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Abelhas abrem atalhos numa flor vermelha da Amazônia, beija-flores usam…

Cientistas subiram 35 metros numa floresta amazônica, acompanharam 535 espécies de besouros e descobriram que a maioria troca o dia pela noite no alto das árvores

Durante o dia, a copa de uma floresta amazônica parece pertencer ao sol. Folhas recebem radiação direta, flores se abrem e a parte mais alta das árvores alcança temperaturas que não chegam ao chão. Quando escurece, o cenário muda: a superfície perde calor, a umidade cresce e a condensação cobre a vegetação. O que os olhos humanos raramente percebem é que também acontece uma troca de turno entre centenas de espécies de besouros.

Para alcançar esse mundo, pesquisadores usaram uma torre-guindaste de 42 metros instalada perto de um rio de águas escuras na região do Alto Orinoco, dentro da grande província biogeográfica ligada às florestas do Negro e do Japurá. A estrutura corria sobre trilhos de 120 metros, girava com um braço de 40 metros e levava uma gôndola até árvores de 35 metros. Em vez de observar a copa de baixo, os cientistas entravam nela.

Ao longo de um ano acumulado de amostragens, foram coletados 6.738 besouros adultos associados a 23 espécies de árvores. Eles foram separados em 862 espécies ou morfoespécies, pertencentes a 45 famílias. Para 535 espécies, representadas por 5.948 indivíduos, foi possível determinar se a atividade ocorria de dia, à noite ou nos dois períodos.

O resultado contrariou a impressão de que a copa seria mais movimentada sob a luz. Das espécies classificadas, 281, ou 52,5%, eram noturnas. Outras 198, ou 37%, eram diurnas. Apenas 56 apareceram ativas nos dois turnos.

O número de indivíduos enganava sobre a diversidade

Se a comparação considerasse somente a quantidade de besouros, dia e noite pareceriam quase empatados. Foram 1.983 indivíduos diurnos e 2.024 noturnos, além daqueles encontrados nos dois períodos. A diferença aparecia no número de espécies. À noite, a mesma quantidade aproximada de indivíduos representava uma variedade maior.

Isso mostra por que abundância e diversidade não são sinônimos. Um único tipo de besouro pode aparecer centenas de vezes e inflar a contagem diurna. No turno noturno, muitos tipos diferentes podem surgir em números pequenos. Para compreender a comunidade, é preciso registrar quem está presente, e não apenas quantos animais caíram numa armadilha.

A temperatura no alto da mata variava quase 10 °C entre os períodos, enquanto o chão permanecia mais estável. Durante o dia, a copa podia alcançar cerca de 30,5 °C; à noite, caía para 20 ou 21 °C. Para um inseto minúsculo, exposto sobre uma folha, essa mudança altera perda de água, gasto de energia e risco de superaquecimento.

Cada árvore montava seu próprio turno de trabalho

Os besouros não respondiam apenas ao relógio. A oferta de alimento mudava o quadro. Algumas árvores em floração atraíam mais espécies diurnas; outras recebiam maioria noturna. Em árvores com nectários extraflorais, estruturas que liberam açúcar fora das flores, os visitantes apareceram principalmente à noite.

Esse detalhe é importante porque o néctar extrafloral não serve diretamente à reprodução da planta. Ele funciona como alimento capaz de atrair animais, muitas vezes formigas que defendem folhas contra herbívoros. Besouros também usam o recurso. Duas espécies de árvores foram ocupadas exclusivamente à noite por insetos que se alimentavam desse néctar durante um período de aproximadamente três semanas.

Visitantes de flores e nectários geralmente chegavam apenas no horário de atividade e não permaneciam descansando na árvore. Já muitos comedores de folhas podiam ser encontrados tanto de dia quanto à noite, mesmo que a alimentação se concentrasse em um turno. Algumas inflorescências densas funcionavam como abrigo, dificultando separar atividade de repouso.

As famílias também carregavam preferências. Besouros Buprestidae mostraram atividade clara durante o dia; Elateridae, conhecidos pelo mecanismo que produz um estalo e lança o corpo, foram principalmente noturnos. Carabidae e Tenebrionidae se concentraram na noite, enquanto Mordellidae apareceram mais sob a luz.

As formigas podem ajudar a explicar o turno da noite

Uma hipótese para a vantagem noturna envolve predadores. Formigas são extremamente abundantes na copa e podem concentrar ataques durante o dia. Trabalhos anteriores indicaram que elas responderam por grande parte das investidas predatórias observadas em determinados sistemas e foram mais agressivas no período claro. Mudar o horário de atividade pode permitir que besouros reduzam encontros perigosos.

Não existe, porém, uma explicação única. Tolerância ao calor, umidade, tipo de alimento, história evolutiva de cada família e presença de predadores se combinam. O horário também reduz a competição: duas espécies podem usar a mesma árvore e o mesmo recurso sem se encontrar se uma chega pela manhã e outra depois do pôr do sol.

O levantamento traz ainda uma lição sobre o modo como conhecemos a Amazônia. Pesquisas realizadas apenas de dia enxergam uma floresta incompleta. Mais da metade das espécies com horário definido naquele dossel era noturna. Uma coleta feita ao meio-dia poderia registrar muitos indivíduos e, ainda assim, perder uma parte maior da diversidade.

A torre transformou essa ausência em dado. Ao subir até a copa e repetir observações nos dois turnos, os cientistas viram que as árvores não encerram o expediente quando escurece. Elas recebem outra comunidade. Em termos de espécies de besouros, a noite não é o intervalo: é o turno mais diverso.

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