
Projeto em Goiás trata água residual, reaproveita nutrientes e mantém áreas de pastagem produtivas durante a seca.
Desde 2018, a Marajoara Laticínios mantém, em Hidrolândia, Goiás, um projeto que trata efluentes industriais e reaproveita água e nutrientes na irrigação e adubação de pastagens de produtores rurais locais. A iniciativa utiliza uma estação de tratamento de efluentes instalada no parque fabril, purifica a água em mais de 90% por meio da flotação de ar dissolvido e direciona o material orgânico separado para áreas rurais, sobretudo durante os períodos de seca.
A proposta combina duas pressões que normalmente aparecem separadas no debate ambiental: o consumo de água pela indústria e a dificuldade de manter a alimentação do gado em períodos de estiagem. Em vez de tratar o efluente apenas como um resíduo a ser descartado, a empresa passou a utilizá-lo como parte de um sistema de produção que envolve indústria, propriedades rurais e recuperação de nutrientes.
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Poluição nos oceanos revela mistura de fármacos e plásticosO projeto também expõe uma questão mais ampla. O Brasil concentra uma das maiores reservas de água doce do planeta, mas a abundância relativa não elimina perdas, desigualdades regionais ou riscos de escassez. O texto-base cita dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento segundo os quais o país desperdiçou cerca de 7 bilhões de metros cúbicos de água em 2022. A comparação apresentada na fonte sobre o número de pessoas que poderiam ser atendidas com esse volume precisa ser revisada, pois o cálculo publicado, de 124 mil pessoas, não corresponde à divisão por um consumo médio de 154 litros por habitante ao dia.
Como funciona o tratamento dos efluentes
Segundo Vinícius Junqueira, diretor-geral da Marajoara Laticínios, o tratamento ocorre por flotação de ar dissolvido, conhecida pela sigla FAD. O método promove a separação entre a água e as impurezas presentes no efluente industrial. De acordo com o executivo, a água alcança um nível de purificação superior a 90%, percentual que, segundo a empresa, fica acima do exigido pela legislação ambiental.
“Nesse processo a água é purificada a um nível superior a 90%, bem acima do que exige a legislação ambiental. Dessa separação entre a água e as impurezas, é gerada uma biomassa orgânica rica em nutrientes importantes para o solo”, explica Vinícius Junqueira, diretor-geral da Marajoara Laticínios.
A biomassa, que antes era encaminhada para uma fazenda de compostagem, passou a ser distribuída em pastos de produtores cadastrados pela empresa. O transporte é feito por caminhões-pipa. A mudança ocorreu depois de estudos que, conforme o relato da Marajoara, indicaram o potencial do material como adubo orgânico.
O ponto central do projeto é evitar que o tratamento termine na retirada das impurezas. A água recebe tratamento e volta a ser utilizada, enquanto a fração orgânica pode retornar ao solo na forma de nutrientes. Essa lógica reduz a dependência de água nova para a irrigação e cria uma destinação produtiva para parte dos resíduos gerados pela indústria de laticínios.
Pastagem irrigada durante a estiagem
Depois de passar pela estação de tratamento, a água é conduzida por tubulação até um pasto destinado à criação de gado de corte. A área fica a aproximadamente um quilômetro do parque fabril e conta com cerca de 600 aspersores. O sistema mantém a pastagem verde mesmo quando a chuva deixa de ser suficiente para sustentar o crescimento das forrageiras.
Durante a seca, a empresa informa que o sistema pode lançar, em média, 75 mil litros de água por hora, em ciclos de 12 horas. O volume total reaproveitado é informado como 1 milhão de litros. Como os números dependem da duração dos ciclos e da operação do sistema, a relação exata entre a vazão horária, o período de funcionamento e o volume total deve ser [CHECAR] antes da publicação de dados técnicos definitivos.
Após irrigar o pasto, a água é absorvida pelo solo e, conforme a descrição do projeto, retorna ao lençol freático. O processo é apresentado pela empresa como um ciclo de reaproveitamento hídrico. Ainda assim, a segurança ambiental depende de monitoramento permanente da qualidade da água, do solo e do lençol freático, além do cumprimento das autorizações e parâmetros definidos pelos órgãos ambientais.

Entenda o caso
A indústria é apontada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico como um dos setores relevantes no consumo de água no país. O Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil citado no material indica que 40,5% da água extraída pela indústria é destinada à produção de alimentos. Nesse cenário, laticínios precisam controlar não apenas o consumo direto, mas também a carga orgânica dos efluentes.
O projeto da Marajoara foi avaliado, segundo as informações divulgadas, em estudo técnico da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás. Em 2021, a iniciativa recebeu reconhecimento nacional do Crea de Meio Ambiente, com vitória na categoria Elementos Naturais. A premiação, porém, não substitui a necessidade de dados públicos sobre volume tratado, área irrigada, número de produtores beneficiados e resultados de análises ambientais.
O que a experiência ensina para a Amazônia
A solução desenvolvida em Goiás não pode ser transferida automaticamente para todos os territórios. Na Amazônia, estados como Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso apresentam diferenças importantes de solo, regime de chuvas, infraestrutura, licenciamento e disponibilidade de áreas rurais. Em regiões de estiagem prolongada, o reúso pode ajudar a reduzir a pressão sobre mananciais, mas precisa ser adaptado às condições locais.
Também há uma diferença entre reaproveitar água tratada para fins produtivos e simplesmente lançar efluentes no ambiente. O tratamento por FAD, o controle da biomassa e a definição dos pontos de aplicação são etapas indispensáveis. Sem fiscalização, rastreabilidade e acompanhamento técnico, uma iniciativa apresentada como economia circular pode gerar contaminação do solo ou da água.
Segundo a Marajoara Laticínios, o projeto em Hidrolândia, Goiás, trata mais de 90% dos efluentes industriais e reaproveita água e biomassa orgânica na manutenção de pastagens desde 2018.
Para que a experiência tenha impacto além da propriedade atendida, os próximos passos devem incluir a divulgação de indicadores comparáveis, como volume anual de efluentes tratados, economia de água potável, produtividade do pasto e resultados das análises de solo e água.
Perguntas frequentes
O que são efluentes industriais?
São águas residuais geradas por processos industriais. Em laticínios, podem conter matéria orgânica, nutrientes e outros resíduos que precisam ser tratados antes do reúso ou do descarte.
Como a Marajoara reaproveita a água?
A água passa por uma estação de tratamento com flotação de ar dissolvido e depois é conduzida por tubulação até uma área de pastagem equipada com aspersores.
A biomassa pode ser usada como adubo?
Segundo a empresa, estudos indicaram que a biomassa separada no tratamento é rica em nutrientes e pode ser aplicada em pastos cadastrados, desde que sejam respeitados os controles técnicos e ambientais.
Com informações de Marajoara Laticínios.
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