
Mais da metade das espécies de árvores do planeta já cresce longe de onde nasceu. Segundo estudo publicado em 8 de junho de 2026 na revista científica Current Biology, 26.096 das 50.470 espécies analisadas, ou 51,7%, ocorrem fora de sua área nativa.
A pesquisa, liderada pela Universidade de Lanzhou, na China, e pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, aponta o Brasil como o maior doador e o maior receptor de árvores não nativas dentro da América do Sul.
O trabalho é o primeiro mapa global do trânsito de árvores entre regiões. Os cientistas reuniram 31,7 milhões de registros de ocorrência, cobrindo 86,3% de todas as espécies de árvores conhecidas. O resultado acende um alerta para a bioeconomia e a preservação da floresta: o que hoje parece solução de reflorestamento pode virar invasão biológica amanhã.
América do Sul concentra a maior variedade de árvores estrangeiras
O continente sul-americano tem a maior riqueza de espécies não nativas do mundo, à frente da América do Norte e da Ásia temperada. Também é o principal exportador de árvores para outros continentes.
A Europa aparece em outro extremo. Lá, 88,4% das espécies de árvores registradas são de fora, porque o continente tem poucas nativas. Na América do Sul, a proporção é de 39,2%.
Os mapas do estudo apontam o norte e o sul da Amazônia e a Mata Atlântica entre os pontos de maior concentração de árvores não nativas do planeta. A lista inclui ainda o oeste e o leste dos Estados Unidos, a América Central, os Andes tropicais, o Sudeste Asiático e a Nova Zelândia.
Brasil troca árvores com os vizinhos mais do que qualquer país
A maior parte das introduções acontece dentro do mesmo continente, e não entre continentes. Nesse fluxo interno, o Brasil é o país que mais envia e mais recebe espécies. A Colômbia aparece como o segundo maior doador, e a China como o segundo maior receptor do mundo.
Na prática, isso significa que uma árvore típica de uma região brasileira pode estar crescendo em outro bioma, plantada para madeira, sombra, paisagismo ou alimento. O próprio estudo mostra que espécies sem uso econômico têm muito menos chance de ser levadas para longe.
No Brasil, o exemplo mais visível de árvore estrangeira é o eucalipto, de origem australiana, presente em grandes plantios comerciais. Mas a pesquisa revela que o movimento entre regiões sul-americanas é ainda mais intenso do que o vindo de fora.
O perfil da árvore que viaja
Os pesquisadores identificaram um padrão nas espécies mais levadas para fora de casa. Elas tendem a ser mais altas, ter folhas mais finas e com maior área em relação ao peso e menos fósforo nas folhas. São características ligadas ao crescimento rápido.
Esse é justamente o problema. Árvores que crescem depressa e competem bem por luz são típicas das primeiras fases de ocupação de uma área aberta. Segundo os autores, a predominância desses traços indica risco de futuras invasões e de homogeneização das florestas.
O estudo também mostra que clima quente e úmido favorece a presença de espécies não nativas. Riqueza econômica e grau de modificação humana da paisagem aumentam ainda mais essa presença.
Entenda o que é dívida de invasão
Uma árvore introduzida pode levar décadas para mostrar seu lado invasor. Os cientistas chamam esse atraso de dívida de invasão. Quando o problema aparece, o controle já é caro e difícil.
Os autores citam dois casos. O ailanto, levado à Itália como planta ornamental, passou a causar danos à infraestrutura décadas depois. O pinheiro Pinus radiata, introduzido na Nova Zelândia, deixou de ser trunfo de conservação e virou ameaça em poucas décadas.
Arca de genes ou bomba-relógio
Há um lado menos óbvio nessa história. Do total de espécies que vivem fora de casa, 4.766, ou 18,3%, estão ameaçadas de extinção em sua região de origem. Nesses casos, a população plantada longe pode funcionar como uma arca genética.
O ginkgo é o exemplo clássico citado no estudo. A espécie tem poucas populações selvagens nas montanhas Tianmu, na China, mas sobrevive em cultivo no mundo todo. Sementes de populações introduzidas podem servir, no futuro, para repovoar as áreas de origem.
O desafio, segundo os autores, é equilibrar as duas pontas. Proteger espécies ameaçadas sem abrir espaço para invasões que deslocam a flora nativa.
O que está em jogo na Amazônia
Os pesquisadores fazem um alerta direto às regiões tropicais. Segundo o artigo, levar árvores de crescimento rápido para esses ecossistemas exige cautela especial, principalmente onde faltam recursos para manejo e quando as espécies têm traços associados à invasão.
O recado chega num momento em que restauração florestal e créditos de carbono movimentam a economia amazônica. A escolha das mudas define se um reflorestamento devolve a floresta original ou cria uma paisagem diferente da que existia ali.
Os próprios autores admitem que os números podem estar subestimados, porque faltam dados de distribuição para muitas espécies. O próximo passo, dizem, é cruzar o mapa com informações sobre quais dessas árvores já se espalham sozinhas.
Se mais da metade das árvores do mundo já mudou de endereço, quantas das que plantamos hoje na Amazônia vão se tornar o problema de amanhã?
Com informações da revista Current Biology (Zhu et al., 2026).
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