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Abelhas expostas a pesticidas podem revelar danos ambientais antes que o impacto chegue à agricultura

Abelhas expostas a pesticidas podem revelar danos ambientais antes que o impacto chegue à agricultura
Ilustração: IA

Revisão internacional mostra que alterações no comportamento, na imunidade e na microbiota das colônias funcionam como sinais de alerta.

Uma colônia de abelhas pode funcionar como um painel vivo da qualidade ambiental ao redor do apiário. Quando os insetos passam a se orientar pior, adoecem com mais frequência ou apresentam alterações reprodutivas, o sinal pode estar relacionado não apenas a um produto químico, mas à combinação de pesticidas, falta de alimento, patógenos e outras pressões ecológicas. Essa é a principal conclusão de uma revisão publicada em 2026 na revista Environmental Toxicology and Pharmacology.

O trabalho analisou a abelha europeia, Apis mellifera, como espécie sentinela. O termo é usado para animais capazes de indicar mudanças no ambiente antes que os efeitos se tornem amplos ou facilmente perceptíveis em toda a paisagem. A proposta interessa diretamente à agricultura, à conservação da biodiversidade e à segurança alimentar, porque as abelhas transportam pólen entre flores e dependem de diferentes recursos naturais para sobreviver.

O alerta aparece antes da morte da colônia

Um dos pontos centrais da revisão é que a toxicidade ambiental não deve ser avaliada apenas pela quantidade de abelhas mortas. Doses menores de pesticidas podem produzir efeitos subletais, aqueles que não matam imediatamente, mas interferem em funções essenciais do organismo e da colônia.

Entre os efeitos analisados estão mudanças na navegação, no comportamento, na resposta imunológica, na reprodução e na microbiota intestinal. A exposição também pode reduzir a capacidade de uma colônia lidar com novas ameaças. Um enxame aparentemente ativo, portanto, pode já estar sob pressão mesmo sem apresentar mortalidade elevada.

Segundo a Sbarro Health Research Organization, a saúde das abelhas pode refletir a interação entre exposição química, nutrição, agentes infecciosos e condições ecológicas em 2026, conforme a revisão publicada na Environmental Toxicology and Pharmacology.

Por que vários estressores mudam a leitura

Na prática, o mesmo pesticida pode ter efeitos diferentes conforme o estado nutricional dos insetos, a presença de parasitas e a disponibilidade de flores. Uma colônia cercada por monoculturas, por exemplo, pode encontrar alimento em grande quantidade durante um período curto, mas enfrentar escassez quando a florada termina. A ausência de diversidade também pode limitar a qualidade da dieta.

Essa combinação dificulta a identificação de uma causa isolada. A revisão chama atenção para possíveis interações entre substâncias químicas e estressores biológicos. O problema não é somente saber se um composto está presente, mas observar como o conjunto de pressões altera a resistência do grupo ao longo do tempo.

O conceito aproxima a pesquisa do modelo One Health, ou Saúde Única, que relaciona saúde humana, saúde animal e equilíbrio dos ecossistemas. Para os autores, acompanhar as abelhas pode oferecer uma leitura integrada do ambiente e ajudar a detectar efeitos biológicos antes que eles se transformem em perdas mais amplas na produção agrícola ou na biodiversidade.

Abelhas expostas a pesticidas podem revelar danos ambientais antes que o impacto chegue à agricultura
Foto: <i>Environmental Toxicology and Pharmacology</i>

Como o monitoramento pode funcionar

Abelhas operárias circulam por uma área extensa em busca de néctar, pólen e água. Durante essas atividades, entram em contato com elementos presentes em lavouras, jardins, áreas naturais e fontes hídricas. O retorno para a colônia transforma esses contatos dispersos em informações concentradas no conjunto de insetos.

Pesquisadores e produtores podem observar a sobrevivência das colônias, a atividade de voo, o comportamento, a reprodução e sinais de doenças. Também é possível investigar resíduos químicos e alterações na microbiota. A utilidade do método está justamente em combinar indicadores, em vez de depender de uma única medição.

Antonio Giordano, fundador e diretor da SHRO e professor da Temple University, afirma que proteger as abelhas significa preservar os sistemas ecológicos que sustentam a agricultura, a biodiversidade e a saúde humana. Giovanna Liguori, diretora executiva do One Health Group da organização, avalia que as colônias podem atuar como um sistema de alerta precoce para mudanças ambientais.

O que a descoberta significa para a Amazônia

Na Amazônia, a abordagem pode ser útil para comparar diferentes paisagens, desde áreas de produção agrícola até fragmentos de floresta, zonas periurbanas e regiões próximas a atividades extrativas. O princípio não depende de uma única cultura ou de um país específico. Ele pode orientar estudos em estados como Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, desde que o monitoramento seja adaptado às espécies de abelhas, às floradas e às condições locais.

A conexão é especialmente relevante porque a região reúne ambientes muito distintos e uma grande variedade de plantas visitadas por polinizadores. Abelhas nativas sem ferrão também têm importância ecológica e econômica na Amazônia, mas a revisão analisou especificamente Apis mellifera. Por isso, os resultados não devem ser transferidos automaticamente para todas as espécies locais. Eles servem como base para novas pesquisas e para sistemas de vigilância ambiental mais amplos.

Para agricultores, o acompanhamento pode ajudar a identificar períodos de maior risco e orientar práticas de manejo. A adoção de controle integrado de pragas, a proteção de recursos florais, a oferta de alimentação adequada e a redução de aplicações durante a atividade de voo estão entre as estratégias apontadas pelos autores para fortalecer a resistência das colônias.

O próximo passo é avaliar a resistência do conjunto

A revisão não apresenta as abelhas como um medidor simples, capaz de apontar sozinho a origem de toda contaminação. O comportamento de uma colônia é influenciado por clima, disponibilidade de alimento, doenças, manejo e características da paisagem. A interpretação exige dados combinados e acompanhamento contínuo.

O estudo recomenda superar a visão centrada em um único contaminante e avaliar a saúde ambiental a partir da soma dos fatores que afetam a colônia. A pesquisa completa, intitulada “Sublethal pesticide effects, synergistic interactions and resilience strategies in honey bees (Apis mellifera): A narrative review”, pode ser consultada no artigo científico com DOI 10.1016/j.etap.2026.105142.

A ampliação desse tipo de monitoramento deverá depender de estudos de campo, protocolos comparáveis e integração entre produtores, universidades, órgãos ambientais e serviços de saúde. Esses serão os próximos passos para transformar o comportamento das colônias em uma ferramenta regular de vigilância dos ecossistemas.

Com informações de Sbarro Health Research Organization (SHRO).

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