Pacífico e Atlântico avisam calor extremo na Amazônia até sete meses antes

Capa da edição 158 da Revista Amazônia com barco encalhado na praia do Maracanã, em Santarém, durante a seca de 2023
Edição 158 da Revista Amazônia. Foto da capa: Judison Godinho de Sousa

O calor extremo que castiga a Amazônia entre março e maio costuma ser anunciado pelo oceano com até sete meses de antecedência. Quando as águas do Pacífico equatorial esquentam, na fase de El Niño, ou quando partes do Atlântico tropical ficam mais quentes que o normal, cresce a chance de a bacia registrar, meses depois, temperaturas no topo da escala histórica. O estudo que chegou a essa conclusão, com dados de 1950 a 2023 e participação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), é a reportagem de capa da edição 158 da Revista Amazônia.

A edição gira em torno de uma pergunta que deixou de ser teórica para quem mora na região: dá para se preparar para um clima que não para de mudar? As respostas vêm de oceanógrafos que refazem o cálculo das marés, de físicos que medem o dia em milissegundos, de pesquisadores brasileiros que mapearam onde restaurar ecossistemas rende mais, de cientistas que acompanham as frutas nativas no prato das escolas do Pará e de quem estuda por que as mangueiras de Belém caem a cada temporal. São 16 reportagens, todas com leitura gratuita no celular ou em PDF.

O oceano avisa antes: Pacífico e Atlântico antecipam o calor extremo na Amazônia

O estudo de capa foi publicado em 27 de agosto na revista Earth’s Future, da União Americana de Geofísica (AGU). Reúne cinco pesquisadores do Centro de Excelência para o Tempo do Século 21, financiado pelo Conselho Australiano de Pesquisa (ARC), com vínculos na Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW), na Universidade Nacional Australiana e na Universidade de Melbourne, e o pesquisador Lincoln Muniz Alves, do Inpe. A autora principal é a cientista Sanaa Hobeichi, da UNSW.

A equipe dividiu a bacia em seis regiões de clima semelhante e comparou a temperatura e a chuva mensais de 1950 a 2023 com quatro indicadores do clima global: a temperatura da superfície do mar no Pacífico central, na área chamada Niño 3.4, no Atlântico Norte tropical e no Atlântico Sul tropical, além da Oscilação do Atlântico Norte (NAO), um padrão de pressão atmosférica. Cada indicador foi medido no mesmo mês e em até sete meses antes da estação analisada, o que somou 1.536 relações testadas.

Na maior parte dos casos, a resposta foi sim para o calor. Fases positivas do El Niño e do Atlântico tropical elevaram a probabilidade de calor extremo, e o sinal mais persistente surgiu entre março e maio. A NAO não mostrou relação significativa com a temperatura em nenhuma região ou estação. Com a chuva, a história é outra: a ligação foi fraca e aparece só em pontos isolados. “É bastante surpreendente que os extremos de calor estejam ligados a condições nos oceanos Pacífico e Atlântico tropical observadas com até sete meses de antecedência”, afirma a professora associada Andréa Taschetto, da UNSW, coautora do artigo.

Na segunda etapa, os pesquisadores treinaram modelos de aprendizado de máquina do tipo floresta aleatória com 4.096 combinações dos quatro índices para prever os meses em que calor extremo e seca acontecem juntos. Os melhores resultados vieram da região central, ao sul do equador, de março a maio, com 81% das combinações aprovadas, e do norte da bacia, de dezembro a fevereiro, com 79%. Junho a agosto foi o pior período. Os autores ressalvam que os melhores modelos quase sempre usavam um índice medido no próprio mês do evento. A relação de sete meses é um sinal precursor, não a prova de que calor com seca já possa ser previsto com essa folga.

Para o Pará, o mapa interessa em dobro. O norte do estado, de Belém a Santarém e Óbidos, fica na região leste equatorial, a mais quente da bacia, com média de 27,4 °C entre setembro e novembro, e ali o índice do Pacífico foi o preditor mais importante em todas as estações. O sul e o sudeste paraense, de Itaituba a Marabá, ficam na região central, onde o aviso de março a maio teve o melhor desempenho de toda a análise. A seca de 2023 mostra o que está em jogo: a bacia teve anomalias de 1,8 °C em agosto, 2,2 °C em setembro e 2,7 °C em outubro, e o rio Amazonas em Óbidos atingiu em novembro a menor cota já registrada, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB). A foto da capa, de Judison Godinho de Sousa, mostra um barco encalhado na praia do Maracanã, em Santarém, em 14 de outubro de 2023.

