Pesquisadores revisam 211 estudos de 34 anos e mostram que lixo não reciclável pode substituir parte do carvão na produção de cimento

Pesquisadores revisam 211 estudos de 34 anos e mostram que lixo não reciclável pode substituir parte do carvão na produção de cimento
Foto: Divulgação

Revisão da Adelaide University aponta o potencial do combustível derivado de resíduos, mas diz que faltam padrões claros e dados sobre impactos.

O que sobra do lixo e não pode ser reciclado talvez tenha um destino melhor do que o aterro: os fornos de cimento. Uma revisão sistemática conduzida na Adelaide University, na Austrália, examinou o que a ciência já sabe sobre o uso de combustível derivado de resíduos (RDF, na sigla em inglês) para substituir parte dos combustíveis fósseis na fabricação do material. A conclusão é cautelosa: o potencial existe, mas depende de regras claras e de qualidade constante do combustível.

Um setor que depende de calor extremo

O cimento está em prédios, estradas e obras de infraestrutura, mas tem um custo climático alto. Segundo a Adelaide University, o setor responde por cerca de 8% das emissões globais de dióxido de carbono.

Parte do problema vem do calor. Produzir cimento exige temperaturas extremas nos fornos, e a indústria recorre sobretudo ao carvão e a outros combustíveis fósseis para alcançá-las.

Ao mesmo tempo, grandes volumes de resíduos combustíveis, inclusive materiais que não podem ser reciclados, seguem para aterros. A proposta estudada tenta juntar as duas pontas.

O que é o combustível derivado de resíduos

O RDF é produzido a partir do processamento de resíduos adequados, de modo a gerar um combustível capaz de substituir parte dos fósseis convencionais. Quando ele é queimado junto com os combustíveis tradicionais nos fornos de cimento, a prática recebe o nome de coprocessamento.

Como a revisão foi feita

A doutoranda Geethmi Thisakya, da Escola de Engenharia Civil e Construção, trabalhou com a equipe de orientação formada por Navodana Rodrigo, Chamitha Wijewickrama e pelo professor George Zillante. Eles levantaram 211 artigos acadêmicos publicados entre 1991 e julho de 2025.

Desse total, 48 foram analisados em detalhe, entre eles sete documentos regulatórios. Os resultados saíram na revista International Journal of Building Pathology and Adaptation.

Segundo a Adelaide University, o levantamento mostra interesse crescente no mundo pelo RDF como forma de enfrentar dois problemas ambientais ao mesmo tempo: reduzir o lixo enviado a aterros e diminuir a dependência de fósseis na produção de cimento.

Trocar carvão por lixo não basta

Para Thisakya, a revisão mostra que aproveitar esse potencial exige mais do que simplesmente substituir um combustível por outro.

“Previous research has highlighted the potential of refuse-derived fuel to turn suitable waste materials into a useful resource rather than sending them to landfill. However, our review shows that realising this potential requires more than simply replacing coal with waste. We need consistent fuel quality, clear regulations and stronger evidence about the environmental and economic impacts.”

Em tradução livre, a pesquisadora afirma que estudos anteriores já apontavam o RDF como forma de transformar resíduos em recurso, mas que concretizar isso exige qualidade consistente do combustível, regulação clara e evidências mais sólidas sobre os impactos ambientais e econômicos.

Confusão de termos atrapalha comparações

A análise encontrou ainda uma confusão frequente entre RDF e o combustível sólido recuperado (SRF, na sigla em inglês), uma forma de combustível derivado de resíduos com padronização mais rigorosa. Ambos podem ser usados na produção de cimento.

O problema é que terminologia inconsistente e padrões de qualidade variados dificultam comparar resultados de pesquisas, interpretar exigências regulatórias e garantir um combustível confiável.

Os autores afirmam que padrões mais claros seriam essenciais para ampliar o uso responsável desses combustíveis. Thisakya resume o ponto de vista da indústria:

“Cement manufacturers need confidence that alternative fuels will perform consistently, meet environmental requirements and support safe, reliable production.”

Ela acrescenta que sistemas mais fortes de garantia de qualidade e marcos regulatórios mais claros ajudarão o setor a decidir com base em informação.

O que ainda falta saber

A revisão lista prioridades para os próximos estudos: melhorar a classificação dos combustíveis, reforçar o controle de qualidade, comparar regulações entre países e fazer avaliações mais detalhadas dos impactos ambientais, econômicos e sociais. Os pesquisadores também dizem ser preciso entender como o RDF se comporta em diferentes condições industriais e geográficas.

Eles reforçam que reciclagem e reuso continuam sendo a prioridade. O RDF, segundo o grupo, pode ser uma alternativa para materiais combustíveis que não podem ser reciclados na prática.

O que isso significa para a Amazônia

A pesquisa não analisou a Amazônia, e o estudo não trata de casos brasileiros. Ainda assim, o tema dialoga com um desafio conhecido na região: o destino do lixo em cidades que dependem de aterros e a necessidade de materiais de construção com menor pegada de carbono. A própria conclusão dos autores, de que o desempenho do RDF varia conforme as condições industriais e geográficas, indica que qualquer adaptação local exigiria avaliação específica.

O próximo passo apontado pela revisão é preencher essas lacunas, com estudos comparativos de regulação e avaliações completas de impacto, antes que o uso de resíduos como combustível seja ampliado com segurança.

Com informações de Adelaide University.

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