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Fungos de solos da Caatinga resistem a 40 °C e podem ajudar no controle de doenças agrícolas

Fungos de solos da Caatinga resistem a 40 °C e podem ajudar no controle de doenças agrícolas
Ilustração: IA

Estudo encontrou 14 isolados capazes de enfrentar patógenos e calor, mas a aplicação comercial ainda depende de testes em campo.

Enquanto o calor avança sobre áreas agrícolas e reduz a eficiência de microrganismos usados no campo, fungos retirados de solos da Caatinga apresentaram uma vantagem incomum: parte deles continuou crescendo sob temperaturas de até 40 °C. O estudo, realizado com amostras de áreas nativas e lavouras irrigadas de melão na Bahia e no Piauí, identificou 14 isolados do gênero Trichoderma capazes de combater organismos associados a podridões e murchas em plantas.

O resultado não significa que um novo biofungicida já esteja pronto para uso. Ele aponta, porém, para uma fonte brasileira de microrganismos selecionados pela própria natureza em um ambiente de pouca chuva, alta temperatura e grande variação térmica. Em vez de buscar soluções desenvolvidas para climas mais amenos, a pesquisa procura no semiárido organismos que já chegam ao laboratório com características compatíveis com o estresse climático.

O calor separou os fungos mais promissores

Os pesquisadores compararam o desenvolvimento dos isolados a 25 °C, 30 °C, 35 °C e 40 °C. Em temperaturas mais baixas, o crescimento foi semelhante. A diferença se tornou mais evidente a partir de 35 °C, quando os fungos coletados em solos agrícolas demonstraram tolerância superior à observada entre os organismos de áreas de vegetação nativa.

Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides e Trichoderma virens, quando provenientes das plantações de melão, foram os que mais se destacaram sob estresse térmico. A hipótese dos autores é que a exposição frequente ao ambiente agrícola irrigado da Caatinga tenha favorecido linhagens mais ajustadas a temperaturas elevadas e oscilações ambientais.

Segundo a Embrapa Meio Ambiente, o estudo realizado com isolados de Trichoderma da Bahia e do Piauí mostrou tolerância ao calor de até 40 °C e atividade contra cinco organismos causadores de doenças agrícolas.

Uma guerra microscópica contra cinco patógenos

O interesse pelo Trichoderma está ligado à variedade de estratégias que esses fungos podem usar no solo. Eles disputam nutrientes e espaço, crescem sobre outros fungos e liberam substâncias capazes de limitar o desenvolvimento de microrganismos prejudiciais. Também podem estimular mecanismos naturais de defesa das plantas e favorecer a tolerância a condições como seca e salinidade.

Nos ensaios, os isolados foram colocados em confronto com Fusarium sulawesiense, Fusarium solani, Macrophomina phaseolina, Rhizoctonia solani e Pythium myriotylum. Os quatro primeiros são fungos, enquanto Pythium pertence ao grupo dos oomicetos, organismos filamentosos que se assemelham aos fungos e também provocam doenças no solo.

A reação não foi igual para todos os inimigos. Contra Rhizoctonia solani e Macrophomina phaseolina, o contato direto foi a principal arma. Os Trichoderma avançaram sobre as colônias dos patógenos por competição e micoparasitismo, processo em que um fungo utiliza outro como fonte de nutrientes.

Já diante de Pythium myriotylum e de espécies de Fusarium, sobretudo Fusarium solani, ganharam importância os compostos voláteis liberados pelos isolados. Em determinados testes, essas substâncias reduziram em mais de 70% o crescimento do patógeno mesmo sem que os microrganismos entrassem em contato.

O melhor contra a doença não foi o melhor para a fábrica

O isolado mais equilibrado foi Trichoderma koningiopsis, que apresentou desempenho consistente contra todos os patógenos avaliados e em diferentes mecanismos de antagonismo. Trichoderma virens também teve alta atividade, mas com resultados menos uniformes.