Não haverá um novo normal no clima, e adaptar-se é urgente

A reportagem que abre a edição parte de um número. O mundo emitiu em 2025 um recorde de 38,1 bilhões de toneladas de dióxido de carbono com a queima de combustíveis fósseis, alta de 1,1% sobre o ano anterior, segundo o Orçamento Global de Carbono. O que resta de margem para segurar o aquecimento em 1,5 °C, 170 bilhões de toneladas, equivale a cerca de quatro anos de emissões no ritmo atual. “Com as emissões de CO2 ainda em alta, manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C não é mais plausível”, afirma Pierre Friedlingstein, da Universidade de Exeter, que coordena o levantamento.

Três pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, James Hopeward, Melissa Nursey-Bray e Andrew Lowe, sustentam em artigo de 8 de outubro que é inútil esperar que o clima se acomode em um “novo normal”. “Ultrapassar o limite de 1,5 °C não é como passar de um estado para outro”, escrevem. Como as emissões ainda não atingiram o pico, haverá mais calor, mais mudança e mais incerteza, com extremos novos e combinações novas, como a passagem brusca da seca para a enchente e os pirocumulonimbos, nuvens de tempestade formadas pelo calor de grandes incêndios.

O sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) dá a medida. Um pico de calor que entre 1850 e 1900 acontecia uma vez a cada 10 anos já ocorre 2,8 vezes mais. A 1,5 °C, passa a ocorrer 4,1 vezes mais; a 2 °C, 5,6 vezes; a 4 °C, 9,4 vezes. Para o calor extremo que vinha uma vez a cada 50 anos, o aumento a 4 °C chega a 39 vezes. As chuvas mais intensas de um dia ficam cerca de 7% mais fortes a cada grau de aquecimento.

A Amazônia viveu esse salto em dois anos seguidos. Em outubro de 2023, o rio Negro desceu a 12,70 metros no porto de Manaus, o nível mais baixo da série histórica. O recorde durou um ano: em outubro de 2024, o rio ficou pouco acima dos 12 metros, o menor nível em mais de 120 anos de medições. Belém, por sua vez, começou a montar em julho deste ano, com representantes de 35 órgãos municipais, estaduais e federais, o Plano Municipal de Enfrentamento ao Super El Niño 2026-2027 e um protocolo de alerta para calor extremo, com cuidado prioritário para idosos, crianças, gestantes, ribeirinhos e pessoas em situação de rua.

Os pesquisadores australianos rejeitam a escolha entre cortar emissões e se adaptar. “É um erro focar apenas em reduzir emissões ou apenas em se adaptar a um mundo mais quente: precisamos das duas coisas”, escrevem. A condição, concluem, é largar a ideia de normalidade. “Não podemos mais olhar para o passado para prever o clima futuro.”

O aquecimento acelera em ondas, e a indústria limpa não dá conta sozinha

Um estudo publicado em setembro na Nature Communications mapeou onde e quando o aquecimento da superfície do planeta acelerou desde 1970. No sudeste do México, a temperatura média passou a subir cerca de dez vezes mais rápido depois de 2012. No sudeste da China, o ritmo quintuplicou a partir de 2013. O único ponto da América do Sul na lista é o leste da Bolívia, onde a taxa saltou de 0,016 °C para 0,093 °C por ano depois de 2014, o equivalente a quase 1 °C por década.

O trabalho é liderado por Claudie Beaulieu, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, com pesquisadores da Universidade Clemson e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). O grupo usou cinco bases de dados de temperatura e encontrou mudanças detectáveis no ritmo de aquecimento em 4% a 10% das células analisadas. “Nosso estudo mostra que as acelerações regionais surgiram em ondas distintas, com inícios que vão dos anos 1980 aos anos 2010, dependendo da área geográfica”, disse Beaulieu. Os autores ressalvam que o sinal boliviano é o mais difícil de detectar entre os sete e aparece em quatro das cinco bases.

Se o termômetro acelera, a resposta precisa vir de todos os lados. É o que mostra a pesquisa da ecóloga industrial Stephanie Cap, da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, que simulou o consumo das famílias de Alemanha, Espanha, Hungria, Letônia e Suécia. Mesmo num cenário em que a indústria já tivesse cortado emissões no ritmo do Acordo de Paris, uma parcela de 40% a 92% da população teria de adotar ao mesmo tempo um pacote de mudanças de alto impacto para ficar dentro de 1,5 °C em 2030.

