Rãs fêmeas recebem 2, 4 ou 8 chamados para escolher parceiro e perdem precisão quando há excesso

Rãs fêmeas recebem 2, 4 ou 8 chamados para escolher parceiro e perdem precisão quando há excesso
Foto: Divulgação

Experimento com rãs arborícolas mostra que muitas opções podem atrasar a decisão e aumentar riscos durante o acasalamento.

Escolher um parceiro pode ficar mais difícil quando a lagoa se transforma em um coro. Foi o que aconteceu com rãs fêmeas colocadas diante de dois, quatro ou oito chamados de machos: quanto maior o número de opções, menor foi a capacidade de identificar o chamado considerado mais atraente. O resultado foi descrito em um estudo publicado em 12 de agosto de 2026 na revista iScience, com 60 rãs-arborícolas-de-Cope capturadas em lagoas próximas a Knoxville, nos Estados Unidos.

A espécie estudada, Hyla chrysoscelis, não escolhe o parceiro pela aparência. Em vez disso, a fêmea compara os sons emitidos pelos machos. Em algumas espécies de rãs arborícolas, chamados mais longos estão relacionados a melhores chances de sobrevivência para os filhotes, o que transforma a escolha em uma etapa importante da reprodução.

Quando o coro fica grande demais

Os pesquisadores levaram cada fêmea para o centro de uma câmara acústica. Ao redor dela, alto-falantes reproduziam os chamados dos possíveis parceiros. Em cada teste, apenas uma gravação correspondia ao chamado longo considerado ideal. As demais representavam opções menos desejáveis para a fêmea.

A diferença apareceu com clareza em mais de cem testes. Quando ouviam apenas dois chamados, mais de 75% das rãs se deslocavam em direção ao som mais longo. Com quatro opções, essa proporção caiu para aproximadamente 50%. Quando o número subiu para oito chamados, somente 20% fizeram a mesma escolha.

Segundo os pesquisadores, as fêmeas de Hyla chrysoscelis escolheram o chamado mais longo em mais de 75% dos testes com duas opções, mas em apenas 20% daqueles com oito opções, em Knoxville, nos Estados Unidos, em estudo publicado em 2026.

Mais alternativas também significaram mais demora

O excesso de sons não afetou apenas a precisão. As rãs também levaram mais tempo para tomar uma decisão. Em alguns casos, a demora para se mover em direção a um alto-falante chegou a um minuto e meio a mais quando havia muitas opções.

Outras fêmeas simplesmente não escolheram. Nos testes com dois chamados, 3% das rãs permaneceram paradas até o fim da avaliação. Entre aquelas expostas a oito chamados, o índice subiu para 17%.

Esse padrão é conhecido na psicologia humana como sobrecarga de escolha. A ideia é que um número maior de alternativas, em vez de facilitar a decisão, pode provocar hesitação, adiamento ou escolhas menos adequadas. O estudo indica que um efeito parecido pode ocorrer em animais, mesmo quando a decisão está ligada a uma necessidade biológica tão importante quanto a reprodução.

O risco escondido na espera

Para uma rã em uma lagoa, ficar parada por mais tempo não é uma atitude neutra. O período de acasalamento pode expor as fêmeas a predadores que circulam nas margens ou observam a movimentação na água e na vegetação.

Por isso, a dificuldade de escolher pode produzir dois efeitos ao mesmo tempo. A fêmea pode acabar aceitando um macho com um chamado menos vantajoso ou pode não escolher ninguém dentro do tempo disponível. Em ambas as situações, o excesso de opções interfere no resultado da reprodução.

A bióloga comportamental Jessie Tanner, da Universidade do Tennessee, em Knoxville, avaliou que esse mecanismo pode ajudar a explicar por que machos com chamados abaixo do padrão ainda conseguem participar do conjunto de genes da população. Quando a fêmea não consegue comparar os pretendentes com a mesma precisão, a vantagem dos chamados mais longos diminui.

Uma espécie de ruído na decisão

Os autores separaram a sobrecarga de escolha de outro problema já conhecido em estudos com animais: a dificuldade de ouvir um sinal quando muitos sons se misturam. Nesse caso, a questão não seria apenas o volume ou a interferência acústica, mas o número de alternativas que precisam ser avaliadas individualmente.

Essa distinção é importante porque uma lagoa com muitos machos vocalizando não representa somente um ambiente barulhento. Ela também cria um cenário com várias informações concorrentes. A fêmea precisa localizar os sons, compará-los e decidir para qual direção se mover, tudo isso enquanto permanece exposta a ameaças.

O resultado não significa que as rãs deixem de ter preferência. Elas continuaram demonstrando maior interesse pelo chamado longo em parte dos testes. O que muda é a eficiência da escolha quando a quantidade de candidatos cresce.

O que a descoberta ajuda a observar na Amazônia

A pesquisa foi feita nos Estados Unidos e não testou espécies amazônicas. Ainda assim, o mecanismo interessa diretamente a quem acompanha a fauna de ambientes de água doce na Amazônia, onde rãs e pererecas também usam vocalizações para localizar parceiros em noites de reprodução.

Em áreas do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, alterações na vegetação ao redor de igarapés, poças e áreas alagadas podem modificar a forma como os sons se espalham. Trânsito, máquinas, obras e ocupação das margens também podem acrescentar ruído ao ambiente. O estudo não permite afirmar que esses fatores produzam o mesmo efeito nas espécies brasileiras, mas oferece uma pergunta útil para futuras pesquisas: além de ouvir menos, os animais podem ter mais dificuldade para comparar chamados?

Essa diferença ajuda a evitar uma conclusão apressada. Um ambiente com muitos sons de rãs não é automaticamente um ambiente degradado. Em muitos casos, um coro intenso indica atividade reprodutiva. O alerta está em entender como a combinação entre número de chamados, ruído externo, presença de predadores e estrutura da vegetação interfere na decisão das fêmeas.

Uma pista sobre escolhas que parecem simples

O trabalho também amplia a forma de interpretar o comportamento animal. Escolher um parceiro não depende apenas de reconhecer o melhor sinal. A quantidade de candidatos disponíveis pode alterar o desempenho da própria escolha.

Para a conservação de anfíbios, essa informação pode ser útil porque muitas espécies enfrentam mudanças simultâneas no habitat, na qualidade da água e na paisagem sonora. Estudos futuros ainda precisarão verificar se o mesmo padrão aparece em outras espécies, em lagoas naturais e em condições com predadores reais.

Os próximos passos devem comparar diferentes ambientes e espécies para descobrir quando a abundância de chamados favorece a reprodução e quando passa a atrapalhar a decisão.

Com informações de Science News.

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