A pesquisa revelou uma dificuldade que costuma desaparecer quando se fala em produtos biológicos: eficiência no laboratório não é a mesma coisa que viabilidade industrial. Para se transformar em biofungicida, o microrganismo precisa ser produzido em grande quantidade, manter estabilidade e sobreviver depois da aplicação.

Por isso, os cientistas também mediram a produção de conídios, estruturas reprodutivas usadas na fabricação desses produtos. Cultivados em arroz parboilizado durante dez dias, isolados de Trichoderma asperelloides e Trichoderma asperellum produziram mais de 1,4 bilhão de conídios por grama de substrato.

A contradição é relevante: alguns dos isolados mais agressivos contra os patógenos produziram poucos esporos. Na prática, o candidato ideal precisará combinar controle da doença, resistência ao calor e capacidade de multiplicação. São atributos diferentes, e a pesquisa mostra que eles não aparecem necessariamente no mesmo organismo.

O solo também escolhe quem permanece

As comunidades de Trichoderma encontradas na Caatinga não estavam distribuídas ao acaso. Trichoderma virens e Trichoderma asperellum apareceram associados a solos com maior fertilidade, mais fósforo e maior quantidade de matéria orgânica. Trichoderma spirale, por sua vez, esteve relacionado a ambientes mais ácidos e com maiores teores de alumínio e ferro, características observadas em áreas naturais menos manejadas.

Essa diferença ajuda a explicar por que a origem do microrganismo importa. Uma linhagem selecionada em determinado solo pode perder desempenho quando transferida para outro ambiente, mesmo que tenha funcionado bem em condições controladas. O uso agrícola exige conhecer a interação entre fungo, planta, patógeno, temperatura, umidade e composição do solo.

O que a descoberta representa para a Amazônia

Para agricultores do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a pesquisa oferece uma lição mais importante do que uma receita pronta. O fato de um Trichoderma da Caatinga tolerar calor não autoriza sua aplicação automática em solos amazônicos. Os ambientes têm regimes de chuva, umidade, matéria orgânica, acidez e comunidades microbianas diferentes.

A conexão regional está justamente na necessidade de selecionar agentes biológicos adaptados a cada território. Um produto eficaz no semiárido pode não colonizar uma raiz em área de alta umidade, assim como um microrganismo amazônico pode ter comportamento distinto quando submetido à seca. A biodiversidade dos nove estados da Amazônia Legal, portanto, também pode ser investigada, mas a transferência entre biomas precisa ser comprovada por experimentos específicos.

Gabriel Mascarin, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e um dos autores, resume o desafio: “compreender as interações ecológicas de microrganismos benéficos com patógenos é fundamental para se criar estratégias agrícolas menos dependentes de fungicidas químicos e mais resilientes às mudanças climáticas”.

Wagner Bettiol, também pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, destaca que a produção de biofungicidas à base de Trichoderma no Brasil ainda utiliza principalmente fermentação sólida em grãos de cereais. Isso coloca a capacidade de produzir esporos no centro da transição entre uma descoberta científica e um produto acessível ao agricultor.

A prova decisiva ainda será fora do laboratório

Os resultados foram obtidos em ensaios controlados, e essa é a principal limitação antes de qualquer recomendação comercial. Os próximos passos incluem testes em campo, avaliação da colonização de plantas de melão, análise de efeitos sobre crescimento e produtividade e investigação de consórcios com diferentes espécies ou isolados.

Essas combinações podem ampliar a proteção contra doenças e ajudar as plantas a lidar com estresse hídrico e térmico, mas precisam ser avaliadas para evitar competição entre os próprios microrganismos. O estudo foi divulgado pela Embrapa em 1º de setembro de 2026, e a publicação científica pode ser consultada no artigo técnico disponível online. A confirmação do desempenho em lavouras será a próxima etapa para saber se os fungos da Caatinga sairão das placas de laboratório e chegarão ao campo.

Com informações de Embrapa Meio Ambiente.

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