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Árvores tropicais ajustam 11 características à seca e desafiam modelos climáticos após estudo em Porto Rico

Árvores tropicais ajustam 11 características à seca e desafiam modelos climáticos após estudo em Porto Rico
Ilustração: IA

Pesquisa publicada na Nature mostra que 17 de 18 espécies adaptaram o transporte de água à quantidade de chuva local.

Em uma floresta tropical de Porto Rico, árvores da mesma espécie apresentaram comportamentos diferentes para enfrentar a falta de chuva. Em estudo publicado em 20 de agosto de 2026 na revista Nature, pesquisadores analisaram 290 árvores de 18 espécies e descobriram que 17 delas ajustaram características hidráulicas conforme o regime de chuvas do local. A flexibilidade permite que algumas plantas resistam melhor à seca sem precisar ser substituídas por outra espécie, um fator que ainda costuma ser ignorado pelos modelos climáticos.

A descoberta chama atenção porque as florestas tropicais estão entre os principais reservatórios de carbono do planeta. Quando a seca provoca a morte de muitas árvores, áreas que hoje retiram dióxido de carbono da atmosfera podem passar a liberar esse gás. O resultado também interessa diretamente aos estudos sobre a Amazônia, embora a pesquisa tenha sido realizada no Caribe e não possa ser aplicada automaticamente a todas as espécies amazônicas.

Como as árvores enfrentam a falta de água

A água sobe das raízes até as folhas por meio de pequenos tubos presentes nos tecidos da planta. Quando o solo seca, a força necessária para puxar a água aumenta. Nesse processo, bolhas de ar podem entrar nos tubos e interromper o fluxo, formando o que os botânicos chamam de embolia.

Árvores mais tolerantes à seca costumam desenvolver tubos capazes de continuar funcionando sob uma pressão maior. Elas também fecham os poros das folhas, chamados estômatos, antes que o sistema hidráulico chegue ao limite. Outra estratégia é evitar a seca, armazenando mais água no tronco, nos galhos e nas folhas para usá-la durante os períodos sem chuva.

O estudo mediu 11 características relacionadas a essas estratégias. Nos ambientes mais secos, as árvores apresentaram maior resistência à formação de embolias. Já nos locais mais úmidos, indivíduos das mesmas espécies armazenaram mais água nos caules.

Seis reservas revelaram a diferença

Porto Rico reúne uma grande variação de chuva em uma área relativamente pequena. A precipitação anual vai de aproximadamente 1.000 milímetros nas florestas mais secas a 4.000 milímetros na floresta tropical de El Yunque. Essa diferença permitiu comparar espécies que vivem em pelo menos duas reservas florestais ao longo do gradiente climático.

Os pesquisadores coletaram galhos do dossel entre 7h e 9h. Cada ramo tinha pelo menos 1,5 metro de comprimento. Depois do corte, os galhos foram colocados em sacos plásticos escuros, com papel-toalha úmido, e recortados debaixo d’água para preservar o sistema de transporte interno.

As amostras foram levadas ao laboratório em até duas horas. Câmeras montadas com microcomputadores Raspberry Pi fotografaram folhas e caules a cada cinco minutos, durante até quatro dias. As imagens permitiram registrar o momento em que as bolhas de ar se formavam nos vasos que conduzem água.

Flexibilidade existe, mas não explica tudo

Segundo a Nature, 17 das 18 espécies analisadas alteraram pelo menos uma característica hidráulica de acordo com a chuva registrada nas reservas de Porto Rico em 2026. Em algumas espécies, apenas um traço mudou. Em outras, foram observadas alterações em até dez características.

A espécie que não demonstrou flexibilidade foi a Cecropia schreberiana, uma árvore pioneira de crescimento rápido. Segundo María Uriarte, ecóloga da Universidade Columbia e uma das pesquisadoras envolvidas no trabalho, essa estratégia pode priorizar o crescimento acelerado em detrimento da capacidade de ajuste fisiológico.

“A descoberta mais marcante é que as características hidráulicas foram muito mais flexíveis dentro das espécies do que se imaginava”, afirmou María Uriarte em resposta enviada por e-mail à Earth.com.

A composição de espécies, no entanto, ainda teve peso maior do que a flexibilidade individual. A substituição de espécies respondeu por cerca de 39% da variação das características entre os locais. As mudanças dentro de uma mesma espécie representaram, em média, 13%. Nos dois traços mais diretamente ligados à sobrevivência durante a seca, porém, a participação chegou a 17%.

Entenda o caso

Modelos que projetam o futuro das florestas geralmente usam um conjunto fixo de características para cada espécie. Nesse cenário, uma floresta só se torna mais resistente ao clima seco quando algumas espécies desaparecem e outras ocupam seu lugar.

O estudo indica que parte da adaptação pode ocorrer dentro da própria espécie. Assim, árvores da mesma espécie poderiam apresentar diferentes níveis de resistência conforme o ambiente, sem depender imediatamente de uma mudança na composição da floresta.

O resultado ainda não significa que as florestas tropicais estejam protegidas contra o aquecimento. A flexibilidade pode desaparecer quando a seca se torna prolongada ou severa demais.

Limites da pesquisa e relação com a Amazônia

Os próprios autores apontaram limitações. As três áreas mais úmidas estavam sobre solos vulcânicos, que retêm água, enquanto as três áreas secas tinham solos calcários, de drenagem mais rápida. Isso significa que não foi possível separar totalmente o efeito da chuva daquele provocado pelo tipo de solo.

As coletas também ocorreram apenas durante a estação chuvosa. Algumas características hidráulicas podem mudar ao longo do ano. Além disso, a equipe analisou principalmente folhas e galhos, sem medir em profundidade a capacidade de as árvores desenvolverem raízes mais profundas em períodos secos.

Na Amazônia, essa questão é especialmente relevante para os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A região reúne florestas submetidas a diferentes volumes de chuva, tipos de solo e históricos de estiagem. Ainda assim, os dados de Porto Rico não permitem concluir que as espécies amazônicas responderão da mesma maneira.

“Sob uma seca contínua ou cada vez mais intensa, a capacidade de ajuste das árvores pode deixar de ser suficiente para manter seu funcionamento e sua sobrevivência”, alertou Uriarte.

O próximo passo será combinar fisiologia, genética e experimentos de campo para descobrir quanto dessa flexibilidade é herdado, quanto surge durante o crescimento e se pode ser transmitido às gerações seguintes. Os pesquisadores também defendem modelos climáticos capazes de representar variações dentro de uma mesma espécie.

Perguntas frequentes

Todas as árvores tropicais conseguem se adaptar à seca?

Não. No estudo, uma das 18 espécies analisadas não apresentou mudança detectável nas características hidráulicas. A capacidade de ajuste também pode se esgotar durante secas prolongadas ou muito intensas.

O estudo foi feito na Amazônia?

Não. A pesquisa foi realizada em seis reservas florestais de Porto Rico. Os resultados podem ajudar a formular novas perguntas sobre a Amazônia, mas não substituem estudos com espécies e ambientes amazônicos.

O que muda nos modelos climáticos?

Os modelos podem passar a considerar que uma mesma espécie apresenta características diferentes conforme o ambiente. Isso pode melhorar as previsões sobre a sobrevivência das florestas tropicais diante do aumento das secas.

Novas pesquisas com genética, raízes e experimentos de longa duração deverão indicar até onde essa capacidade de adaptação consegue proteger as florestas tropicais.

Com informações de Nature.

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