A equipe testou 47 mudanças de consumo, e três se destacaram: usar menos o carro a combustão, abandonar o aquecimento doméstico a combustível fóssil e adotar uma dieta predominantemente vegetal. A meta por habitante foi estimada em 2,38 toneladas de CO2 equivalente em 2030 e apenas 0,61 tonelada em 2050. Na Suécia, a adesão necessária chega a 92% quando se considera o efeito rebote, as emissões geradas quando o dinheiro economizado é gasto em outros produtos. “Tornar a indústria mais sustentável não é suficiente, por si só, para ficar dentro de 1,5 grau, e tornar as famílias mais sustentáveis também não. Precisamos realmente das duas coisas”, afirmou Cap.

A pesquisadora defende que governos e empresas criem as condições para essas escolhas, com transporte público acessível, refeições vegetais em escolas e refeitórios e taxação de atividades de alta emissão revertida em vales de energia limpa para famílias de baixa renda. Nos cinco países, trocar o carro pelo transporte público tem aceitação média de 62%, enquanto as dietas vegana e vegetariana ficam em 14% e 25%.

Oceano mais quente muda as marés, e a ciência corre para prevê-las

Na costa de Kimberley, no oeste da Austrália, a diferença entre a maré alta e a baixa pode passar de 10 metros, a altura aproximada de um prédio de três andares. Na Baía de Fundy, no Canadá, a amplitude pode chegar a 16 metros. Explicar essas diferenças, e antecipar como elas vão mudar num oceano mais quente, é o trabalho dos oceanógrafos Luwei Yang e Callum Shakespeare, da Universidade Nacional da Austrália, que publicaram em julho na Geophysical Research Letters, com Brian Arbic, da Universidade de Michigan, um processo físico que os modelos globais vinham deixando de fora.

Quando a maré passa sobre fundo acidentado, parte da sua energia vira ondas dentro do próprio oceano, entre camadas de água de densidades diferentes. São as marés internas. Ao se propagar, elas exercem forças sobre a maré da superfície, ora como um freio, ora como uma mola que absorve energia e a devolve mais tarde. “A maioria dos modelos de maré ignora esse efeito de mola”, afirmam Yang e Shakespeare. Ao incluí-lo, o grupo reproduziu a energia das marés observadas mesmo em simulações de baixa resolução, bem mais baratas em tempo de computador.

O aquecimento torna o oceano mais estratificado, e as medições já indicam efeitos. Um estudo de 2024 estimou que o fortalecimento da estratificação entre 1993 e 2020 provocou tendências da ordem de 0,1 milímetro por ano na principal componente da maré em mar aberto, a maioria de queda. Na plataforma continental do noroeste da Austrália, a redução chegou a 0,5 milímetro por ano. Em Lakes Entrance, no estado australiano de Vitória, 93% dos dias de alagamento costeiro registrados desde 2009 não teriam ocorrido sem a mudança na amplitude das marés ou a elevação simultânea do nível do mar.

A costa amazônica conhece de perto o peso das marés. Trabalho do pesquisador Pedro Walfir Martins Souza Filho, da Universidade Federal do Pará (UFPA), descreve um regime de macromarés com variação em torno de quatro metros na Baía do Guajará, em Belém, e de 7,5 metros na Baía de São Marcos, no Maranhão. Essas marés moldam a faixa entre o nordeste do Pará e o noroeste do Maranhão, que reúne 7.591 quilômetros quadrados de manguezais, a maior extensão contínua do ecossistema no planeta e 56,6% dos manguezais do Brasil.

Carbono escondido no fundo do mar e no chão do deserto

A pesca de arrasto de fundo já alcança cerca de 4 mil metros de profundidade e revolve, a cada ano, até 2% de todo o leito oceânico do planeta. O dado está no Planetary Health Check 2026, relatório anual publicado em 21 de setembro pelo Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), que pela primeira vez dedica um capítulo inteiro ao fundo do mar. A edição deste ano conclui que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados e seguem piorando.

