Alcatrazes já foi alvo de tiros da Marinha; dez anos depois de virar refúgio, o arquipélago de SP virou lugar de acasalamento de um tubarão criticamente ameaçado

Alcatrazes já foi alvo de tiros da Marinha; dez anos depois de virar refúgio, o arquipélago de SP virou lugar de acasalamento de um tubarão criticamente ameaçado
Foto: Saul Grinberg/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). A ilha principal do arquipélago de Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo.

O arquipélago de Alcatrazes, a cerca de 35 quilômetros de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, passou décadas servindo de alvo para exercícios de tiro da Marinha. Em 2 de agosto de 2016, um decreto transformou a área em Refúgio de Vida Silvestre, sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Dez anos depois, pesquisadores registram ali acasalamento e gestação do tubarão-mangona (Carcharias taurus), espécie criticamente ameaçada de extinção.

O resultado foi publicado em 2026 no Journal of Fish Biology por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Vicente e do Instituto de Pesca, com apoio da FAPESP e da Petrobras.

De alvo a refúgio

Durante anos, a ilha principal de Alcatrazes recebeu disparos de navios de guerra em treinamento. Em 2013, numa audiência pública, os militares aceitaram encerrar os tiros na ilha principal. Em troca, a Ilha da Sapata ficou fora do refúgio e continua sendo área de treinamento. Um acordo de 2019 entre a Marinha e o ICMBio limitou esses exercícios ao período de novembro a abril, para reduzir o impacto sobre as aves que fazem ninho no arquipélago.

Com o decreto de 2016, a pesca e outras atividades passaram a seguir regras de proteção e fiscalização. Segundo o ICMBio, o arquipélago reúne mais de 1.300 espécies descritas de fauna e flora, das quais pelo menos 93 estão sob algum grau de ameaça de extinção. Ali fica também o maior ninhal de fragatas do Atlântico Sul.

Agentes do ICMBio relatam que, há uma década, dezenas de barcos de pesca ficavam ancorados ao redor das ilhas, e que peixes grandes e predadores, como tubarões, cações e garoupas, começam a reaparecer com a proteção. A pesca ilegal, sobretudo à noite, ainda é um desafio para a fiscalização.

O tubarão que escolheu Alcatrazes

Até agora, os estudos indicavam que os tubarões-mangona acasalavam na Argentina, no Uruguai e no sul do Brasil e só depois migravam para o Sudeste, em águas mais quentes, para a gestação e o parto. Em Alcatrazes, os pesquisadores registraram uma fêmea com marcas recentes de acasalamento no verão e outra grávida no inverno.

“Mostramos que eles estão aqui não apenas no inverno, como se pensava, mas também no verão, realizando todo o ciclo reprodutivo em águas brasileiras”, disse a pesquisadora Ana Clara Athayde, do Instituto do Mar da Unifesp e primeira autora do estudo, em texto da Agência FAPESP.

O professor Fabio Motta, da Unifesp, coordenador do projeto, lembra que havia registros históricos de mangonas capturados por acidente na costa paulista, mas nenhum registro científico até o feito pela equipe no inverno de 2022, em Alcatrazes.

Câmeras com isca e mergulhadores

A maior parte das imagens veio de câmeras subaquáticas com isca, deixadas no fundo por cerca de uma hora. Entre 2022 e 2025, os equipamentos foram colocados na água 315 vezes, em 38 pontos do arquipélago, de 2 a 50 metros de profundidade, dentro do programa Mar de Alcatrazes, de monitoramento da biodiversidade.

Mergulhadores recreativos também ajudaram. O biólogo e condutor de mergulho Guilherme Bertuzo, coautor do artigo, filmou nove tubarões-mangona no verão de 2024, entre 5 e 10 metros de profundidade. Para saber há quanto tempo as fêmeas tinham acasalado, a equipe analisou a cicatrização das marcas de mordida que os machos deixam durante a cópula.

Um tubarão que se reproduz devagar

O mangona tem uma reprodução incomum. Ainda dentro do útero, os filhotes se alimentam de óvulos e até de irmãos menores, o chamado canibalismo intrauterino. Por isso, cada gestação, que dura de 9 a 12 meses e pode ocorrer a cada dois anos, gera normalmente só dois filhotes, que nascem com cerca de 90 centímetros.

Com tão poucos filhotes, a espécie não suporta a pressão da pesca, da poluição e da perda de habitat. Em 2025, Alcatrazes foi reconhecida como Área Importante para Tubarões e Raias, num programa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Para os pesquisadores, o arquipélago, a Laje de Santos e a Ilha da Queimada Grande podem formar um corredor de proteção para o mangona, que é migratório. “Nossos resultados reforçam a importância dessa unidade de conservação em particular, mas também de outras áreas onde a pesca é controlada”, afirmou Motta.

Perguntas frequentes

Quando Alcatrazes virou área protegida?

Em 2 de agosto de 2016, com a criação do Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, gerido pelo ICMBio.

A Marinha ainda faz exercícios de tiro na região?

Na ilha principal, não. A Ilha da Sapata ficou fora do refúgio e segue como área de treinamento, com exercícios limitados a alguns meses do ano.

O que o estudo descobriu sobre o tubarão-mangona?

Que fêmeas acasalam e gestam no arquipélago, no verão e no inverno, completando o ciclo reprodutivo em águas brasileiras.

Dá para visitar Alcatrazes?

Sim, com regras. A visitação e o mergulho são ordenados pelo ICMBio, que define onde e como as embarcações podem operar.

Com informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Agência FAPESP e do estudo “Subtropical marine reserve as key habitats for the critically endangered sand tiger shark (Carcharias taurus) in the Southwestern Atlantic”, publicado no Journal of Fish Biology.

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