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Uma píton de 1,90 m que vivia solta dentro de…

Duas barragens bloquearam um rio por quase 100 anos e fizeram os salmões desaparecerem de grande parte dele; o governo comprou as hidrelétricas, derrubou os muros e os peixes voltaram a subir por mais de 110 km de habitat antes inacessível

Salmão do Pacífico salta em trecho livre do rio Elwha cercado por floresta úmida na península Olímpica
Ilustração. Salmão sobe o Elwha depois da remoção das barragens que por quase um século bloquearam o caminho entre as montanhas e o mar.

Durante gerações, o salmão do Pacífico subia o rio Elwha desde o estreito de Juan de Fuca, atravessava a floresta úmida da península Olímpica e buscava cascalho limpo nas nascentes das montanhas para desovar, até que duas paredes de concreto e aço cortaram esse percurso e transformaram o curso em trechos isolados por quase um século.

As estruturas foram erguidas no início do século XX para gerar eletricidade na região de Port Angeles, no extremo noroeste continental dos Estados Unidos, a cerca de 130 quilômetros a oeste de Seattle, e não contavam com escadas de peixe eficazes, de modo que dezenas de quilômetros de habitat de desova ficaram separados do mar e as corridas anuais despencaram.

A Elwha Dam começou a operar em 1913 e a Glines Canyon Dam em 1927, ambas no interior do que hoje integra o Olympic National Park, e o efeito foi imediato sobre chinook, coho, sockeye, pink, chum e a truta arco-íris anádroma conhecida como steelhead.

Sem passagem livre, os peixes migratórios paravam nos pés das barragens; os reservatórios afogavam o leito antigo; o sedimento que deveria alimentar barras, praias e o delta ficou preso rio acima, e a paisagem fluvial mudou de caráter por décadas enquanto a cidade e a indústria local dependiam da energia produzida ali.

A lei federal que mandou comprar e derrubar as duas usinas

Em 1992, depois de pressão de cientistas, ambientalistas e da nação indígena Lower Elwha Klallam, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Elwha River Ecosystem and Fisheries Restoration Act, ato que autorizava o governo federal a adquirir os dois projetos hidrelétricos e a removê-los de forma definitiva para restaurar o ecossistema e as pescarias nativas.

A lei fixou o preço da aquisição em 29,5 milhões de dólares (cerca de R$ 153 milhões), valor a ser pago ao proprietário e ao consumidor industrial local, a fábrica de celulose e papel de Port Angeles que dependia da eletricidade das turbinas, e exigiu estudos de custo, alternativas, cronograma de demolição e plano para o sedimento acumulado nos lagos artificiais.

O texto legal também protegia o abastecimento de água municipal e industrial, com obras de tratamento custeadas pela União, e determinava que a Bonneville Power Administration fornecesse energia de reposição para a fábrica não colapsar quando as turbinas parassem.

Para a tribo Lower Elwha Klallam, a lei autorizava recursos para compra de terras em trust destinadas a moradia, desenvolvimento econômico e atracadouro da frota de pesca comercial, reconhecendo que o rio era ao mesmo tempo patrimônio cultural, fonte de alimento e eixo de identidade para o povo que vivia na foz há séculos.

Da ordem de 1992 ao primeiro golpe de demolição em 2011

Transformar a lei em canteiro de obras levou quase duas décadas de financiamento, licenças, revisão ambiental e engenharia para lidar com o volume de sedimento represado e com a escala das estruturas, consideradas à época o maior projeto de remoção de barragens da história americana.

As licenças anuais das usinas permaneceram válidas até a transferência de título ao governo, condição que só se concretizou após longas negociações, e as equipes de demolição só chegaram ao local em 2011, quando finalmente começaram a desmontar a Elwha Dam e, em etapas, a Glines Canyon Dam.

Em 2014 o trabalho físico estava concluído: os dois muros deixaram de existir, os reservatórios esvaziaram e, pela primeira vez em cerca de cem anos, o canal principal voltou a ter continuidade desde os picos da cordilheira Olímpica até o estreito de Juan de Fuca.

O intervalo de vinte e quatro anos entre a assinatura da lei e o rio de novo livre de obstáculos marca menos um atraso simbólico do que a soma de estudos de sedimento, proteção de água potável, realocação de energia e engenharia de desmonte controlado em área de parque nacional, processo que o Times of India resume como uma das demonstrações mais claras de que restauração ecológica em grande escala, mesmo lenta e juridicamente complexa, pode entregar resultado transformador.

Quando o leito antigo reapareceu e o peixe voltou a subir

Com as barragens fora do caminho, o Elwha voltou a carregar areia, cascalho e nutrientes rio abaixo, reconstituindo barras, praias e o delta junto a Port Angeles e realimentando a costa com material que estivera preso por gerações.

Trechos que haviam ficado sob água de reservatório secaram e a vegetação nativa começou a recolonizar o solo exposto, formando de novo floresta ripária onde antes havia espelho d’água artificial; cientistas passaram a monitorar o sistema como modelo de dam removal e de recuperação de rios em escala continental.

Os salmões e as steelheads ganharam acesso a mais de setenta milhas de habitat antes bloqueado, o equivalente a dezenas de quilômetros de curso principal e afluentes de serra costeira, e voltaram a subir trechos que não alcançavam desde antes da construção das usinas.

A tribo Lower Elwha Klallam celebrou a reconexão cultural e alimentar com o rio, enquanto equipes de pesquisa acompanhavam o retorno de peixes a trechos altos, a regeneração das margens e a mudança na linha de costa, sem afirmar que todas as espécies já recuperaram os níveis anteriores às barragens, mas registrando sinais claros de que o sistema voltava a funcionar como corredor vivo entre montanha e mar.

Um rio de serra costeira que virou referência mundial

O Elwha não é um gigante de planície comparável aos grandes rios sul-americanos; é um rio de serra chuvosa, de dezenas de quilômetros de curso principal, decisivo para peixes anádromos que nascem na água doce, crescem no oceano e retornam para desovar.

Sua restauração importa porque mostra, na prática, o que acontece quando se remove o obstáculo físico e se devolve ao sedimento e ao peixe o direito de circular: o leito se reorganiza, a foz se alimenta de novo e a cadeia alimentar ligada ao salmão, que inclui ursos, aves e florestas fertilizadas por nutrientes marinhos, ganha chance de se rearmar.

No noroeste americano, a discussão sobre barragens e piracema de salmão ecoa debates familiares a quem acompanha rios represados e peixes migratórios em outras latitudes, mas o caso do Elwha se distingue por ter sido decidido por lei federal explícita de restauração ecológica, com preço de compra fixado, salvaguardas de água e energia e acompanhamento científico contínuo depois da demolição.

Mais de três décadas após o Congresso autorizar o plano, o rio segue sob monitoramento e permanece um dos exemplos mais citados no mundo de que derrubar barragem hidrelétrica, quando o objetivo é devolver habitat e continuidade fluvial, pode reabrir caminhos que pareciam fechados para sempre.

Hoje, quem percorre a península Olímpica encontra um curso que de novo liga neve, floresta temperada e mar frio sem paredes no meio do caminho, e encontra também a memória de quase cem anos de interrupção e de uma demolição que levou de 2011 a 2014 para se completar.

O salmão sobe, o sedimento desce, a vegetação ocupa o antigo fundo dos lagos e a tribo que sempre dependeu do rio vê de novo a água chegar inteira até a foz; é essa sequência concreta, e não um único dia simbólico, que justifica dizer que o Elwha finalmente voltou a fluir livre das montanhas ao mar.

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