Centenas de bilhões de toneladas de carbono orgânico estão guardadas nos sedimentos das plataformas continentais. Modelos globais indicam que só a pesca de arrasto pode liberar mais de 100 milhões de toneladas desse carbono por ano, embora ainda haja grande incerteza sobre quanto chega à atmosfera. Uma única operação de mineração de nódulos de manganês pode afetar mais de 200 km² de leito. “Não podemos limitar nossa atenção às florestas e aos solos em terra firme”, afirmou a climatologista Levke Caesar, codiretora do laboratório que produz o relatório. No mar Báltico, os autores concluem que nenhum metro quadrado do fundo está livre de alteração humana.

Em terra, a surpresa vem de um lugar improvável. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley mostraram, em estudo publicado em 23 de setembro na Science Advances, que o solo do deserto de Mojave prende dióxido de carbono no frio da noite e o solta no calor do dia, num ciclo físico, sem participação de seres vivos. A superfície do solo chega a 60 °C durante o dia e cai para menos de 20 °C à noite, e os minerais retêm o gás ao esfriar.

A partir das medições, a doutoranda Anna Abramova e o professor Ronald Amundson estimam que entre uma e três gigatoneladas de carbono entrem e saiam dos solos desérticos do planeta a cada ano, algo entre um décimo e um terço das emissões humanas anuais. “Não há explicação biológica para isso”, disse Amundson. Ele compara o achado ao material poroso apresentado em 2024 pelo químico Omar Yaghi, Nobel de Química de 2025, capaz de retirar CO2 do ar: “Estamos basicamente mostrando que minerais naturais têm essencialmente as mesmas capacidades”.

Restaurar 30% das terras convertidas evitaria mais de 70% das extinções

Recuperar 30% das terras que foram convertidas em lavoura e pasto, escolhendo as áreas prioritárias e mantendo de pé os ecossistemas que restam, evitaria mais de 70% das extinções projetadas de mamíferos, aves e anfíbios. A mesma restauração poria o planeta no caminho de sequestrar mais de 465 bilhões de toneladas de CO2, quase metade de todo o aumento desse gás na atmosfera desde a Revolução Industrial.

Os números são do estudo publicado na Nature por 27 autores e liderado pelo pesquisador brasileiro Bernardo Strassburg, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), com participação do Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC). O algoritmo classifica locais para restauração segundo três critérios, biodiversidade, clima e custo, e foi aplicado em 1.200 cenários. Quando a escolha das áreas é otimizada, a relação entre custo e benefício pode ficar até 13 vezes melhor.

O trabalho também contesta a ideia de que restaurar é sinônimo de plantar floresta. Dos 2,87 bilhões de hectares de terras convertidas identificadas, 54% eram originalmente florestas, 25% campos naturais, 14% formações arbustivas, 4% áreas áridas e 2% áreas úmidas. A América do Sul aparece com a maior extensão de terras convertidas. “A década que temos pela frente é crucial, e este estudo mostra como esforços de restauração priorizados são um meio custo-efetivo de manter o sistema de suporte à vida do planeta”, afirmou Neville Ash, diretor do UNEP-WCMC.

Entre os ecossistemas que ajudam ao mesmo tempo a conter o aquecimento e a proteger comunidades estão os manguezais, como os de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, retratados na reportagem. A década de 2021 a 2030 foi declarada pelas Nações Unidas a Década da Restauração de Ecossistemas.

Açaí e cupuaçu chegam à merenda, mas a floresta ainda fica fora da compra

Desde 1º de janeiro de 2026, pelo menos 45% do dinheiro que o governo federal repassa a estados e municípios para a merenda escolar precisa ser gasto em compras diretas da agricultura familiar. Até o ano passado, o piso era de 30%. A mudança vale para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que atende cerca de 40 milhões de estudantes em aproximadamente 150 mil escolas. Para quem vive na Amazônia, a pergunta é o que vai parar no prato.

O Brasil começou a construir a resposta com o projeto Biodiversidade para Alimentação e Nutrição, executado de 2012 a 2017 sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente. A equipe reuniu dados nutricionais completos de 78 frutas, hortaliças e outras plantas nativas e mostrou, por exemplo, que o camu-camu, fruta das várzeas amazônicas, tem 40 vezes mais vitamina C que a laranja comum. A lista oficial em vigor desde 2021 tem 94 espécies, entre elas bacuri, buriti, jambu, tucumã, babaçu e macaúba, e orienta as compras do PNAE e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

No Pará, os frutos já aparecem nas bandejas. No segundo semestre de 2024, a Secretaria de Estado de Educação incluiu açaí e cupuaçu no cardápio da rede estadual. Em Belém, a prefeitura informou em outubro de 2025 ter dobrado o volume de açaí enviado a 203 escolas municipais, com 50 toneladas previstas para mais de 63 mil estudantes. O cardápio municipal anunciado para 2025 trazia ainda pupunha, tucupi, jambu e cariru, de três cooperativas da agricultura familiar.

