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Há mais de 120 milhões de anos, abelhas do sul do planeta iniciaram uma viagem pelos continentes

Há mais de 120 milhões de anos, abelhas do sul do planeta iniciaram uma viagem pelos continentes
Foto: acervo

DNA de espécies atuais e fósseis ajudou pesquisadores a reconstruir a origem e a dispersão desses polinizadores.

Antes de ocupar jardins, florestas e plantações de diferentes continentes, as abelhas viveram apenas no sul do planeta. Essa história começou há mais de 120 milhões de anos, na América do Sul e na África, e foi reconstruída por pesquisadores a partir de uma combinação de DNA de espécies atuais e informações preservadas em fósseis.

O estudo foi liderado pelo professor Eduardo Almeida, da Universidade de São Paulo, e publicado em 2023 na revista científica Current Biology. O trabalho reconstituiu quando esses insetos apareceram, por quais caminhos se espalharam e como a antiga distribuição das massas terrestres influenciou a diversidade de abelhas e plantas que existe hoje.

O passado ficou escondido no DNA e nas rochas

A pesquisa funciona como uma reconstrução histórica feita com pistas de naturezas diferentes. O material genético das abelhas vivas permite comparar parentesco entre espécies. Já os fósseis ajudam a situar determinados grupos no tempo e no espaço. Quando as duas evidências são analisadas juntas, os cientistas conseguem estimar a idade de linhagens e testar possíveis rotas de dispersão.

Segundo o estudo liderado por Eduardo Almeida, as primeiras abelhas surgiram no hemisfério sul há mais de 120 milhões de anos, antes de se espalharem para áreas ao norte. Essa mudança não aconteceu de uma vez. Ela foi favorecida pelas transformações na posição e na conexão entre as massas continentais ao longo de milhões de anos.

Entre os registros que ajudam a contar a história das abelhas está um fóssil da Formação Crato, no Ceará. O achado integra o conjunto de evidências paleontológicas que mostra como o território brasileiro também participa da história profunda desses polinizadores.

Uma viagem que dependeu da geografia antiga

Um dos exemplos analisados no trabalho está na Austrália. A distribuição das abelhas no país não é uniforme: há áreas com grande variedade de abelhas e plantas, enquanto outras apresentam uma queda acentuada nessa diversidade. Para os pesquisadores, parte dessa diferença pode ser explicada olhando para a configuração do planeta em um passado remoto.

Quando América do Sul, Antártica e Austrália ainda mantinham uma conexão, abelhas puderam migrar por esse conjunto de terras. A passagem, porém, não alcançou todos os pontos do território australiano da mesma maneira. O resultado foi uma distribuição desigual, que permaneceu associada à evolução das plantas e dos polinizadores em cada ambiente.

Essa conclusão ajuda a explicar por que a presença de muitas espécies de abelhas costuma acompanhar uma flora igualmente diversa. Ao visitar flores em busca de alimento, as abelhas transportam pólen entre plantas. Esse serviço ecossistêmico favorece a reprodução vegetal e contribui para a manutenção de comunidades inteiras.

Há mais de 120 milhões de anos, abelhas do sul do planeta iniciaram uma viagem pelos continentes
Foto: Divulgação

O que a origem das abelhas revela sobre a biodiversidade

A origem geográfica dos primeiros grupos não é apenas uma curiosidade evolutiva. Ela mostra que a biodiversidade atual é resultado de uma longa sequência de migrações, separações entre populações e adaptações às condições de cada lugar. Plantas e abelhas evoluíram em contato por milhões de anos, criando relações específicas em diferentes paisagens.

Quando uma população de polinizadores desaparece, o impacto pode ultrapassar a perda daquela espécie. Algumas plantas dependem de determinados insetos para produzir sementes e frutos. Em sentido contrário, a redução da vegetação também diminui os locais de abrigo e as fontes de alimento disponíveis para as abelhas.

A polinização ainda tem efeitos diretos sobre a produção de alimentos. Além de contribuir para lavouras, a criação de abelhas pode gerar produtos como mel e própolis. Por isso, conservar esses insetos significa proteger simultaneamente ecossistemas, plantas cultivadas e atividades econômicas ligadas à produção rural.

Por que esse passado importa para a Amazônia

Na Amazônia, a conexão entre flora e polinizadores ganha uma dimensão especialmente importante. A região reúne ambientes diferentes, áreas de floresta, zonas rurais e paisagens submetidas a mudanças no uso da terra. Em todos esses cenários, a conservação das abelhas ajuda a manter a reprodução de plantas e a capacidade de regeneração da vegetação.

O tema também se relaciona com as abelhas sem ferrão, grupo muito diverso no Brasil e associado às plantas de diferentes biomas. Para comunidades e produtores dos estados amazônicos, a meliponicultura pode unir conservação e geração de renda, desde que a criação respeite as espécies locais, a oferta de alimento e as condições naturais de cada ambiente.

A lição do estudo vale para toda a região Norte: não basta preservar o inseto isoladamente. É preciso manter árvores, flores, áreas de nidificação e corredores que permitam o deslocamento das abelhas. A perda de vegetação pode interromper relações construídas ao longo de uma história evolutiva muito mais antiga que a ocupação humana.

Uma história reconstruída peça por peça

O trabalho não descreve uma única viagem feita por uma espécie específica, mas a trajetória evolutiva de diferentes linhagens. A combinação entre dados genéticos e fósseis permite montar uma árvore de parentesco e posicionar seus ramos no tempo. Com isso, os pesquisadores conseguem comparar a história das abelhas com a formação dos continentes e com a diversificação das plantas.

Essa abordagem também explica por que a ciência precisa reunir áreas distintas. A genética oferece pistas sobre relações entre espécies vivas. A paleontologia registra formas antigas que já não existem. A biogeografia, por sua vez, ajuda a entender como clima, oceanos e continentes influenciaram a ocupação de cada território.

A pesquisa foi divulgada em 17 de agosto de 2023 pela organização Meli, com base no artigo “The evolutionary history of bees in time and space”, de Eduardo AB Almeida e outros autores. A conservação das abelhas e a restauração dos ambientes onde elas vivem seguem como os próximos passos para transformar esse conhecimento sobre o passado em proteção da biodiversidade no presente.

Com informações da Universidade de São Paulo.

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