Pontas de flecha de 80 mil anos numa caverna do Uzbequistão podem reescrever a rota dos primeiros Homo sapiens até a Europa

Pontas de flecha de 80 mil anos numa caverna do Uzbequistão podem reescrever a rota dos primeiros Homo sapiens até a Europa
Dentes e fragmento de crânio humano encontrados na gruta de Obi-Rakhmat, expostos em museu do Uzbequistão. Foto: Kenjayev Jaloliddin, via Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

No abrigo rochoso de Obi-Rakhmat, no Uzbequistão, arqueólogos identificaram pequenas pontas triangulares de pedra com marcas de impacto típicas de projéteis. Elas estão nas camadas mais antigas do sítio, com cerca de 80 mil anos. O tamanho corresponde ao de pontas de flecha pequenas, e o formato é diretamente comparável ao de peças feitas por Homo sapiens no vale do Ródano, na França, 25 mil anos depois.

O estudo foi publicado na revista científica PLOS One e reforça uma hipótese ousada: a de que os primeiros humanos modernos a chegar à Europa podem ter vindo pela Ásia Central.

Arco e flecha muito antigo

As pontas não foram retocadas, ou seja, não passaram por acabamento posterior, e foram reconhecidas pelas marcas de impacto, as fraturas que aparecem quando uma ponta atinge o alvo em alta velocidade. O tamanho reduzido é compatível com flechas lançadas por arco, uma tecnologia que permite caçar à distância com mais precisão e menos risco.

Se a interpretação estiver certa, é uma das evidências mais antigas do uso de projéteis pequenos desse tipo fora da África.

O caminho para a Europa

A história de como os humanos modernos colonizaram a Eurásia ocidental, há mais de 45 mil anos, ainda é controversa. A ligação mais aceita é com sítios do Levante, no Oriente Médio, mas a correspondência entre as datas e as tecnologias dessas regiões e das primeiras ocupações europeias não é satisfatória. Os dados do Levante vêm, em parte, de escavações antigas, e as próprias origens daquela cultura são incertas.

Por isso, a possibilidade de uma origem centro-asiática, proposta pelo arqueólogo Ludovic Slimak em 2023, ganhou atenção. A Ásia Central funcionou, conforme o clima, ora como corredor entre o leste e o oeste do continente, ora como refúgio.

Um abrigo descoberto em 1962

Obi-Rakhmat fica na ponta sudoeste da cordilheira Talassky Alatau, parte das montanhas Tian Shan. Foi descoberto em 1962 e tem uma longa sequência de ocupações. As campanhas mais recentes de escavação foram lideradas pelo arqueólogo Andrei Krivoshapkin. O sítio também forneceu dentes e fragmentos de crânio humanos.

Uma história que deixa de ser europeia

Os modelos da pré-história foram criados na Europa, especialmente na França, no século 19, e eram lineares e eurocêntricos. Só um século depois se reconheceu a origem africana do Homo sapiens. Hoje se sabe que os humanos modernos chegaram à Austrália há cerca de 65 mil anos, 10 mil anos antes das evidências mais antigas na Europa. Achados como os de Obi-Rakhmat ampliam o mapa e mostram que a Ásia pode ter tido papel central na dispersão da nossa espécie.

Perguntas frequentes

Quando surgiu o arco e flecha?

Ainda não há data exata. As pontas de Obi-Rakhmat, de 80 mil anos, estão entre as evidências mais antigas de projéteis pequenos fora da África.

Como os humanos chegaram à Europa?

A rota mais aceita passa pelo Oriente Médio, mas estudos como este sugerem que a Ásia Central também pode ter sido um caminho.

Com informações do estudo publicado na PLOS One.

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