
Estudos de 2023 mostram que a abelha-carpinteira-azul tem uma cor fora do comum e uma vida social que ninguém esperava de um inseto solitário.
Quase todo inseto azul é azul de mentira. A cor que você vê não vem de tinta nenhuma, e sim de estruturas minúsculas no corpo que brincam com a luz. A abelha-carpinteira-azul (Xylocopa caerulea), das florestas tropicais do sul e do sudeste da Ásia, quebra essa regra: o azul dela vem de um pigmento de verdade, algo raríssimo entre as abelhas, e a espécie ainda tem hábitos de vizinhança que surpreenderam os pesquisadores.
Um azul que não é ilusão de ótica
Segundo um estudo de 2023 publicado na revista The Science of Nature, os pelos da abelha contêm bilina, um pigmento químico extremamente incomum nesse grupo de insetos. Dentro de cada pelo, grânulos minúsculos espalham a luz e reforçam o efeito, dando o brilho azul elétrico.

Esse tom se destaca contra o verde das folhas na faixa de cores que as abelhas enxergam. Por isso, cientistas suspeitam que ele ajude a encontrar parceiros, reconhecer indivíduos da mesma espécie ou afastar possíveis predadores.
Quase 2,5 centímetros de pelo azul
A espécie é uma das maiores abelhas da Ásia e chega a quase uma polegada de comprimento. O abdome é escuro e brilhante, a parte de cima do corpo é azul-cerúleo, e as asas são semitransparentes, com tom amarronzado.

As fêmeas têm os pelos azuis. Os machos costumam ser mais amarronzados. Apenas as fêmeas têm ferrão, mas a abelha é calma com as pessoas e só pica se for apertada ou pisada.
Ela aparece em florestas tropicais, bordas de mata e jardins de países como Singapura, Malásia, Indonésia, Tailândia, Mianmar, Índia e sul da China. Onde há flores e madeira adequada para o ninho, ela prospera.

Sem rainha, sem colmeia, com vizinhas
Esqueça a imagem da colmeia com rainha e operárias. Cada fêmea cuida do próprio ninho, escavando túneis com as mandíbulas fortes em madeira morta, troncos ou bambu. Lá dentro, ela põe os ovos e alimenta as larvas com uma mistura de pólen e néctar conhecida como pão de abelha.
O detalhe curioso é que várias fêmeas costumam usar o mesmo pedaço de madeira. Elas dividem a entrada do túnel em paz, como moradoras de um mesmo prédio, mas cada uma mantém seu quarto de criação separado.

Polinizadora e ladra de néctar
A abelha é uma polinizadora importante para matas nativas e jardins da região. Ela pratica a polinização por vibração: agarra a flor e faz os músculos de voo tremerem rapidamente para soltar o pólen preso, que outros insetos não alcançam.
Mas nem sempre segue as regras. Diante de flores de acesso difícil, ela pode virar ladra de néctar. Em vez de entrar pela abertura, usa as peças bucais afiadas para cortar a lateral ou a base da flor e beber o néctar direto, sem tocar nas estruturas que coletam pólen.
O segredo está na barriga
Durante muito tempo, supôs-se que abelhas solitárias não tinham as bactérias intestinais estáveis e especializadas de espécies sociais, como as abelhas-do-mel e os mamangavas. Um estudo de 2023 na Frontiers in Microbiology contrariou essa ideia.
Segundo a pesquisa, a abelha-carpinteira-azul abriga um grupo consistente de microrganismos benéficos que ajudam a quebrar açúcares e gorduras complexos do pólen e do néctar. Como não vivem em colmeias, os cientistas acreditam que os micróbios passem de uma abelha a outra pelo compartilhamento dos túneis e pela convivência próxima.
E o que isso tem a ver com a Amazônia?
A espécie é asiática e não ocorre na região amazônica. Ainda assim, a Amazônia tem as suas abelhas-carpinteiras, do mesmo gênero Xylocopa, que também nidificam em madeira morta e polinizam por vibração. A história da abelha azul mostra por que vale olhar com atenção para as abelhas solitárias de cá: talvez elas também guardem segredos sobre cor, convivência e microbiota ainda por descobrir.
Os pesquisadores seguem estudando como a vida em ninhos compartilhados molda a saúde desses insetos, o que deve render novas pistas sobre o papel das abelhas solitárias na polinização de florestas tropicais.
Com informações de A-Z Animals.
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