
Dissertação realizada na ilha paraense mostra que a atividade pesqueira, e não o fluxo de turistas, concentra os vestígios recolhidos na areia
Antes de os turistas chegarem às praias de Algodoal, a maré já deixa uma sequência de vestígios na areia. Pedaços de corda, redes de nylon rasgadas, boias de isopor e fios aparecem na faixa litorânea e revelam a presença de uma atividade que vai muito além do movimento das férias. Esses materiais são classificados como petrechos de pesca abandonados, perdidos ou descartados, conhecidos pela sigla ALDFG, em inglês.
O tema foi investigado pela bióloga Elaine Simone da Cruz Silva Silva em uma dissertação sobre resíduos praiais na costa paraense. O estudo ocorreu na Ilha de Algodoal, no município de Maracanã, área que combina pesca artesanal, manguezais, praias e turismo frequente. A pesquisa comparou quatro praias da ilha e mostrou que os resíduos não se distribuíam de maneira uniforme. Ao todo, foram recolhidos 459 itens, com concentração muito maior em uma área próxima ao porto e às embarcações.
A praia mais movimentada não concentrou os resíduos
A comparação entre as praias de Caixa d’Água, Farol, Princesa e Cação ajudou a separar duas atividades que costumam aparecer juntas no litoral durante o verão amazônico. A Princesa, conhecida por receber mais visitantes no período de férias, foi justamente a praia com a menor quantidade de resíduos pesqueiros entre os pontos analisados. O resultado contrariou a expectativa de que o aumento do fluxo de pessoas levaria necessariamente ao maior acúmulo de materiais na areia.
Na Princesa, dois fatores ajudam a explicar a diferença observada na pesquisa. A praia não possui currais de pesca instalados, e a limpeza diária feita pela comunidade e pelos frequentadores remove parte dos resíduos antes que eles permaneçam no local. Isso não elimina a responsabilidade do turismo sobre outros tipos de lixo, mas indica que, naquele levantamento, a presença dos petrechos estava mais relacionada à dinâmica da pesca do que à quantidade de visitantes durante a temporada.
Caixa d’Água reuniu a maior parte dos 459 itens
A praia de Caixa d’Água foi o principal ponto de concentração dos materiais recolhidos. Dos 459 itens encontrados nas quatro praias, 274 estavam nessa área, que também registrou 6,35 quilos de resíduos. A localização ajuda a entender o padrão identificado: Caixa d’Água fica mais próxima do porto e das embarcações, além de reunir trechos com rochas e vegetação de mangue juvenil. O conjunto cria um cenário diferente daquele das praias mais abertas e frequentadas por banhistas.
O resultado desloca o foco da simples contagem de pessoas para a relação entre os pontos de pesca, a circulação das embarcações e a permanência dos materiais na costa. Redes, cordas, boias e fios podem ser levados pela água e acabar depositados em outras áreas, mas a maior quantidade em Caixa d’Água mostrou uma associação espacial com a atividade pesqueira local. Segundo a pesquisa, a pesca artesanal é uma fonte reconhecida desses petrechos, embora isso não retire do turismo a necessidade de reduzir seus próprios resíduos.
Uma corda carregava 364 organismos vivos
O levantamento revelou também que os petrechos não permanecem apenas como objetos inertes na faixa de maré. Ao todo, 1.543 organismos vivos foram encontrados colonizando os materiais recolhidos em Algodoal. Cracas apareceram com maior frequência, mas o conjunto também incluía bivalves, caranguejos, poliquetas, anêmonas e outros grupos. Os animais utilizavam as superfícies disponíveis, especialmente cordas e estruturas que permaneciam em contato com a água.
O caso mais concentrado ocorreu em uma única corda recolhida na linha de maré baixa da praia do Cação. Ela abrigava 364 animais pertencentes a sete grupos diferentes. O dado mostra como um petrecho perdido pode se transformar em superfície de fixação para organismos marinhos e costeiros. A descoberta amplia a leitura do problema, porque o resíduo passa a fazer parte de uma interação biológica que não existia quando a corda ainda era um equipamento usado na pesca.
O resíduo passa a cumprir outra função no ambiente
A colonização dos petrechos indica que os materiais oferecem uma estrutura onde organismos podem se prender, crescer ou permanecer durante parte do ciclo de maré. Essa função é diferente daquela para a qual cordas, redes e boias foram fabricadas. O equipamento deixa de ser apenas um vestígio da pesca e passa a atuar como uma superfície disponível no ambiente. A presença de cracas e outros animais evidencia essa mudança, registrada diretamente pela coleta dos materiais nas praias estudadas.
O significado ecológico desse processo, porém, não pode ser reduzido a uma classificação simples entre benefício e prejuízo. Os organismos encontrados mostram que existe colonização, mas o levantamento não transforma essa observação em uma avaliação definitiva sobre o efeito dos petrechos no ecossistema. A própria pesquisadora trata a questão com cautela. O mesmo material que oferece uma superfície pode permanecer associado a uma atividade humana e circular pela costa, razão pela qual sua presença precisa ser considerada na gestão dos resíduos pesqueiros.
Os dados reposicionam a discussão sobre o verão
O verão amazônico torna as praias paraenses mais movimentadas, sobretudo em julho, durante as férias escolares. Em Algodoal, essa presença sazonal divide espaço com uma tradição pesqueira que faz parte da economia e da rotina da ilha. A pesquisa mostra que o aumento de visitantes não explica, sozinho, a distribuição dos resíduos encontrados. A praia mais turística teve menos petrechos, enquanto a área mais próxima do porto concentrou 274 dos 459 itens recolhidos.
Essa diferença não autoriza a pesca artesanal a ser tratada como única responsável por todo o lixo costeiro, nem transforma a limpeza comunitária em solução permanente. O que os dados fazem é indicar uma origem predominante para o tipo específico de resíduo analisado. Ao identificar a atividade pesqueira como principal fonte dos petrechos abandonados, perdidos ou descartados, o estudo ajuda a direcionar medidas de prevenção para os locais e equipamentos ligados à pesca, sem apagar os impactos de outras atividades.
Algodoal revela uma questão que continua aberta
Realizada na Ilha de Algodoal e divulgada em 18 de julho de 2026, a pesquisa de Elaine Simone da Cruz Silva Silva reuniu evidências em quatro praias da costa paraense. Os 459 petrechos recolhidos, os 6,35 quilos registrados em Caixa d’Água e os 1.543 organismos vivos encontrados nos materiais formam um retrato concreto da relação entre pesca, maré e resíduos. A corda com 364 animais de sete grupos foi o exemplo mais expressivo dessa transformação observada no campo.
A consequência mais importante está na mudança de perspectiva: limpar a areia é necessário, mas compreender a origem dos petrechos é o que permite agir antes que eles cheguem à praia e sejam colonizados. Algodoal mostra que um pedaço de corda pode carregar a marca de uma atividade econômica, a força da maré e uma comunidade de organismos ao mesmo tempo. A paisagem costeira, nesse caso, não registra apenas o que foi deixado para trás, mas também o que começa a viver sobre esse vestígio.
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