Startup fundada por criadores da Colossal e da Anduril levanta US$ 200 milhões para clonar e editar cães militares com primeiras ninhadas previstas para 2027

Startup fundada por criadores da Colossal e da Anduril levanta US$ 200 milhões para clonar e editar cães militares com primeiras ninhadas previstas para 2027
Foto: acervo

A Warhound promete cães de combate mais fortes e saudáveis, mas cientistas alertam para falhas, baixa eficiência e dilemas éticos.

E se o próximo cão farejador de uma zona de conflito tivesse nascido de um embrião clonado e editado em laboratório? É essa a aposta da Warhound, startup de biotecnologia lançada oficialmente em uma quinta-feira de outubro de 2026, depois de mais de um ano de trabalho nos bastidores e de captar US$ 200 milhões em financiamento. A meta é clonar e modificar geneticamente cães de serviço militar para obter animais maiores e mais eficientes, usados em conflitos e em policiamento.

A empresa nasce da união de dois nomes do Vale do Silício: Ben Lamm, da Colossal Biosciences, e Palmer Luckey, da Anduril Industries, fabricante de tecnologia militar. Segundo a Scientific American, as primeiras ninhadas são esperadas para o início de 2027.

Como a Warhound pretende fabricar um cão de combate

O primeiro passo já foi dado, segundo Lamm: a empresa guardou em biobanco o material genético de um grupo de cães de serviço de elite, incluindo raças como pastor-belga-malinois e pastores. A ideia é clonar as células desses animais e, em seguida, editar os embriões clonados para gerar filhotes.

Clonar cães, aliás, não é novidade. Pesquisas já mostraram que clones de cães de serviço nascem com muitas das características desejadas dos originais.

As edições prometidas

A primeira frente é a saúde. A Warhound quer reduzir o risco de problemas como displasia de quadril, perda de visão e predisposição a câncer. Depois, o plano é otimizar características ideais para o trabalho militar.

“O padrão é que nenhum cão entre em serviço carregando um marcador genético conhecido por causar uma condição comum que encerra a carreira”, diz Lamm. “A partir daí, estamos trabalhando em edições voltadas especificamente a longevidade e saúde adicionais, além de fatores de desempenho.”

A Colossal, que tem participação na Warhound e fornece boa parte da ciência, já fez algo parecido no ano passado: clonou e editou um lobo-cinzento para criar um animal geneticamente semelhante ao extinto lobo-terrível. Para a Warhound, o processo será similar, mas com cães modernos.

O que dizem os especialistas

Ben Novak, cientista-chefe da Revive and Restore, que trabalha com clonagem de animais silvestres para conservação, afirma que o avanço pode ser rápido porque a genômica das raças de cães já tem muitos dados. Pesquisadores já editaram cães para mexer em genes ligados à displasia de quadril, tornar os animais hipoalergênicos e tratar uma doença muscular, embora os efeitos de longo prazo ainda não sejam claros.

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Foto: Mary Randolph

Otimizar características em larga escala, porém, pode levar tempo e abrir espaço para consequências inesperadas. “Pode ser difícil descobrir exatamente qual elemento genético cria uma característica”, diz Novak, “e algumas características podem ser combinações de centenas ou milhares de mutações em genes.”

Do ponto de vista comercial, ele vê lógica no negócio: “Para uma empresa de biotecnologia, é certamente uma ideia infalível: contratos militares garantidos, que é o aspecto mais financiado da ciência do governo dos EUA, com um potencial real de melhorar um setor do uso militar que acho que todos concordam que é importante.”

O custo para os animais

A veterinária e bioeticista Lisa Moses, da Universidade Harvard, lembra que o processo tem preço. A taxa de nascimentos vivos entre cães clonados continua baixa, e o procedimento pode colocar em risco a fêmea que gesta o embrião.

“Não é, de forma alguma, uma ciência perfeita, e com isso quero dizer que ainda é um processo bastante ineficiente”, afirma Moses. “Exige que muitos cães passem por procedimentos invasivos e sejam mortos para produzir um filhote clonado.”

Ela também observa que a percepção pública muda quando o assunto são cachorros. “Já tive muitas conversas sobre o que a Colossal Biosciences está fazendo e fez. Mas quando você começa a mexer com cães, as pessoas sentem de forma muito diferente”, diz.

Robert Lanza, ex-diretor científico do Astellas Institute for Regenerative Medicine e pioneiro da pesquisa em clonagem, diz que a ética e a técnica da proposta estão longe de ser “preto no branco”. “Acho que esses objetivos são definitivamente alcançáveis do ponto de vista científico. Mas, de novo, é muito improvável que isso possa ser feito sem muitas, muitas falhas e defeitos”, afirma.

E a Amazônia com isso?

Não há, no material apurado, projeto da Warhound na região. Mas o debate chega perto: cães de faro e de trabalho são usados por forças de segurança em estados amazônicos, em áreas de fronteira e no combate a crimes ambientais. Qualquer tecnologia que mude a forma de produzir esses animais levanta, aqui também, perguntas sobre bem-estar animal e regras para o uso da edição genética.

Por ora, o teste decisivo será o nascimento das primeiras ninhadas, previsto para o início de 2027, quando será possível avaliar quantos filhotes saudáveis a técnica realmente entrega.

Com informações de Scientific American.

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