Um estudo publicado em dezembro de 2025 no Journal of Sustainability, com pesquisadores da UFPA, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e da Bioversity International, mostra que a presença ainda é desigual. Nas compras de 2023 e 2024 de seis municípios paraenses, 44 dos 146 itens da merenda (30,1%) eram da sociobiodiversidade. A polpa de açaí entrou na merenda de cinco municípios e a de cupuaçu, de quatro. A castanha-do-brasil foi comprada pelo PAA em cinco municípios e não apareceu em nenhuma compra escolar. Nenhum município comprou de indígenas ou de comunidades locais para o PNAE, enquanto cinco deles o fizeram pelo PAA.

Os pesquisadores apontam regras de compra rígidas, cardápios pouco adequados à cultura local e perda de conhecimento tradicional, e sugerem levar à merenda a experiência do PAA com povos indígenas e comunidades tradicionais. A lista oficial existe, os dados nutricionais estão abertos e o açaí já é servido nas escolas de Belém. O passo que falta, nos municípios estudados, é abrir a compra escolar a extrativistas, indígenas e comunidades locais.

Árvores na cidade: onde plantar, e por que as mangueiras de Belém caem

Na cidade canadense de Kelowna, apenas 20% da área analisada concentra 50,8% de todo o ganho de sombra que novas árvores poderiam oferecer. O dado vem de pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, que combinaram satélites, aprendizado de máquina e modelagem de sombra. O primeiro estudo refinou mapas térmicos de 30 metros para pixels de 10 metros. Com a imagem convencional, os pontos quentes apareciam como manchas de cerca de 18 mil metros quadrados; no mapa novo surgiram focos de apenas 700 metros quadrados, o tamanho de um lote residencial grande.

O segundo estudo aplicou o CanopyFit, que exclui as áreas onde não se pode plantar e cruza o potencial de sombra com a exposição ao calor e indicadores sociais. Em Kelowna, com cerca de 170 mil habitantes, o modelo encontrou espaço para 248 hectares de nova copa madura. “As cidades têm espaço e recursos limitados para o plantio, então precisamos ser estratégicos”, disse a professora Melissa McHale, autora sênior dos dois trabalhos. Onde não há lugar para árvores, os autores sugerem retirar asfalto, mudar regras de construção ou instalar estruturas de sombreamento.

Nos Estados Unidos, 175 cientistas que preparavam a avaliação climática nacional publicaram em 22 de setembro um roteiro do que ainda falta pesquisar para enfrentar desastres. Os autores foram dispensados pelo governo federal em abril de 2025, e o trabalho seguiu de forma voluntária. As florestas urbanas estão entre as prioridades: como mais de 80% da população americana vive em cidades, as ameaças às árvores afetam saúde pública, equidade e infraestrutura.

Belém conhece o tema a cada temporal. Entre janeiro e o início de fevereiro de 2025, 13 árvores caíram na cidade, oito delas mangueiras, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima. Em fevereiro, uma força-tarefa mapeou em três dias mais de 300 árvores com risco médio ou grave de queda. Em 19 de abril de 2026, a cidade registrou 150 milímetros de chuva em menos de 24 horas, e uma mangueira de 12 metros caiu sobre a rede elétrica na avenida Pedro Miranda, deixando mais de 5 mil famílias sem luz. O pesquisador Sérgio Brazão, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), sustenta que chuva e vento sozinhos não explicam as quedas: poda malfeita, escavações que cortam raízes, concreto ao redor do tronco, pragas e erva-de-passarinho enfraquecem as árvores. No temporal de abril, o bairro mais atingido foi a Terra Firme, na periferia, longe dos túneis de mangueiras do centro.

