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Seca de 20 anos mata árvores gigantes na Amazônia, mas permite que as menores sobrevivam

Seca de 20 anos mata árvores gigantes na Amazônia, mas permite que as menores sobrevivam
Foto: creaf.cat

Experimento no Brasil mostra que a floresta se reorganiza após a estiagem, mas perde biomassa, carbono e biodiversidade.

Painéis instalados na floresta amazônica para simular uma seca prolongada
Painéis instalados na floresta para simular a seca. Crédito: Pablo Sánchez Martínez/CREAF.

O que acontece quando a chuva diminui pela metade durante décadas? Na Amazônia brasileira, árvores pequenas conseguem resistir, mas grande parte das árvores maiores desaparece. A conclusão vem de um experimento realizado por mais de 20 anos na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, onde pesquisadores simularam uma seca prolongada e observaram perdas de mais de um terço da biomassa florestal nas primeiras etapas do estudo.

O trabalho foi liderado pela Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, com participação do CREAF, da Universidade Federal do Pará, do Museu Paraense Emílio Goeldi e da Universidade Federal Rural da Amazônia, entre outras instituições. O estudo foi publicado em 11 de junho de 2025 na revista Nature Ecology & Evolution e pode ser consultado na íntegra no artigo científico publicado pela Nature.

Como a seca foi reproduzida na floresta

Para entender os efeitos de um futuro mais seco, a equipe instalou painéis plásticos sobre uma das parcelas de pesquisa. A estrutura impediu que parte da água da chuva chegasse ao solo e reduziu em 50% a quantidade de água disponível para as plantas. Essa condição foi comparada com outra parcela, formada pelas mesmas espécies, mas sem a intervenção.

O percentual foi escolhido porque representa uma projeção de seca para o fim deste século em algumas áreas da Amazônia. Centenas de árvores, pertencentes a mais de 150 espécies representativas da floresta, foram acompanhadas ao longo do experimento.

Segundo o estudo, a seca prolongada provocou a morte da maioria das árvores maiores nos primeiros 15 anos. A consequência foi uma redução superior a um terço da biomassa total da área, formada por madeira, folhas e raízes. Em outra estimativa apresentada pela equipe, a degradação alcançou o equivalente a 40% da biomassa armazenada nessas florestas, liberando para a atmosfera parte do carbono antes retido na estrutura das plantas.

Por que as árvores menores resistem

A sobrevivência dos exemplares menores pode parecer surpreendente, mas há uma explicação ligada à competição por recursos. Quando as árvores gigantes morrem, sobra mais água no solo e aumenta a entrada de luz entre as copas. As plantas menores passam a contar com melhores condições para crescer, mesmo em um ambiente afetado pela estiagem.

Outro fator pode estar relacionado ao tamanho. Árvores muito altas ficam mais expostas ao calor, ao vento e à evaporação da água. Já as plantas baixas permanecem protegidas pela sombra e por um microclima mais estável próximo ao solo.

Os pesquisadores também levantam a hipótese de que as árvores menores, muitas vezes mais jovens, tenham maior capacidade de ajustar sua estrutura interna às condições de pouca água. Essa possibilidade é chamada de plasticidade, ou seja, a capacidade de modificar características de crescimento e funcionamento conforme o ambiente. A equipe ainda investiga essa explicação, que não é apresentada como conclusão definitiva.

“Nos primeiros 15 anos do experimento, observamos que a maioria das árvores maiores morreu, causando uma perda de mais de um terço da biomassa total. Depois desse período inicial, a floresta se reorganizou e as sobreviventes apresentaram o mesmo estresse hídrico observado nas árvores de áreas não afetadas pela seca”, explicou Pablo Sánchez Martínez, primeiro autor do estudo.

Entenda o caso

O experimento não representa todos os efeitos possíveis das mudanças climáticas na Amazônia. A simulação reduziu a entrada de chuva, mas as secas futuras também devem ocorrer com temperaturas mais altas, alterações na umidade do ar, tempestades mais intensas e maior risco de incêndios.

Por isso, os autores afirmam que serão necessários estudos ainda mais longos e abrangentes. A floresta conseguiu se reorganizar depois da mortalidade das árvores grandes, mas essa adaptação não significa que o ecossistema tenha permanecido igual ao original.

O que se perde quando um gigante morre

As árvores antigas desempenham funções que vão muito além do armazenamento de carbono. Espécies como castanheira, mogno e jatobá podem viver por mais de 500 anos e formar estruturas verticais que abrigam uma grande variedade de seres vivos.

Nas copas, nos troncos e nas raízes vivem aves como tucanos e araras, mamíferos arborícolas, répteis, insetos, sapos, fungos e plantas como orquídeas e bromélias. Cada árvore de grande porte funciona como um conjunto de microambientes, oferecendo abrigo, alimento e locais de reprodução.

“Esses gigantes criam micro-hábitats únicos. Portanto, o desaparecimento deles também representa a perda do mundo que existe entre seus galhos”, afirmou Maurizio Mencuccini, pesquisador do CREAF e um dos autores do estudo.

Impacto para o clima da Amazônia

A morte das árvores maiores também pode afetar o papel da floresta no equilíbrio climático. Além de retirar dióxido de carbono da atmosfera, as árvores liberam grandes volumes de água por meio da evapotranspiração. Esse processo contribui para a formação dos chamados rios voadores, massas de umidade transportadas pelo ar para outras regiões.

Se o ciclo for alterado pela redução das árvores gigantes, os padrões de chuva podem sofrer consequências em escala continental. A preocupação envolve a própria Amazônia e áreas de países como Bolívia, Argentina e Paraguai, além de diferentes regiões do Brasil.

A descoberta interessa diretamente aos estados da Amazônia Legal, incluindo Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A resposta da floresta pode variar conforme o tipo de solo, a intensidade da seca e o histórico de perturbações de cada área, como desmatamento e fogo.

Segundo o CREAF, o experimento na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, mostrou em 2025 que árvores menores podem sobreviver à seca prolongada, enquanto as maiores sofrem mortalidade elevada e deixam de armazenar parte significativa do carbono da floresta.

Os próximos passos da pesquisa devem avaliar por mais tempo como a floresta se recupera e se a reorganização observada será suficiente diante de secas mais quentes, incêndios e alterações na umidade do ar.

Perguntas frequentes

Onde o experimento foi realizado?

Na Floresta Nacional de Caxiuanã, no estado do Pará, em uma área de floresta amazônica no Brasil.

Quanto de chuva foi reduzido na simulação?

Os painéis instalados sobre uma das parcelas impediram a chegada de aproximadamente 50% da água ao solo.

As árvores menores substituem completamente as maiores?

Não. Embora consigam sobreviver e ocupar o espaço deixado pelas árvores grandes, elas não oferecem imediatamente a mesma capacidade de armazenar carbono nem os mesmos micro-hábitats para a biodiversidade.

Com informações de CREAF.

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