
Poucos territórios do planeta guardam tanto potencial subestimado quanto a vasta extensão de mar territorial brasileiro, batizada com a poética e provocadora expressão “Amazônia Azul“. Uma denominação que não busca apenas chamar atenção para a grandiosidade da área, mas que também evoca a urgência de um olhar mais atento, mais estratégico, mais consciente sobre esse patrimônio.

3,6 milhões de km² de águas jurisdicionais
Estamos falando de cerca de 3,6 milhões de km² de águas jurisdicionais, com potencial expansão para 5,7 milhões de km², caso as propostas brasileiras junto à Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU sejam plenamente aceitas. Trata-se de uma superfície equivalente a mais da metade do território continental nacional. Mas ao contrário da Amazônia verde, que habita o imaginário global como ícone ambiental, a azul permanece, em grande parte, invisível.
Essa invisibilidade não é meramente simbólica. Ela se reflete em políticas públicas desconectadas do oceano, em indicadores econômicos que o ignoram, em uma ausência de narrativas nacionais sobre o mar como espaço de soberania, riqueza e futuro. E no entanto, já em 2015 e 2018, a chamada “economia do mar” brasileira foi responsável por cerca de 20% do PIB nacional.
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Um dado impressionante, mas frequentemente marginalizado. Se convertida em país, essa economia figuraria como a segunda maior da América do Sul em 2018. A equiparação com o agronegócio é inevitável: ambos são gigantes ocultos, mas à diferença do campo, o mar ainda não encontrou seu lobby, seu protagonismo simbólico e político.

As atividades econômicas marítimas são de uma diversidade surpreendente. Vão muito além do clichê da pesca. Incluem desde a exploração energética (com destaque para o pré-sal e para fontes renováveis como a energia eólica offshore) até setores menos lembrados como a biotecnologia marinha, a mineração de nódulos submarinos, a construção naval e a indústria de defesa (com projetos como o Prosub). Turismo litorâneo, aquicultura, transporte de cabotagem e longo curso, cabos submarinos que sustentam nossa comunicação com o mundo: tudo isso faz parte de um complexo oceânico que sustenta a vida econômica nacional, embora o faça nos bastidores.
Mais de 90% do comércio exterior brasileiro passa por essas águas. E mesmo assim, o que se fala da Amazônia Azul em discursos oficiais? Qual o espaço que ocupa nas escolas, nas universidades, nos noticiários? O silêncio é revelador. Há uma dissonância entre a importância estratégica desse território e o lugar simbólico que ocupa na consciência coletiva do país. Talvez por ser invisível aos olhos, o mar nunca tenha sido plenamente compreendido como parte do que nos constitui enquanto nação.
Grupo Técnico “PIB do Mar”
Mas isso está, pouco a pouco, mudando. A criação, em 2020, do Grupo Técnico “PIB do Mar” no âmbito da CIRM (Comissão Interministerial para os Recursos do Mar) é um sinal de que se começa a organizar a inteligência institucional em torno desse desafio. O primeiro passo para gerir é mensurar. Sem dados, não há estratégia. Sem estratégia, não há desenvolvimento sustentável. E esse é o conceito-chave para pensar o futuro da Amazônia Azul.
A economia azul, como vem sendo chamada, busca justamente esse equilíbrio entre crescimento econômico e preservação ecológica. O oceano é uma nova fronteira de desenvolvimento, mas também um ecossistema frágil, ameaçado por poluição, sobrepesca, acidificação e colapsos biológicos em cadeia. Crescer a partir do mar não pode repetir os erros cometidos em terra firme. É preciso criar um modelo que gere renda, empregos e inovação, sem exaurir os recursos marinhos, sem marginalizar as comunidades costeiras, sem comprometer o futuro.

Horizonte estratégico de um país
Pensar a Amazônia Azul como potência é também um exercício de imaginação política. Significa reconhecer que o mar é parte da identidade brasileira, da sua cultura, da sua soberania. Significa, também, investir em infraestrutura portuária, pesquisa oceanográfica, formação de recursos humanos, regulação inteligente. Significa incorporar o oceano às grandes agendas nacionais, do combate às desigualdades regionais à transição energética. É, enfim, trazer a dimensão azul para o centro da conversa sobre o Brasil que queremos construir.
Se a Amazônia verde simboliza a urgência ambiental, a azul pode se tornar o ícone de uma nova etapa do desenvolvimento nacional, mais inteligente, mais plural, mais sustentável. A riqueza está lá. Cabe a nós enxergá-la. E mais que isso: assumi-la como horizonte estratégico de um país que, por muito tempo, virou as costas para o mar, mas que agora é desafiado a navegar em direção ao seu futuro submerso.
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