Proteger a floresta em pé rende mais que restaurar, mostra estudo

Incêndio queima o interior de floresta primária na Floresta Nacional do Tapajós

Pesquisa publicada na revista Science comparou estratégias de conservação em mais de três milhões de hectares no Pará e concluiu que evitar incêndios e exploração madeireira é o investimento com maior retorno para a biodiversidade e para o carbono.

Fotos: Marizilda Cruppe / Lancaster University, Jos Barlow / Lancaster University e Alexander Lees / Manchester Metropolitan University

Evitar que a floresta ainda de pé seja queimada ou explorada por madeireiros entrega mais biodiversidade e mais carbono por recurso investido do que plantar floresta nova em área já desmatada. A conclusão é de um estudo publicado em 17 de setembro na revista Science por pesquisadores do Reino Unido, do Brasil, da Suécia e da Austrália, sob liderança da Universidade de Lancaster.

A análise cobriu mais de três milhões de hectares nas regiões de Santarém e Paragominas, no Pará, entre 2010 e 2020. Os pesquisadores cruzaram imagens de satélite de alta resolução com dados de campo de 381 transectos distribuídos em 38 microbacias e 499 propriedades rurais, além de modelos que mapearam a distribuição de 160 espécies de aves e 426 espécies de árvores. É a primeira comparação sistemática entre as diferentes formas de proteger florestas existentes e de restaurá-las em terras agrícolas.

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Choquinha-miúda (Myrmotherula brachyura) registrada na região de Santarém, onde vive no estrato médio e no sub-dossel da floresta primária. A espécie está entre as 160 aves usadas para modelar o valor de biodiversidade.
Choquinha-miúda (Myrmotherula brachyura) registrada na região de Santarém, onde vive no estrato médio e no sub-dossel da floresta primária. A espécie está entre as 160 aves usadas para modelar o valor de biodiversidade. Foto: Alexander Lees / Manchester Metropolitan University

A partir das mudanças de uso do solo efetivamente registradas no período, a equipe montou cenários contrafactuais, que simulam o que teria acontecido com a biodiversidade e com os estoques de carbono caso cada estratégia tivesse sido aplicada. O custo de cada intervenção também foi estimado, o que permitiu comparar, dentro de um mesmo quadro, o benefício obtido por recurso aplicado.

Evitar a degradação florestal, ou seja, impedir incêndios e exploração seletiva de madeira, foi a estratégia que gerou os maiores ganhos para a biodiversidade. Para os estoques de carbono, teve peso quase igual ao de evitar o desmatamento.

“Nenhuma estratégia isolada é uma bala de prata, mas nossos resultados dão evidência clara de que devemos começar priorizando as florestas que ainda temos”, afirma Leonardo Miranda, da Universidade de Lancaster e autor principal do estudo. “E a proteção precisa ir além de evitar o desmatamento. Evitar as perturbações causadas por incêndios ou pela exploração madeireira entregou os maiores benefícios para a biodiversidade florestal.”

Para Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster e autor sênior, os resultados apontam a necessidade de políticas e de recursos para prevenir e enfrentar os incêndios que degradam as florestas tropicais. “Isso é ainda mais urgente neste ano de El Niño”, diz. “Esses eventos, combinados com a mudança climática, resultam em estações secas mais longas, quentes e intensas no arco do desmatamento da Amazônia, o que aumenta muito a extensão e a severidade dos incêndios florestais.”

Trecho de floresta submetido à exploração seletiva de madeira na região do Jari, no Pará, com sub-bosque alterado e árvores remanescentes de menor porte.
Trecho de floresta submetido à exploração seletiva de madeira na região do Jari, no Pará, com sub-bosque alterado e árvores remanescentes de menor porte. Foto: Jos Barlow / Lancaster University

A restauração também trouxe benefícios relevantes, sobretudo em propriedades onde a maior parte da floresta original já havia sido derrubada. No conjunto da área estudada, porém, restaurar terras agrícolas mostrou-se menos eficaz quando aplicada sozinha e saiu como a estratégia mais cara. Os autores concluem que os recursos de conservação precisam ser direcionados segundo as condições de cada paisagem.

Nenhuma intervenção isolada bastou para reverter as perdas de biodiversidade e de carbono em toda a área analisada. Ganhos líquidos só apareceram quando as duas frentes de prevenção foram adotadas juntas, evitar o desmatamento e evitar a degradação. “Combinar as três intervenções entregou ganhos ainda maiores”, diz Miranda. “Intervenções combinadas serão ainda mais importantes conforme a mudança climática avança, especialmente porque a floresta em restauração é particularmente vulnerável ao fogo.”

O achado chega em um momento em que a restauração florestal ganha espaço em compromissos internacionais e em políticas federais e estaduais brasileiras.

“Restauração é essencial onde as florestas foram perdidas em grandes áreas. Mas nosso estudo mostra que investir em florestas novas faz pouco sentido se, ao mesmo tempo, falhamos em proteger as florestas existentes”, avalia a coautora Joice Ferreira, pesquisadora sênior da Embrapa e coordenadora do programa de pesquisa Capoeira, dedicado à restauração. “Caso contrário, estamos despejando dinheiro em um pote furado, restaurando florestas em um lugar enquanto outras são degradadas e perdidas. O que precisamos com urgência é integrar essas agendas de política pública, garantindo que a restauração caminhe junto com a proteção das florestas que ainda temos.”

O estudo também cobra a cadeia produtiva. “É preciso que as empresas e os mercados que se beneficiam de commodities negociadas nacional e globalmente, como soja e carne, assumam responsabilidade não apenas pelo desmatamento, mas também pela degradação das florestas remanescentes, que está indissociavelmente ligada a esses sistemas de produção”, afirma o coautor Toby Gardner, pesquisador sênior do Stockholm Environment Institute e cofundador da Trase, iniciativa de rastreamento de sustentabilidade em cadeias de suprimento.

Embora o recorte seja paraense, os pesquisadores consideram que as conclusões valem para outras fronteiras de desmatamento tropical no mundo e têm relevância para políticas públicas fora dos trópicos. O trabalho foi articulado pela Rede Amazônia Sustentável e financiado, entre outras fontes, pelo Global Centre on Biodiversity for Climate, do Reino Unido, e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

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