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Pinheiros exóticos crescem até 4 vezes mais no Hemisfério Sul e resistem melhor à seca, revela estudo

Pinheiros exóticos crescem até 4 vezes mais no Hemisfério Sul e resistem melhor à seca, revela estudo
Ilustração: IA

Pesquisa publicada na Nature reavalia a ideia de que árvores de crescimento rápido sempre lidam pior com a falta de água.

Uma árvore plantada longe de sua terra de origem pode crescer mais rápido e ainda lidar melhor com a falta de água. Foi isso que pesquisadores observaram em pinheiros do Hemisfério Norte cultivados no Hemisfério Sul, especialmente no Chile, onde algumas populações cresceram até quatro vezes mais e sofreram menos durante as secas. O resultado, publicado em 2 de setembro de 2026 na revista Nature, coloca em xeque uma associação comum na ecologia: a de que crescimento acelerado costuma vir acompanhado de menor tolerância ao estresse hídrico.

A pesquisa analisou nove espécies da família Pinaceae em 192 áreas espalhadas pelas Américas, Europa, África e Oceania. Entre elas estavam o pinheiro-radiata, o pinheiro-ponderosa, o pinheiro-de-lodgepole e o pinheiro-escocês. Todas são originárias do Hemisfério Norte, mas foram avaliadas em locais onde passaram a ser cultivadas fora de sua distribuição natural.

O que os anéis das árvores revelaram

Para reconstruir a resposta das árvores ao clima, a equipe retirou amostras cilíndricas dos troncos. Esses testemunhos permitem observar a largura dos anéis formados a cada ano, uma espécie de registro do crescimento e das condições enfrentadas pela planta.

Os pesquisadores compararam populações de pinheiros em plantações e outros ambientes do Hemisfério Sul com árvores das mesmas espécies em suas áreas nativas no Hemisfério Norte. No Chile, as coletas ocorreram nas regiões de Maule e Ñuble, na faixa central do país, e nas proximidades de Coyhaique, no sul.

Segundo o Instituto de Ecologia e Biodiversidade, o estudo publicado em 2 de setembro de 2026 na revista Nature mostrou que pinheiros exóticos do Hemisfério Sul cresceram até quatro vezes mais que populações das mesmas espécies no Hemisfério Norte e também apresentaram maior resistência e recuperação após secas.

Mais crescimento sem perder a capacidade de recuperação

Resistência à seca, neste caso, significa que o crescimento anual foi menos prejudicado durante os períodos secos. Já a resiliência indica a capacidade de recuperar o ritmo depois que a disponibilidade de água voltou a melhorar. As árvores do Hemisfério Sul se saíram melhor nos dois aspectos.

A equipe encontrou pistas para explicar a combinação. Os pinheiros que cresciam fora de seu território original apresentavam concentrações maiores de reservas de carbono, chamadas de carboidratos não estruturais. Esses compostos funcionam como uma fonte de energia para a planta e podem ajudar a atravessar fases de estresse hídrico.

Outra evidência veio da assinatura de isótopos de carbono presente nas árvores. O padrão observado estava associado à capacidade de manter a fotossíntese, processo pelo qual a planta produz energia, mesmo quando a água se torna escassa.

Quando a ausência de inimigos vira vantagem

Uma das hipóteses levantadas pelos autores é que os pinheiros tenham deixado para trás parte da pressão biológica existente em seu habitat de origem. No Hemisfério Norte, essas árvores convivem com herbívoros especializados, agentes causadores de doenças e espécies que competem pelos mesmos recursos.

Fora dessa área, especialmente em regiões sem pinheiros nativos, uma parcela do carbono e dos recursos que seria usada na defesa pode ser direcionada ao crescimento e à manutenção das funções vitais durante a seca. É uma possibilidade ecológica, e não uma conclusão de que toda árvore exótica terá o mesmo comportamento.

Pinheiros exóticos crescem até 4 vezes mais no Hemisfério Sul e resistem melhor à seca, revela estudo
Foto: Alex Fajardo

Essa vantagem ajuda a entender por que algumas espécies se estabelecem com facilidade em novos territórios. O mesmo conjunto de características que favorece crescimento rápido e tolerância à seca também pode aumentar o risco de invasão biológica, quando a planta ultrapassa os limites das áreas de cultivo e passa a ocupar ambientes naturais.

O alerta que vem das florestas nativas do Chile

O estudo não observou apenas os pinheiros. No Chile, também foram analisadas florestas secundárias de Nothofagus próximas a plantações. O grupo incluiu raulí, coihue, roble e lenga, espécies nativas encontradas nas áreas de Maule, Ñuble e Coyhaique.

Essas árvores ficaram em uma posição intermediária. Cresceram mais que os pinheiros avaliados em suas regiões nativas do Hemisfério Norte, mas menos que os pinheiros plantados no Hemisfério Sul. Em relação à seca, porém, apresentaram tolerância semelhante à das espécies exóticas.

Há uma diferença importante no armazenamento de carbono. Embora os Nothofagus cresçam mais lentamente, sua madeira tem maior densidade. Isso significa que, por unidade de volume, o tecido lenhoso pode concentrar mais carbono, um dado relevante para projetos de restauração e manejo florestal.

Por que a descoberta importa para a Amazônia

Os resultados não autorizam transferir automaticamente plantações de pinheiros para a Amazônia. As espécies analisadas, os solos, o clima e a história ecológica dos locais estudados são diferentes dos encontrados nos estados amazônicos, como Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

A conexão regional está justamente no alerta sobre soluções florestais baseadas apenas em crescimento rápido. Em uma região sujeita a mudanças no regime de chuvas, períodos de estiagem e pressão sobre a vegetação nativa, a capacidade de uma espécie crescer depressa não basta para definir se ela é adequada. Também é preciso considerar sua relação com a fauna, a competição com espécies locais, o risco de disseminação e a quantidade de carbono retida por unidade de madeira.

Para a Amazônia, a mensagem mais segura da pesquisa é que resistência à seca e velocidade de crescimento devem ser avaliadas junto com a conservação da biodiversidade. Uma espécie eficiente em uma plantação pode produzir efeitos diferentes quando introduzida em áreas naturais, sobretudo se encontrar poucos inimigos biológicos.

Uma espécie invasora já preocupa no sul do Chile

Entre os pinheiros analisados está o lodgepole, ou Pinus contorta. No Chile, sua expansão para fora das plantações é considerada uma preocupação de conservação na região de Aysén, onde pode avançar sobre ecossistemas nativos.

Os autores ressaltam que a pesquisa não foi desenhada para testar a invasividade das espécies. A possível ligação entre crescimento acelerado, tolerância à seca e capacidade de ocupar novos ambientes ainda precisa ser investigada em estudos específicos.

O trabalho foi liderado por Alex Fajardo, do Instituto de Ecologia e Biodiversidade e da Universidade de Talca, com Frida I. Piper e Claudia Reyes-Bahamonde, além de colaboradores de dez países. Os próximos estudos deverão avaliar se as características observadas ajudam a explicar a expansão de pinheiros invasores e como florestas nativas podem ser priorizadas em estratégias de adaptação climática.

Com informações de Instituto de Ecologia e Biodiversidade.

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