O que são os rios voadores da Amazônia: a floresta solta 20 bilhões de toneladas de água por dia no ar, mais do que o rio Amazonas leva ao mar

O que são os rios voadores da Amazônia: a floresta solta 20 bilhões de toneladas de água por dia no ar, mais do que o rio Amazonas leva ao mar
Imagem: Nasa/Jeff Schmaltz, MODIS (domínio público). Nuvens de tarde se formando sobre a Floresta Amazônica, vistas por satélite.

Rios voadores são enormes correntes de vapor de água que saem da Floresta Amazônica, viajam pelo céu levadas pelo vento e se transformam em chuva em outras regiões da América do Sul, como o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil. Segundo o relatório “O Futuro Climático da Amazônia”, do pesquisador Antonio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a floresta evapora quase 20 bilhões de toneladas de água por dia, mais do que o volume diário que o rio Amazonas despeja no oceano.

Árvores que funcionam como gêiseres

As árvores puxam água do solo pelas raízes, levam essa água pelo tronco até as folhas e a liberam no ar em forma de vapor, num processo chamado transpiração. Segundo Nobre, uma única árvore grande da Amazônia pode evaporar mais de mil litros de água por dia. “As árvores funcionam como gêiseres”, resume o pesquisador.

Somada à água que evapora do solo, dos rios e das folhas molhadas depois da chuva, essa transpiração forma uma massa de ar muito úmida sobre a floresta. Parte dela volta a cair como chuva na própria Amazônia, num ciclo que se repete várias vezes enquanto a umidade avança para o oeste.

O caminho até o Sudeste

Os ventos alísios trazem umidade do oceano Atlântico para dentro do continente. Sobre a floresta, essa umidade é reforçada pela transpiração das árvores e segue para o oeste até encontrar a barreira da Cordilheira dos Andes. Ali, os ventos fazem uma curva e descem para o sul, levando o vapor de água para o Centro-Oeste, o Sudeste, o Sul e países vizinhos, como Paraguai, Bolívia e Argentina.

O nome rios voadores ganhou popularidade com um projeto de pesquisa que, nos anos 2000, acompanhou de avião essas correntes de umidade e coletou amostras de vapor para rastrear sua origem.

Por que não há deserto a leste dos Andes

Nobre chama atenção para um fato geográfico: em várias partes do mundo, regiões na mesma faixa de latitude da porção central da América do Sul são desertos, como o Atacama, o Kalahari e os desertos da Austrália. A leste dos Andes, isso não acontece. Para o pesquisador, a floresta é a grande responsável por manter úmido o coração do continente.

O relatório também cita a hipótese da bomba biótica de umidade, segundo a qual a floresta, por evaporar mais água que o oceano, ajudaria a puxar o ar úmido do mar para dentro do continente. A ideia ainda é debatida entre os cientistas, mas o papel da transpiração das árvores na chuva da região é consenso.

A energia de 50 mil Itaipus

Evaporar tanta água exige muita energia, que vem do sol. Pelos cálculos do relatório, a energia solar consumida diariamente nessa evaporação equivale à produção de 50 mil usinas de Itaipu. Uma única Itaipu precisaria funcionar a plena carga por cerca de 150 anos para fazer o que a floresta faz em um dia.

O risco do desmatamento

Sem árvores, a água da chuva escorre mais rápido para os rios e menos vapor volta ao ar. Por isso, cientistas alertam que o desmatamento e a degradação da floresta podem reduzir a umidade levada pelos rios voadores e afetar as chuvas fora da Amazônia, com impacto na agricultura, na geração de energia e no abastecimento de cidades.

Perguntas frequentes

O que são rios voadores?

Correntes de vapor de água que saem da Amazônia, viajam pela atmosfera e viram chuva em outras regiões.

Quanta água a floresta evapora?

Quase 20 bilhões de toneladas por dia, segundo o relatório “O Futuro Climático da Amazônia”.

Os rios voadores chegam a São Paulo?

Sim. Depois de encontrar os Andes, a umidade segue para o sul e contribui para as chuvas no Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul.

Quanto uma árvore grande transpira?

Mais de mil litros de água por dia, segundo Antonio Nobre.

Entender os rios voadores ajuda a explicar por que a Amazônia importa para quem vive a milhares de quilômetros dela.

Com informações do relatório “O Futuro Climático da Amazônia”, de Antonio Nobre (INPA/Inpe), elaborado no âmbito da Articulação Regional Amazônica.

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