas distâncias a céu aberto e aumenta a chance de ela permanecer escondida em microambientes aquecidos do próprio quarteirão.
O comprimento de 1,90 m coloca Bella acima da média vista em muitos exemplares adultos de pet shop, o que a torna mais visível se aparecer em corredor ou jardim, mas também mais capaz de ocupar vãos longos e se acomodar em cornijas e soleiras.
A convivência livre com outras duas serpentes e com o buldogue francês no mesmo apartamento mostra um modelo de criação sem recinto fechado permanente, prática que facilita o convívio diário e, ao mesmo tempo, multiplica as rotas de fuga quando uma janela ou porta fica entreaberta.
O que acontece quando um animal exótico some em área habitada
Na França, a detenção de certas espécies exóticas segue regras de marcação e declaração, e fugas de répteis costumam acionar bombeiros ou serviços ambientais municipais para capturar o animal sem feri-lo e sem espalhar pânico entre vizinhos. As equipes de Cherbourg já lidam com ocorrências incomuns envolvendo esses bichos e tratam a busca como operação de resgate, não como caça a ameaça pública grave.
Historicamente, portos normandos como Cherbourg concentram tráfego marítimo e população urbana densa no extremo do Cotentin, o que explica a cobertura imediata quando um animal de quase dois metros some em área habitada.
A combinação de prédio com janelas próximas, cornijas e apartamentos vizinhos cria um labirinto vertical em que uma serpente silenciosa pode permanecer dias sem ser vista, especialmente se encontrar um ponto fresco e escuro.
Enquanto as buscas continuam, o cenário mais plausível para quem conhece o comportamento da espécie é o de Bella enrolada em algum vão do próprio edifício ou de imóveis contíguos, esperando calor residual de tubulações ou de paredes internas.
O dono mantém a esperança de reencontrá-la, e os bombeiros seguem o protocolo de inspeção paciente, sabendo que a paciência costuma render mais do que a pressa em casos de ball python urbana.
A história de Bella resume o paradoxo de criar um predador africano de quase dois metros em um apartamento europeu fresco: a mesma liberdade que permite à serpente circular entre o boa, a cobra-do-milho e o buldogue também abre a janela literal por onde ela pode sumir.
Até haver novo sinal, Cherbourg-en-Cotentin vive a espera quieta de um animal que, se seguir o padrão da espécie, provavelmente está mais perto do que o mapa da cidade sugere, escondido no escuro e no silêncio de um canto que só a escada grande e o olho treinado ainda não alcançaram.
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