Terras secas, lagoas do Sul e o que mais traz a edição 158

As terras secas ocupam hoje 38,58% da superfície continental do planeta e continuarão a crescer neste século, mas em ritmo mais lento do que se previa. Estudo com 19 modelos climáticos, publicado em 1º de setembro na Environmental Research Letters, mostra que, com mais CO2 no ar, as plantas fecham parcialmente os estômatos e perdem menos água. No cenário de altas emissões, a expansão cai de 72.700 para 32.200 quilômetros quadrados por ano quando esse efeito entra na conta. O leste do Brasil, porém, segue entre os focos persistentes de ressecamento, e o país é o segundo em área em transição climática, atrás da Austrália.

No Sul, 31 cientistas propõem transformar mais de 100 lagoas rasas, numa faixa de cerca de 1.000 quilômetros do Rio Grande do Sul ao leste do Uruguai, em observatório permanente do clima no Hemisfério Sul. O artigo, liderado pela pesquisadora Mariana Kluge, registra que a enchente de maio de 2024 atingiu 478 dos 497 municípios gaúchos e 2,4 milhões de pessoas, e que o Guaíba chegou à marca histórica de 5,37 metros. “A maior parte do que sabemos sobre lagos vem do Hemisfério Norte”, afirmou Kluge.

A edição traz ainda o estudo de físicos da Universidade de Alberta, publicado na Nature, que explica por que o dia encurta e alonga alguns milissegundos ao longo de décadas: um puxão gravitacional do núcleo interno da Terra, que oscila cerca de 2,35 graus em relação ao manto num ciclo de aproximadamente 70 anos. De Singapura, pesquisadores da Universidade Tecnológica de Nanyang reorganizaram sensores na superfície das células de plantas e reduziram em cerca de 53% a proliferação de bactérias, sem prejudicar o crescimento. E da Inglaterra vem a história do mangelwurzel, a beterraba gigante do século 18 que alimentava o gado e voltou a Somerset em festival, guardada em bancos de sementes que já ajudaram a melhorar a beterraba açucareira.

O fio que une a edição

Quase todas as reportagens da edição 158 tratam da mesma tarefa: aprender a ler sinais antes que o problema chegue. O oceano que esquenta meses antes do calor na floresta, as marés que mudam com a estratificação do mar, as manchas de calor de 700 metros quadrados que um satélite de 30 metros não enxergava, a mangueira enfraquecida que cai no primeiro temporal forte. Os pesquisadores de Adelaide resumem o desafio quando dizem que o passado deixou de servir de guia para os extremos.

A outra metade da resposta é agir onde o retorno é maior. Escolher as terras certas para restaurar deixa a relação entre custo e benefício até 13 vezes melhor. Plantar árvores nos quarteirões certos concentra metade da sombra possível em um quinto da área. Comprar da floresta para a merenda leva o açaí e o cupuaçu ao prato de mais de 63 mil estudantes em Belém. Para a Amazônia, que viveu duas secas recordes seguidas, saber com antecedência e escolher bem onde agir pode ser a diferença entre se preparar e apenas reagir.

Perguntas Frequentes

O que mostra a reportagem de capa da edição 158 da Revista Amazônia?
Mostra que o aquecimento do Pacífico, na fase de El Niño, e do Atlântico tropical antecede ondas de calor extremo na Amazônia com até sete meses de antecedência, sobretudo entre março e maio. O estudo, publicado na Earth’s Future com participação do Inpe, analisou dados de 1950 a 2023.

Já é possível prever calor extremo com seca na Amazônia com sete meses de folga?
Ainda não. Os autores ressalvam que os melhores modelos quase sempre usavam um índice medido no próprio mês do evento. A relação de sete meses é um sinal precursor do calor extremo, e transformá-la em alerta prático exige incluir umidade do solo, vegetação e circulação regional.

Como o estudo afeta o Pará?
O norte do estado, de Belém a Santarém e Óbidos, fica na região mais quente da bacia, onde o índice do Pacífico foi o melhor preditor em todas as estações. O sul e o sudeste, de Itaituba a Marabá, ficam na região central, onde o aviso de março a maio teve o melhor desempenho da análise.

Quais frutas nativas já estão na merenda escolar no Pará?
A rede estadual incluiu açaí e cupuaçu no cardápio no segundo semestre de 2024. Em Belém, a prefeitura dobrou o volume de açaí enviado a 203 escolas municipais. Um estudo em seis municípios paraenses mostrou, porém, que a castanha-do-brasil não apareceu em nenhuma compra escolar.

Como ler a edição 158 da Revista Amazônia de graça?
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