
Estudo de pesquisadores brasileiros revela o potencial inovador do veneno de jararacas na luta contra a resistência do parasita Schistosoma mansoni.
Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Butantan revolucionam a pesquisa na área da saúde ao testar a eficácia de venenos de serpentes do gênero Bothrops, que inclui a jararaca, contra o Schistosoma mansoni, parasita causador da esquistossomose. Em experimentos laboratoriais, esses venenos demonstraram a capacidade de diminuir a locomoção, fixação e viabilidade dos vermes, além de interromper a postura de ovos. A descoberta oferece uma nova esperança para o desenvolvimento de tratamentos inovadores para a doença, especialmente em face da crescente resistência do parasita aos medicamentos existentes.
A esquistossomose é a segunda doença tropical mais incidente no mundo, afetando cerca de 200 milhões de pessoas após a malária. Conforme Murilo Sena Amaral, líder do estudo e pesquisador do Instituto Butantan, “A forma visceral da doença, popularmente conhecida como ‘barriga d’água’, é causada na América Latina e África Subsaariana pelo verme Schistosoma mansoni, objeto desta pesquisa”.
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⭐ Adicionar Revista AmazôniaA Luta Contra a Resistência Parasitária
O único medicamento atualmente disponível para o tratamento da doença, o praziquantel, é usado preventivamente em regiões endêmicas. No entanto, segundo Amaral, “esse uso em larga escala pode atuar como uma pressão seletiva para o verme, selecionando, ao longo do tempo, linhagens do verme parasita que sejam menos sensíveis ou até resistentes à terapia medicamentosa”. A redução da suscetibilidade do S. mansoni ao praziquantel já é uma realidade em laboratório e observada em populações humanas, onde são necessárias doses maiores para a cura. Este cenário sublinha a urgência de novas terapias para combater a resistência.
Para o estudo, foram utilizados venenos de oito espécies de serpentes brasileiras do gênero Bothrops: Bothrops jararaca (jararaca), Bothrops moojeni (caiçaca ou jararaca-do-cerrado), Bothrops jararacussu (jararacuçu), Bothrops atrox (jararaca-do-norte), Bothrops brazili (jararaca-vermelha), Bothrops cotiara (cotiara), Bothrops leucurus (jararaca-de-rabo-branco) e Bothrops neuwiedi (jararaca-pintada). Essas espécies, presentes em biomas diversos do Brasil, incluindo a Amazônia, são valorizadas por possuírem venenos com uma vasta gama de moléculas com potencial atividade biológica.
Como os Venenos Atuam
Os pesquisadores investigaram como os venenos afetam os processos vitais do parasita, focando também nos RNAs longos não codificadores de proteínas, que possuem papel regulatório na reprodução e equilíbrio fisiológico do verme. O objetivo é identificar novos alvos terapêuticos. Segundo Murilo Sena Amaral, “O veneno de B. moojeni foi o mais impactante, reduzindo a locomoção, a capacidade de fixação e a viabilidade dos vermes, além de interromper quase totalmente a postura de ovos pelos parasitas”. O veneno de B. jararacussu também mostrou resultados significativos na redução da postura de ovos.
A análise dos genes expressos pelos vermes machos e fêmeas após a exposição aos venenos revelou um “colapso sistêmico nos vermes machos”, que apresentaram muito mais genes afetados do que as fêmeas. Os genes impactados nos machos estão envolvidos em processos essenciais como divisão celular e transmissão de impulsos nervosos. As fêmeas, por sua vez, tiveram diferenças de expressão em genes ligados à reprodução. A pesquisa sugere que os machos podem ser mais sensíveis aos venenos, possivelmente devido à maior exposição física ou à composição de seu tegumento.
Próximos Passos na Pesquisa
Este estudo representa uma etapa fundamental na pesquisa básica, apontando potenciais alvos terapêuticos que serão explorados em investigações futuras. As próximas fases incluem aprofundar a compreensão da função desses RNAs na biologia do parasita e, posteriormente, desenvolver moléculas sintéticas para desativar essas funções essenciais. Somente após testes bem-sucedidos em laboratório e organismos vivos, e rigorosos ensaios clínicos em humanos, esses novos fármacos poderão ser disponibilizados à população. A equipe do estudo incluiu Marina Zenga Carrenho e Agatha Fischer Carvalho, estudantes de graduação do Instituto de Biociências (IB) da USP, e contou com a colaboração de pesquisadores como Sergio Verjovski Almeida e Solange Serrano.
Perguntas Frequentes
O que é esquistossomose?
A esquistossomose é uma doença tropical causada por vermes trematódeos do gênero Schistosoma, sendo o Schistosoma mansoni o principal causador da forma visceral da doença na América Latina e África Subsaariana.
Por que o estudo com veneno de serpentes é importante?
O estudo é crucial porque o parasita da esquistossomose tem desenvolvido resistência ao único medicamento disponível atualmente, o praziquantel. A pesquisa com venenos de serpentes abre portas para novas terapias inovadoras e eficazes.
Quais os próximos passos para o desenvolvimento de um novo medicamento?
As próximas etapas envolvem compreender a fundo a função dos RNAs regulatórios no parasita, desenvolver moléculas sintéticas para desativá-los, e então realizar testes rigorosos em laboratório, em organismos vivos, e ensaios clínicos em humanos antes de qualquer aplicação populacional.
Com informações de Jornal da USP.
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