Fotos de cogumelos postadas num grupo de rede social levaram à descoberta de quatro espécies novas na Amazônia de Mato Grosso

Fotos de cogumelos postadas num grupo de rede social levaram à descoberta de quatro espécies novas na Amazônia de Mato Grosso
Cogumelo do gênero Hygrocybe, o mesmo das quatro espécies novas descritas na Amazônia. Foto: Alan Rockefeller, via Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0.

Tudo começou com fotos. Todos os anos, a alemã Susanne Sourell visitava a região do rio Cristalino, no norte de Mato Grosso, e compartilhava imagens de cogumelos num grupo dedicado ao tema numa rede social. Sem vínculo com universidade, ela reconhecia e registrava em campo espécies que chamavam a atenção. Os comentários se repetiam: nunca vi, espécie nova. Uma das pessoas que viu as imagens foi a micóloga Juli Simon Cardoso, especialista justamente no gênero daqueles cogumelos. A conversa terminou na descrição de quatro espécies novas para a ciência.

O trabalho foi publicado em agosto de 2026 na revista científica Phytotaxa. As quatro espécies pertencem ao gênero Hygrocybe e foram encontradas nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural Cristalino, na Amazônia meridional.

Quem descobriu

Juli Simon Cardoso é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos, Algas e Plantas da Universidade Federal de Santa Catarina e fez mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa. Ela pesquisa a diversidade de cogumelos amazônicos e participa de iniciativas para identificar e catalogar espécies novas.

Susanne Sourell atuou como parataxonomista, nome dado a pessoas sem formação acadêmica na área que ajudam na coleta e na identificação de espécies. As duas coletaram os cogumelos juntas, entre 2018 e 2019, em trilhas de floresta de terra firme nos municípios de Alta Floresta e Novo Mundo, perto do Parque Estadual Cristalino.

Como se confirma uma espécie nova

Para ter certeza de que os fungos eram diferentes dos já conhecidos, as pesquisadoras examinaram as características visíveis, as estruturas microscópicas e o material genético. Segundo Juli, a lógica do DNA é simples: um pedacinho do material genético é comparado com o de fungos parecidos. Se for muito semelhante, é a mesma espécie; se houver diferenças suficientes, pode ser uma espécie nova.

As quatro espécies

  • Hygrocybe cristalinoensis: verde no corpo inteiro, com a borda do chapéu branca e franjada. O nome homenageia as reservas e o rio Cristalino.
  • Hygrocybe viridilacerata: também verde, mas o centro do chapéu se abre ao amadurecer e fica rasgado, lembrando uma estrela. O nome junta os termos em latim para verde e rasgada.
  • Hygrocybe pegleri: tem o pé mais comprido das quatro, com mais de 10 centímetros.
  • Hygrocybe vinaceosquamulosa: de tons que vão ao rosado e vinho, com pequenas escamas no chapéu.

Cogumelos que parecem de cera

O gênero Hygrocybe reúne cogumelos conhecidos em vários lugares como cogumelos-de-cera, por causa da superfície brilhante e muitas vezes viscosa. Eles costumam ter cores vivas, do vermelho e laranja ao amarelo e verde, e fazem sucesso entre fotógrafos de natureza. Muitos são pequenos e frágeis e aparecem só por poucos dias depois das chuvas, o que torna a observação em campo essencial para descobri-los.

Fungos que mantêm a floresta viva

Muita gente vê os cogumelos só como curiosidade, mas os fungos são peças essenciais da floresta. Eles decompõem folhas, troncos e animais mortos e devolvem nutrientes ao solo. Muitos formam associações com as raízes das árvores, ajudando as plantas a absorver água e minerais em troca de açúcares. Sem fungos, a floresta amazônica, que cresce sobre solos pobres, não conseguiria reciclar os nutrientes com a eficiência que mantém sua exuberância.

Uma região-chave contra o desmatamento

As reservas do Cristalino ficam numa área que mantém conexão com outras unidades de conservação e territórios indígenas. Para a pesquisadora, é uma das regiões mais importantes para a conservação na Amazônia meridional, funcionando como barreira ao avanço do chamado Arco do Desmatamento, faixa que concentra a maior parte da derrubada da floresta.

Ciência com participação de todos

O caso mostra o valor da chamada ciência cidadã. Fotos feitas por observadores atentos e compartilhadas na internet podem chegar a especialistas e virar descobertas. No Brasil, plataformas e grupos de observação de fungos, aves, insetos e plantas já ajudaram a registrar espécies raras e a ampliar a área de ocorrência de muitas outras. Estima-se que a maior parte dos fungos do planeta ainda não tenha nome, e a Amazônia está entre os lugares com mais espécies esperando para ser descritas.

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