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Uma ave cantou numa serra do Acre por três anos…

Por 8 mil anos, povos manejaram a Amazônia, espalharam árvores úteis e deixaram pistas sob a floresta

Por 8 mil anos, povos manejaram a Amazônia, espalharam árvores úteis e deixaram pistas sob a floresta
Foto: acervo

Pesquisa arqueológica mostra que a paisagem amazônica atual também é resultado de antigas escolhas humanas.

Algumas das árvores mais conhecidas da Amazônia podem estar onde estão hoje por causa de decisões tomadas há milhares de anos. Essa é uma das conclusões do arqueólogo Eduardo Góes Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, a partir de mais de 15 anos de pesquisas sobre a ocupação humana da Amazônia Central, apresentadas em livro em 19 de agosto de 2022.

O estudo reúne vestígios que mudam a imagem de uma floresta completamente intocada antes da colonização europeia. Geoglifos, cerâmicas, solos escuros e férteis e a distribuição de espécies vegetais indicam que diferentes povos viveram, circularam e alteraram a paisagem amazônica por pelo menos 8 mil anos.

Uma floresta com marcas de quem viveu nela

Os sinais mais visíveis estão no chão. Geoglifos encontrados às centenas no Amazonas, em Rondônia, no Acre e na Bolívia formam desenhos geométricos construídos com a movimentação ou a retirada de sedimentos. Em vez de monumentos de pedra, pouco comuns na região, esses povos deixaram estruturas integradas ao próprio terreno.

Há também objetos de cerâmica sofisticados e áreas de terra preta, um solo enriquecido por restos orgânicos, carvão e outros materiais acumulados durante a ocupação humana. Em uma região cujo solo natural costuma ser pobre, esses antigos assentamentos se tornaram terrenos férteis, muitas vezes aproveitados por comunidades que vivem na floresta atualmente.

Segundo a FAPESP, pesquisas realizadas na Amazônia Central mostram que a ocupação humana da região remonta a pelo menos 8 mil anos e teve continuidade nos últimos 2.500 anos, embora com períodos de expansão e retração populacional.

O efeito aparece na composição das árvores

A principal virada proposta por Neves não está apenas nos sítios arqueológicos. Ela aparece na própria mata. Das cerca de 16 mil espécies de árvores conhecidas no bioma, 227, o equivalente a 1,4%, respondem por quase metade de todas as árvores amazônicas.

Essa concentração, chamada pelos pesquisadores de hiperdominância, não seria explicada somente por processos naturais. Ao escolher espécies úteis, proteger determinadas árvores, transportar sementes e abrir clareiras controladas, populações antigas favoreceram plantas que hoje têm grande importância econômica e cultural.

A lista inclui açaí, cacau, castanha, seringueira e cupuaçu. A presença abundante dessas espécies, portanto, pode guardar uma memória ecológica de antigos manejos. Isso não significa que toda a floresta tenha sido plantada ou que os povos do passado tenham transformado o bioma de maneira uniforme. Significa que a paisagem foi construída por uma combinação de processos naturais e práticas humanas.

Manejo não era o mesmo que domesticação

Uma diferença ajuda a entender esse processo. Domesticar uma planta envolve modificar suas características ao longo de gerações, enquanto manejar pode significar apenas cuidar, proteger ou aumentar a ocorrência de espécies que já existem na mata.

Na visão apresentada pelo pesquisador, a dependência de plantas não domesticadas não indica falta de desenvolvimento. Para algumas espécies, como açaí e castanha, era mais eficiente manter a abundância no ambiente do que transformar completamente a planta. Outras, como mandioca e cacau, passaram por processos de domesticação.

Essa interpretação também questiona o uso automático de categorias como Paleolítico, Mesolítico e Neolítico para explicar todas as sociedades humanas. Os caminhos encontrados na Amazônia não repetem necessariamente a trajetória de povos de outras partes do mundo.

Populações maiores do que a história oficial registrou

As evidências reunidas por Neves também ampliam a dimensão humana da Amazônia pré-colonial. O pesquisador estima que a região tenha abrigado entre 8 milhões e 10 milhões de pessoas em diferentes momentos, uma quantidade muito superior à imagem histórica de pequenos grupos isolados espalhados por uma mata vazia.

Os assentamentos mais populosos não seriam cidades densas como as conhecidas no Oriente Médio ou na América Central. Neves usa a expressão “urbes tropicais de baixa densidade” para descrever comunidades com alguns milhares de habitantes, conectadas por caminhos e redes de circulação cujos vestígios vêm sendo identificados pela arqueologia.

Um exemplo citado no estudo é Santarém. Quando a cidade foi fundada, em 1661, havia cerca de 6 mil indígenas no local. Segundo o arqueólogo, esse número era quatro vezes maior que a população do Rio de Janeiro naquele período.

O impacto da colonização e a lição para o presente

A chegada dos europeus provocou um colapso populacional causado por doenças, escravização e violência. O declínio foi tão profundo que ajudou a apagar da memória pública a escala da ocupação anterior. A retomada demográfica das últimas décadas ocorreu com a chegada de migrantes do Nordeste e do Sul e com uma urbanização rápida, desordenada e ambientalmente impactante.

Para a Amazônia atual, a pesquisa tem uma consequência prática. Ela mostra que proteger a floresta não exige imaginar um passado sem pessoas. Ao contrário, povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas preservam modos de vida associados ao uso cuidadoso da paisagem e também convivem com os sítios arqueológicos onde vivem.

Essa conexão alcança os nove estados da Amazônia Legal, embora os vestígios citados na pesquisa estejam concentrados principalmente na Amazônia Central e no sudoeste da região. Em áreas do Acre, de Rondônia e do Amazonas, por exemplo, geoglifos e solos antrópicos demonstram que conservação, produção e memória podem ocupar o mesmo território.

O livro Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia Central, publicado pela Editora Ubu com apoio da FAPESP, foi escrito para leitores não especializados. A pesquisa de Eduardo Góes Neves recebeu apoio da fundação em cinco projetos, além de bolsas destinadas a estudantes e pesquisadores ligados ao trabalho.

Os resultados não encerram o debate sobre o tamanho das populações antigas nem permitem transformar toda a floresta em um produto humano. Eles oferecem, porém, uma base para rever políticas e narrativas que tratam a Amazônia como espaço vazio. A arqueologia continua avançando à medida que novas áreas são estudadas e que comunidades ajudam a proteger os vestígios escondidos na mata.

Os projetos apoiados pela FAPESP podem ser consultados em páginas como a pesquisa sobre 8 mil anos de história na Amazônia Central e o estudo sobre povos indígenas e meio ambiente na Amazônia antiga.

Com informações de Agência FAPESP.

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