Tartaruga-verde, que era abatida aos milhares para virar sopa, sai da lista de ameaçadas e vira um dos maiores retornos da conservação

Tartaruga-verde, que era abatida aos milhares para virar sopa, sai da lista de ameaçadas e vira um dos maiores retornos da conservação
Fêmea de tartaruga-verde (Chelonia mydas) cavando o ninho na areia. Foto: U.S. Fish and Wildlife Service, via Wikimedia Commons, domínio público.

Durante boa parte do século 20, a tartaruga-verde foi tratada como mercadoria. Sua carne virava sopa, o casco virava enfeite e os ovos eram considerados iguaria. No atol de Aldabra, no Oceano Índico, caçadores esperavam as fêmeas subirem a praia para desovar e as matavam ali mesmo. No fim do século 19, até 12 mil tartarugas-verdes eram capturadas por ano só nesse lugar. Hoje, o atol é um dos símbolos de uma das maiores voltas por cima da conservação marinha.

Em outubro de 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN, rebaixou a tartaruga-verde da categoria ameaçada para pouco preocupante. A organização estima que o número de tartarugas-verdes no mundo cresceu cerca de 28% desde os anos 1970. Uma avaliação separada, também de 2025, concluiu que 8 das 11 populações regionais da espécie estão em baixo risco.

O fundo do poço e a virada

Aldabra fica a cerca de 640 quilômetros da costa leste da África e faz parte das Seychelles. É um dos maiores atóis de coral elevados do mundo, com um anel de ilhas em volta de uma lagoa e mais de 180 mil tartarugas-gigantes terrestres. Nos anos 1960, o número de ninhos de tartaruga-verde por ano no atol tinha caído para algo entre 2 mil e 3 mil.

A virada começou com a proibição da caça, em 1968. Desde então, Aldabra mantém a proteção contínua mais longa para tartarugas-verdes em desova no oeste do Oceano Índico. A pesquisa local, conduzida pela Fundação das Ilhas Seychelles, acompanha as tartarugas há mais de meio século, e o atol se tornou um dos principais pontos de reprodução da espécie na região, atrás apenas da Ilha Europa.

Viajantes de longa distância

As fêmeas que desovam em Aldabra se espalham depois por todo o oceano. Rastreamentos por satélite mostram viagens de mais de 2.400 quilômetros, em rotas que saem do atol como raios de uma roda, até áreas de alimentação com capim marinho na Somália, em Moçambique e no extremo sul de Madagascar. O que acontece numa praia de desova, portanto, repercute em toda uma bacia oceânica.

Nem todas estão bem

A melhora não é uniforme. Algumas populações continuam ameaçadas e dependem de proteção. As tartarugas marinhas ainda enfrentam captura acidental em redes de pesca, ingestão de plástico, perda de praias para construções e iluminação artificial, que desorienta os filhotes. O aquecimento também preocupa: em tartarugas, a temperatura da areia define o sexo dos filhotes, e praias mais quentes produzem mais fêmeas.

E no Brasil

O Brasil tem papel importante nessa história. A tartaruga-verde desova principalmente nas ilhas oceânicas, como Trindade, no Espírito Santo, Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte, e Fernando de Noronha, em Pernambuco. Filhotes e jovens usam o litoral do país inteiro para se alimentar, e são comuns em costões rochosos do Sudeste e do Sul.

O Projeto Tamar, que começou a trabalhar com tartarugas marinhas nos anos 1980, ajudou a transformar comunidades que antes coletavam ovos em parceiras da proteção das praias. Para as cinco espécies que desovam no país, a recuperação da tartaruga-verde no mundo é um sinal de que décadas de trabalho podem, de fato, reverter o declínio de animais que pareciam condenados.

Por que se chama tartaruga-verde

Apesar do nome, o casco da tartaruga-verde é marrom, oliva ou acinzentado. O verde está na gordura do corpo, tingida pela alimentação. Os adultos são praticamente herbívoros e comem capim marinho e algas, o que dá à gordura um tom esverdeado. Os jovens, ao contrário, comem também pequenos animais. Um adulto pode passar de um metro de casco e pesar mais de 150 quilos, o que faz da espécie uma das maiores tartarugas marinhas do mundo.

Uma lição sobre tempo

Tartarugas-verdes levam de 20 a 40 anos para atingir a idade de reprodução. Isso significa que as fêmeas que hoje lotam as praias de Aldabra nasceram, em muitos casos, quando a proibição da caça ainda era recente. O retorno de uma espécie assim é medido em gerações, e só aparece para quem mantém a proteção por tempo suficiente para ver o resultado.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA