A prevenção começa na paisagem
A fronteira agrícola brasileira deixou de ser apenas um espaço de produção para se tornar território estratégico de saúde global. A abordagem conhecida como Saúde Única, ou One Health, propõe uma virada conceitual: saúde humana, animal, vegetal e ambiental não são esferas separadas, mas partes de um mesmo sistema. Quando uma falha ocorre em qualquer ponto dessa rede, o impacto pode atravessar continentes.
Na prática, isso significa abandonar o modelo reativo, baseado em respostas hospitalares e emergenciais, e investir na prevenção a partir do território. Estima-se que 60% das doenças infecciosas humanas tenham origem animal e que 75% das enfermidades emergentes sejam zoonoses. Em regiões onde o desmatamento avança e a pecuária se intensifica, a probabilidade de transbordamento de patógenos cresce.
A Amazônia e o Pantanal ocupam posição central nesse debate. A expansão agropecuária sobre biomas sensíveis altera drasticamente ecossistemas complexos. A perda de habitat força a migração de animais silvestres para áreas próximas a pastagens e granjas. O aumento do contato entre espécies cria condições ideais para o salto zoonótico.
Especialistas alertam que a Amazônia concentra o maior estoque de betacoronavírus conhecido, além de uma diversidade ainda não catalogada de vírus, bactérias e outros micro-organismos. A degradação florestal pode liberar patógenos que permaneciam confinados em ambientes estáveis. A chamada tempestade perfeita combina desmatamento, mudanças climáticas e alta densidade animal, favorecendo a amplificação viral.
Vigilância integrada como política de Estado
Diante desse cenário, o monitoramento zoofitossanitário passa a ser entendido como instrumento de segurança nacional. O Brasil já iniciou movimentos institucionais para estruturar essa agenda. O Comitê Técnico Interinstitucional em Uma Só Saúde foi criado para articular políticas entre diferentes ministérios e estados. A coordenação envolve áreas de saúde, meio ambiente e agricultura, buscando romper compartimentos históricos da gestão pública.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, incorporou a Saúde Única como eixo estratégico em seu Plano Diretor 2024–2030. A instituição investe em métodos de prevenção e eliminação de doenças na interface entre humanos, animais e plantas. O objetivo é detectar vetores de emergência antes que alcancem populações humanas.
A proposta inclui sistemas de vigilância que cruzem dados de saúde humana, sanidade animal, uso de antibióticos e mudanças ambientais. Sensores, satélites e análise de big data passam a compor uma infraestrutura preventiva. A lógica é simples e ambiciosa: identificar sinais fracos antes que se tornem crises globais.
O Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde também estabelece diretrizes para fortalecer a integração de bancos de dados e preparar respostas antecipadas. Em vez de reagir a surtos consolidados, a estratégia busca antecipar tendências epidemiológicas a partir do território.

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Plantas doentes, pessoas vulneráveis
A dimensão vegetal da Saúde Única costuma receber menos atenção pública, mas carrega implicações profundas. Doenças de plantas afetam diretamente a segurança alimentar. Quebras de safra provocadas por patógenos reduzem oferta, elevam preços e comprometem dietas, especialmente entre populações mais pobres.
Além da quantidade, a qualidade nutricional pode ser impactada. Plantas doentes produzem alimentos com menor concentração de nutrientes essenciais. Fibras, vitaminas, minerais e antioxidantes dependem de ciclos fisiológicos saudáveis. Quando esses processos são interrompidos, a cadeia alimentar sofre.
Há ainda outro fator de risco: o uso intensivo de defensivos agrícolas. Para conter fungos e bactérias, produtores recorrem a aplicações químicas que podem gerar externalidades negativas. Trabalhadores rurais estão sujeitos à exposição ocupacional. Consumidores podem ingerir resíduos em alimentos e água contaminada.
Estudos associam uso excessivo de determinados produtos a problemas como intoxicações agudas, desregulação endócrina, distúrbios neurológicos e alguns tipos de câncer. O solo e os corpos hídricos também são afetados, comprometendo serviços ecossistêmicos que regulam doenças.
A resistência antimicrobiana emerge como ameaça adicional. O uso massivo de biocidas e antibióticos em sistemas agrícolas contribui para a seleção de micro-organismos resistentes, dificultando tratamentos médicos. Pesquisas indicam que patógenos de plantas e humanos podem coexistir no microbioma do solo, evidenciando a interconexão biológica entre espécies.

Restauração florestal como vacina ecológica
Se a degradação abre portas para doenças, a restauração pode funcionar como barreira natural. Ecossistemas preservados mantêm equilíbrio entre predadores, vetores e hospedeiros, reduzindo a probabilidade de surtos. A biodiversidade atua como filtro biológico, amortecendo a disseminação de patógenos.
Na Amazônia, a restauração florestal é vista como medida urgente de segurança global. Ao reestabelecer serviços ecossistêmicos, como regulação hídrica e controle biológico, a floresta recuperada contribui para reduzir incidência de doenças como malária e leishmaniose, associadas a alterações ambientais.
Mais do que compensação de carbono, restaurar áreas degradadas torna-se estratégia de saúde pública. Ao diminuir sobreposição entre vida selvagem e sistemas produtivos intensivos, reduz-se o risco de spillover. A paisagem passa a ser compreendida como infraestrutura sanitária.
Há também componente social. Ambientes naturais restaurados favorecem bem-estar físico e mental das comunidades locais. A saúde, nesse sentido, extrapola hospitais e laboratórios, alcançando qualidade de vida e estabilidade econômica.
A fronteira agrícola brasileira está no centro de um debate que ultrapassa limites nacionais. O modelo de desenvolvimento baseado em expansão territorial precisa incorporar custos sanitários que, até agora, permanecem invisíveis na contabilidade econômica. Pandemias não são eventos isolados, mas consequências de desequilíbrios acumulados.
Saúde Única propõe integrar biodiversidade, produção de alimentos e políticas públicas em uma mesma equação. Ao reconhecer que floresta, rebanho e cidade compartilham riscos e responsabilidades, o país pode transformar sua fronteira agrícola de epicentro potencial de crises em linha avançada de prevenção global.












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