Piau-gordura (Leporinus piau) migra, come de tudo e se reproduz na estação chuvosa no semiárido

Piau raspa algas em troncos submersos, sobe o rio em cardume e troca as listras ao crescer
Ilustração: Revista Amazônia

O piau-gordura (Leporinus piau) é um peixe migrador dos rios e açudes do semiárido brasileiro, de dieta variada e reprodução ligada à estação chuvosa.

Piau é nome de vários peixes: este é o Leporinus piau

No Brasil, o nome piau é usado para diferentes peixes da família Anostomidae, e por isso nem toda informação sobre um piau vale para outro. O Leporinus piau foi descrito em 1941 por Fowler, em uma coleção de peixes de água doce do leste do Brasil reunida por Rodolpho von Ihering e publicada nos Proceedings of the Academy of Natural Sciences of Philadelphia. Os nomes populares registrados para a espécie são piau, piau-gordura e piau-verdadeiro.

Um resumo de congresso da Embrapa descreve o animal como um peixe de médio porte, de corpo alto, com três manchas alongadas na horizontal nos flancos. A espécie está amplamente distribuída nas bacias do semiárido, como a do rio São Francisco, a do Parnaíba e reservatórios do Rio Grande do Norte e da Paraíba, e tem importância na pesca artesanal e esportiva, como destacam Araújo e colegas em estudo de 2016 na Revista de Biología Tropical.

Uma dieta que muda com o que o açude oferece

Estudos de alimentação em reservatórios do semiárido mostram um peixe de dieta flexível. No reservatório de Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, o piau foi classificado como onívoro e modificou o que comia conforme a disponibilidade de alimento, tanto de um local para outro quanto ao longo das estações. Os autores registraram o consumo de moluscos retirados do sedimento e de material vegetal, o que indica que a espécie procura alimento tanto no fundo quanto na superfície da água.

No açude Taperoá II, na Paraíba, a dieta também foi variada, o que levou os pesquisadores a falar em onivoria e oportunismo. A literatura não é unânime: há trabalhos que classificam a espécie como herbívora, o que reforça que a dieta depende do ambiente e da época do ano. Em resumo, o piau não é um especialista em um único recurso, e essa plasticidade é uma das razões de sua presença em açudes com condições tão diferentes.

Reproduzir na época das chuvas

A reprodução do piau acompanha o regime de chuvas. No reservatório de Pau dos Ferros, no semiárido potiguar, Araújo e colegas coletaram 549 peixes com redes de espera, em amostragens trimestrais de fevereiro de 2011 a novembro de 2012. Dos 230 indivíduos cujo sexo foi determinado, 148 eram machos e 82 eram fêmeas, uma proporção de 1,81 macho para cada fêmea, estatisticamente significativa. O comprimento de primeira maturação foi estimado em 12,76 centímetros.

A reprodução se concentrou na estação chuvosa, de fevereiro a maio, e o índice gonadossomático, que mede o peso das gônadas em relação ao do corpo, teve correlação positiva e significativa com a chuva. A captura por unidade de esforço variou de 0,0259 indivíduos por metro quadrado por hora, em maio de 2011, a 0,0008, em agosto de 2012. Os autores concluíram que a população está estabelecida no reservatório e que a reprodução se concentra no período chuvoso.

No rio São Francisco, o quadro é parecido. Nascimento e colegas, em artigo de 2020 na revista Neotropical Ichthyology, compararam 573 peixes de dois trechos da bacia, 364 do reservatório de Três Marias, um ambiente de águas paradas, e 209 de um trecho de rio corrente a jusante. A espécie se reproduz nos dois trechos, tem desova parcial com período prolongado e prefere o ambiente de águas paradas: os peixes do reservatório eram maiores e mais pesados e tinham índice gonadossomático mais alto. Os picos de maturação ocorreram em novembro e abril no reservatório e em novembro e dezembro a jusante, associados a temperatura e chuva elevadas.

Os machos amadurecem com tamanho menor que as fêmeas. Os menores machos maduros mediram 19,8 centímetros de comprimento total no reservatório e 17,3 centímetros no rio; as menores fêmeas maduras, 22,6 e 18,6 centímetros. Os ovos, segundo estudo de desova induzida em peixes do São Francisco publicado na revista Ciência Animal Brasileira em 2009, são livres, demersais, esféricos, opacos e de cor cinza ou parda.

Migrador em rios barrados

O piau é considerado uma espécie migradora, e isso o torna sensível a barramentos. Os autores do estudo de Pau dos Ferros lembram que a construção de reservatórios pode interromper rotas migratórias e reduzir ou eliminar áreas de desova e de alimentação. Uma tese de doutorado da Universidade Federal do Ceará, defendida em 2018, usou o rio Parnaíba e o piau para avaliar os efeitos de barragens, e destaca que o Parnaíba tem uma única barragem, a cerca de 560 quilômetros das nascentes.

Na bacia do São Francisco, o piau-gordura também é importante como peixe forrageiro e na pesca, segundo estudo de sua reprodução no reservatório de Três Marias. Conhecer quando e onde ele se reproduz ajuda a definir períodos de defeso, manejo de reservatórios e programas de repovoamento. O que os estudos mostram, em conjunto, é um peixe de ciclo ajustado à chuva, de alimentação flexível e dependente de rios e açudes que mantenham condições para desova e crescimento.

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